sexta-feira, 23 de novembro de 2018

i never believed we'd survive

i never expected we'd grow this old
or see both of us in this place
i never believed we'd survive those years
those hard days and those fears
but - look at us - we did it
to cry over new spaces
created through the loss
i fill gaps with words as i used to
only because i miss the way
we deciphered our languages,
their symbols and their codes
i fill gaps with words as i used to
because the emptiness is unbearable
i got into the train and a man
in front of me started to search
the lotto result on google
and behind me another man
wearing a t-shirt with letters
i could read on the glass
- tenha um bom dia -
("aid mob mu ahnet" in the reflex)
he didn't know me or notice me
nor could imagine that at 11 pm
my day was prohibited to be good
the train went slowly through the railway
making me think about little tragedies
we experienced in this lifetime
once again, i thought,
once again memories rise
and feelings crumble
i never expected we'd arrive at this age
when we perceive that desperation
and weakness were left behind
and nobody knows - or wants to know - where
because between são bento station
and the exit of jardim são paulo
i remembered in a flash
adventures of our young selves
feeling the pulse of blood and flesh
so close and untouchable as a red firework
i fill gaps with words because there is no
other way to suffer and surpass suffering
i never expected to see the world end again
if it wasn't too late, if i wasn't so sad,
i would describe the angry movement
of an old man ripping lotto tickets
and tell how life, fate and chance
play an unfortunate fortuitous game with us.
we can survive but never  win.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

deus no coração e o diabo no quadril


Eu não sabia que o Carnaval na Bahia era tudo o que eu queria até poucas semanas antes de ir. Nunca tinha considerado viajar nessa época, ir atrás de todos os trios elétricos possíveis, criar metas mentais de coisas que eu gostaria de comer quando pusesse o pé na rua. A verdade é que quando eu era muito pequena cantava sem parar "A cor dessa cidade" e dizia que a música era da Daniela Melculi, porque ainda não me saíam bem os "r". Ser criança nos anos 90 era ter de cor e salteado todas as músicas do "É o Tchan!" na cabeça, tentando adivinhar o próximo destino improvável do grupo, e ver propagandas de televisão reproduzindo o tal do axé music adoidado. Ter nascido nos anos 90 também me introduziu desde cedo o clipe do Michael Jackson no Pelourinho e me fez acordar na Copa do Mundo de 2002 na hora em que o Olodum começava a tocar o Hino Nacional. O Carnaval da Bahia era só o condensamento de alguma coisa que eu sempre vivi. Porque eu podia imaginar que ia ver Daniela e Olodum em algum dos circuitos, que ia me emocionar com a saída do Ilê Aiyê na ladeira do Curuzu. Mas eu não sabia que nas duas primeiras noites eu estaria de repente tão perto de Caetano Veloso (no trio de BaianaSystem e depois no trio do Cortejo Afro) e que quando menos esperasse ia olhar pra cima e ver Pepeu Gomes, todo de preto, no sol de verão da Bahia, desligando a guitarra. De repente eu me dei conta de que a Bahia era o sinônimo de música pra mim, porque mesmo quando me meti a ouvir rock na adolescência, Pitty e Raul Seixas não eram alienígenas no mp3 player de 256mb.





domingo, 22 de julho de 2018

corpo de quinta

Na quinta-feira passada, fiz uma fala sobre mulheres artistas no Estúdio Nu e aqui está a íntegra do texto. A foto é da Camila Fontenele.

É possível tensionar o mundo pelas palavras e, se levarmos adiante esse pensamento, é possível transformá-lo a partir de imagens. Na História da Arte, imagens e palavras andam juntas, numa construção de sentidos mas também de consagrações. Falar de mulheres nas artes é então falar sobre presenças e ausências, sobre visualidades e teorias. É falar sobre criação de mundos e também de limites desses universos. Falar de mulheres aqui será falar de mulheres que produziram imagens mas também de mulheres que me fizeram pensar sobre o tema do gênero nas artes.

Não é à toa que a maior parte das conversas sobre História da Arte Feminista começa com a pergunta posta em 1971 por Linda Nochlin no ensaio “Por que não houve grandes artistas mulheres?”. De 1971 para 2018 as coisas parecem ter mudado um bocado, mas essa questão ainda é central no debate sobre mulheres nas artes. Funciona antes de mais nada como uma provocação porque Nochlin é capaz de nos convencer de que o problema das mulheres nas artes nunca foi sua inexistência ou uma inabilidade biológica mas sim a dificuldade de acesso aos meios e ao cânone.

Linda Nochlin colocou em texto algo que anos depois as Guerrilla Girls colocaram em ação: escancarou a ausência da história de mulheres artistas como um vazio forjado. Muitas vezes forjado dentro de reservas técnicas de museus ou de compêndios de História da Arte. Uma ocultação que não é mérito dos nossos contemporâneos apenas, mas que percorre uma longa tradição. Nochlin no entanto adverte-nos sobre o problema de encaixar na narrativa da história da arte um punhado de mulheres excepcionais, porque isso periga em disfarçar os obstáculos enfrentados por todas que pretenderam ser artistas.



Eu me preocupo muito com o tema da narrativa na História da Arte ou na maneira como as histórias são contadas. A invenção do mito do artista genial e por desdobramento lógico do gênio sofredor quase nunca tinha como protagonista uma mulher. A História da Arte como disciplina foi talhada sobre as biografias de pintores e escultores feitas por Giorgio Vasari, na Renascença, mas as trajetórias engrandecedoras de artistas sofredores preencheram páginas e mais páginas de livros e manuais ao longo dos séculos. Não quero me estender nesse assunto, mas pensar em dois caminhos possíveis para romper com uma prática muito recorrente na História da Arte. O primeiro, apresentado a mim por Norbert Elias, é o de buscar entender a obra de arte não como um objeto autonomamente criado por uma mente fantástica, mas sim profundamente atrelado à sociedade a que artista e obra pertencem. O segundo, quem me apresentou foi a teórica Avtar Brah, que coloca a necessidade de pensarmos na agência dos nossos objetos de estudo a partir de relações sociais e experiências individuais que interagem de maneira complexa.

Ao nos confrontarmos com histórias de gênios excepcionais e de artistas que sofreram, há o perigo de colocarmos as mulheres artistas que conhecemos nessa mesma chave de interpretação. A pesquisadora Patricia Mayayo tem um importante trabalho em que tira Frida Kahlo - talvez o maior símbolo de mulher artista que foi incorporada ao cânone - desse lugar do sofrimento. A imagem de Frida está em absolutamente todos os lugares que pudermos imaginar, de capas de celular a desfile de moda. Ao contar sua história, muitos escolhem falar do aborto que sofreu, dos traumas e dores relacionados a um acidente de bonde e do relacionamento conturbado com Diego Rivera. O problema de só olhar para essa face, muitas vezes indicada por Frida em suas obras e em seu diário - publicado como fac-símile -, é perder todas as outras dimensões da artista: seu trânsito entre gêneros e orientações sexuais, sua inteligência em construir sua própria imagem e a de um México presente no imaginário de pessoas no mundo inteiro e seu círculo social amplo e agitado.

Avtar Brah gosta de pensar em um mundo em que o "eu" não é estático. Assim, a agência que as artistas mulheres tem varia dentro de relações sociais complexas, com diferentes elementos em ação (sua origem social, por exemplo, ou a época e o local em que produziram suas obras). Mas a gente só chega nesse olhar múltiplo sobre as obras de mulheres nas artes com pesquisa. E cada vez que a gente se debruça sobre as trajetórias dessas artistas mais questões parecem surgir.

No caso do Modernismo brasileiro, o cânone sempre contou com duas mulheres em um lugar de centralidade: Anita e Tarsila. É uma especificidade que chama a atenção, visto que das vanguardas artísticas europeias tendemos a lembrar de um punhado de nomes masculinos e raramente somos apresentados aos nomes femininos que produziram no mesmo ambiente que os homens. O problema é que a recepção das obras de ambas não escaparam de uma leitura feita através de seu gênero. Anita é lembrada como precursora do Modernismo no Brasil muito mais pela crítica que recebeu do escritor Monteiro Lobato em 1917 do que pela expressividade de sua obra. Um grupo de artistas aglutinou-se em torno de sua figura, com a liderança de Mário de Andrade. Na época, a maior parte das leituras feitas da obra de Anita, quando conseguia escapar da sua posição de vítima na Exposição de Arte Moderna, mobilizava atributos masculinos para valorizá-la. É interessante pensar, então, de que modo a entrada dessas mulheres artistas no cânone se deu e com que propósitos.

Vale mencionar, como apontou a tese de doutorado de Ana Paula Cavalcanti Simioni, que houve no Brasil mulheres artistas no século XIX, que realizavam obras dentro dos moldes ditos acadêmicos. Abigail de Andrade, Berthe Worms, Julieta de França, Nicolina Vaz e Georgina de Albuquerque são no entanto nomes difíceis de reconhecer porque essas artistas nunca tiveram atrelado a si o estatuto de profissionais, condenadas a serem eternamente amadoras. A tese de Simioni destaca o acesso desigual às instituições de formação artística e o papel da crítica de arte como formas de apagamento das 212 artistas que expuseram entre 1844 e 1922 em exposições gerais e salões nacionais.


Nesse afã de estudar os pontos-de-encontro entre a teoria feminista e a História da Arte, muitas coisas ainda me intrigam. Se nos últimos anos vimos um aumento, não só no Brasil, de exposições que tematizam a questão de gênero ao problematizar os números reduzidos de mulheres artistas nas coleções ou ao introduzir artistas aos corredores e galerias - uma transformação do conteúdo, enfim - pergunto-me quanto tempo ainda levaremos para uma radicalização da forma dos museus e outros espaços culturais. Pergunto-me quando as relações de trabalho dentro desses lugares serão favoráveis a todas as mulheres e não apenas àquelas que tem suas obras expostas. Pergunto-me quando os conselhos administrativos e curatoriais terão igualdade de gênero mas que não sejam apenas compostos de pessoas de mesma origem étnica. Porque falar de desigualdade é importante mas falar de acessos negados também o é.

Griselda Pollock no texto “Modernity and the spaces of femininity” coloca em discussão a experiência da cidade na modernidade, apontando a impossibilidade de uma flâneur feminina. O atributo do anonimato do caminhante citadino do personagem de Baudelaire era quase que por definição masculino, acentuando a dicotomia entre público e privado, onde a mulher só pertenceria à segunda esfera. Pollock sustenta o argumento ao analisar obras de artes feitas por mulheres e homens do mesmo período, como as de Mary Cassatt e Claude Monet. Se as mulheres de classe média “conquistaram” esse espaço público - lugar que nunca deixou de ser ocupado por mulheres trabalhadoras pobres -, pergunto-me em que medida museus e instituições culturais (para não dizer todos os ambientes que frequentamos) foram transformados pela presença feminina. Aqui, mais uma vez, penso nas relações de trabalho e de classe dentro desses locais. Quantas instituições culturais enxergam em sua força-de-trabalho a particularidade de seus corpos e experiências, como o ciclo menstrual e a maternidade, e quantas preocupam-se com o deslocamento desses corpos, em geral de bairros periféricos para prédios localizados em regiões privilegiadas das grandes cidades?

É também de Griselda Pollock alguns apontamentos sobre o papel do museu e sua relação com o feminismo no livro “Encuentros en el museo feminista virtual”. Diz a autora (tradução minha):
O museu na sociedade contemporânea está cada vez mais ligado aos circuitos de capital vinculados ao entretenimento, ao turismo, ao patrimônio, ao financiamento comercial e aos investimentos. Os homens ganham dinheiro às custas das mulheres e pagam dinheiro por elas; no entanto, o dinheiro não chega às feministas precisamente porque o feminismo, como Luce Irigaray argumentou, ocorre quando as mercadorias (mulheres, no sistema falocêntrico) rechaçam esses circuitos e criam uma sociabilidade e uma política entre elas.
A entrada de mulheres artistas nos museus corresponde a uma demanda social; ao mesmo tempo, pelo que aponta Pollock, os museus parecem espaços atrelados demais a uma determinada lógica de circulação de capitais para dar conta de romper com alicerces da desigualdade. Por isso, talvez, tantas iniciativas potentes do ponto de vista da arte contemporânea sejam pensadas fora ou além dos museus, com organizações coletivas (dividi a fala com YVY e #lambebuceta).


Mesmo quando as artistas não se posicionam como feministas, suas obras e trajetórias colocam a feminilidade idealizada em um lugar de desconforto. Algumas são mulheres que se apaixonaram por outras mulheres, que tiveram casos extraconjugais, que não tiveram filhos, que desenvolveram obras racionais e poéticas. Algumas deram vazão a seus anseios políticos através de suas obras, algumas nasceram homens, algumas colocaram diante do público suas ancestralidades e questões étnicas. Praticamente todas as artistas mulheres negociaram suas carreiras artísticas dentro de estruturas dominadas por pessoas que foram, por muito tempo, entendidas como o padrão de neutralidade, enquanto a maioria do mundo (não-homens, não-brancos, não-ricos) era vista como o exótico ou particular. Aos criar narrativas complexas sobre o mundo da arte e seus agentes, a História da Arte Feminista nos ensina a tensionar o mundo pelas palavras e ver sua transformação através de imagens.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

why do you write like you're running out of time?

Minha mãe era um pouco mais nova do que eu sou hoje e meu pai um pouco mais velho quando os dois se conheceram. Cada um tinha escrito um livro e organizaram com outros autores independentes uma noite de lançamento, descobriram que moravam no mesmo bairro, e começaram a namorar. Eu só fui saber disso na adolescência, numa época em que eu estava na dúvida sobre se queria ser jornalista ou professora de história (treze anos depois e essa ainda não é uma questão pacificada na minha vida). Desde que saí da Capitolina e entrei no mestrado, as coisas que tenho escrito tem sido bem diferentes e para um público bem específico (a banca de qualificação, por exemplo). Mas desde o ano passado, alguns convites para escrever me fizeram particularmente contente.


Eu já tinha pra mim que ir para a Deriva era uma das melhores coisas a se fazer quando queria ler algum texto mais longo, às vezes com um tom mais de crônica, às vezes mais literário. Ser convidada para escrever para a segunda edição, que saiu em outubro de 2017, foi um prazer tremendo. Debrucei-me a escrever sobre coisas que me acompanham rotineiramente: cinema e história. O texto "Memória do mundo" parte de um curta de Alain Resnais sobre a Biblioteca Nacional da França chamado "Toda a memória do mundo", mas tenta chegar nas relações entre colecionismo, o acaso e a psicanálise.


Os caras da Zumbido, revista digital do Selo Sesc, pediram para eu escrever sobre música numa coluna que eles tem chamada "Ruído interno". Pelo que me contaram, gostaram do texto que eu tinha escrito sobre a M.I.A. na época em que ela lançou o AIM, mas na hora que aceitei o convite pedi para falar de musicais, porque uma ideia vinha me martelando a cabeça na época. Eu gosto de muitas histórias que são contadas com músicas no meio e, apesar de construir um caminho pelo absurdo, sou capaz de me identificar por tantos personagens cantarolantes. No texto "Musicais e a realidade através do absurdo", tentei ser justa no argumento e consegui não mencionar que, apesar de ter recebido a etiqueta de musical, eu detesto "La La Land".


Por conta da pesquisa do mestrado, fiquei alguns minutos me perguntando sobre como escrever sobre mulheres artistas. Sobre como escrever, em último caso, sobre mulheres. Como não criar um discurso essencialista - até porque se essa é zero minha visão de mundo sobre o gênero, não faria sentido construir um caminho interpretativo diferente. Conversando com Taís sobre o assunto, ela me convidou para desabafar na Mulheres que escrevem. Escrevi o texto "Mulheres que escrevem sobre mulheres" às vésperas de entregar a qualificação à banca. Olhar agora para isso é engraçado, porque muitos dos meus questionamentos permanecem mas ganharão outros contornos na dissertação final.

Pouco tempo depois, Seane me perguntou se eu não queria escrever crônicas para a publicação. A princípio, não quis, mas disse que ia pensar e, se conseguisse desenvolver a série que estava com vontade, responderia positivamente. O segundo texto saiu e, depois dele, mais três. Todos já publicados. Em cada um deles parto de um objeto para pensar o afeto. Meu interesse era construir uma narrativa em que as pessoas amadas não tivessem revelados seus gêneros, tentando trabalhar com palavras e construções verbais neutras e com referências que levam a uma dúvida. No décimo episódio do podcast Mulheres que escrevem, Seane e Estela conversaram um pouco sobre essa série (e eu confesso sem o menor pudor que foi muito estranho e que fiquei emocionada). Os textos todinhos estão aqui:


Por fim, por causa da minha pesquisa de mestrado, fui convidada por Antonio Carlos Abdalla a escrever a cronologia do colecionador e crítico de arte Theon Spanudis para o livro que ele estava organizando com texto de Ladi Biezus. O livro foi lançado junto com uma exposição com obras de artistas que Spanudis colecionava. Gostaria de fingir que estava preparada para algo do tipo, mas no dia do lançamento eu só pensava "eita que doideira tudo isso!".

terça-feira, 3 de abril de 2018

you're incandescent



Na última semana, tenho ouvido músicas de quase que só três artistas incansavelmente. Como se eu só tivesse um ou dois humores; o terceiro aparecendo para eu me sentir um pouco mais complexa. Tenho muita dificuldade em me apaixonar por coisas novas e sempre acabo correndo de volta para os braços das mesmas músicas. Me pergunto se isso vale para outras esferas da minha vida, e talvez eu sempre busque refúgio nos mesmos lugares, nas mesmas pessoas. Essas fotos de meados do ano passado me mostram algumas dessas pessoas em alguns momentos para os quais seria bom voltar de vez em quando.














(O time do São Paulo sempre servindo de ótima metáfora para a minha experiência humana na Terra: mediano na maior parte do tempo & surpreendentemente chegando mais longe do que imaginávamos; essa foto tirei no Pacaembu, em mais uma das viradas no placar que salvaram o time do rebaixamento no Campeonato Brasileiro)