quarta-feira, 18 de julho de 2018

why do you write like you're running out of time?

Minha mãe era um pouco mais nova do que eu sou hoje e meu pai um pouco mais velho quando os dois se conheceram. Cada um tinha escrito um livro e organizaram com outros autores independentes uma noite de lançamento, descobriram que moravam no mesmo bairro, e começaram a namorar. Eu só fui saber disso na adolescência, numa época em que eu estava na dúvida sobre se queria ser jornalista ou professora de história (treze anos depois e essa ainda não é uma questão pacificada na minha vida). Desde que saí da Capitolina e entrei no mestrado, as coisas que tenho escrito tem sido bem diferentes e para um público bem específico (a banca de qualificação, por exemplo). Mas desde o ano passado, alguns convites para escrever me fizeram particularmente contente.


Eu já tinha pra mim que ir para a Deriva era uma das melhores coisas a se fazer quando queria ler algum texto mais longo, às vezes com um tom mais de crônica, às vezes mais literário. Ser convidada para escrever para a segunda edição, que saiu em outubro de 2017, foi um prazer tremendo. Debrucei-me a escrever sobre coisas que me acompanham rotineiramente: cinema e história. O texto "Memória do mundo" parte de um curta de Alain Resnais sobre a Biblioteca Nacional da França chamado "Toda a memória do mundo", mas tenta chegar nas relações entre colecionismo, o acaso e a psicanálise.


Os caras da Zumbido, revista digital do Selo Sesc, pediram para eu escrever sobre música numa coluna que eles tem chamada "Ruído interno". Pelo que me contaram, gostaram do texto que eu tinha escrito sobre a M.I.A. na época em que ela lançou o AIM, mas na hora que aceitei o convite pedi para falar de musicais, porque uma ideia vinha me martelando a cabeça na época. Eu gosto de muitas histórias que são contadas com músicas no meio e, apesar de construir um caminho pelo absurdo, sou capaz de me identificar por tantos personagens cantarolantes. No texto "Musicais e a realidade através do absurdo", tentei ser justa no argumento e consegui não mencionar que, apesar de ter recebido a etiqueta de musical, eu detesto "La La Land".


Por conta da pesquisa do mestrado, fiquei alguns minutos me perguntando sobre como escrever sobre mulheres artistas. Sobre como escrever, em último caso, sobre mulheres. Como não criar um discurso essencialista - até porque se essa é zero minha visão de mundo sobre o gênero, não faria sentido construir um caminho interpretativo diferente. Conversando com Taís sobre o assunto, ela me convidou para desabafar na Mulheres que escrevem. Escrevi o texto "Mulheres que escrevem sobre mulheres" às vésperas de entregar a qualificação à banca. Olhar agora para isso é engraçado, porque muitos dos meus questionamentos permanecem mas ganharão outros contornos na dissertação final.

Pouco tempo depois, Seane me perguntou se eu não queria escrever crônicas para a publicação. A princípio, não quis, mas disse que ia pensar e, se conseguisse desenvolver a série que estava com vontade, responderia positivamente. O segundo texto saiu e, depois dele, mais três. Todos já publicados. Em cada um deles parto de um objeto para pensar o afeto. Meu interesse era construir uma narrativa em que as pessoas amadas não tivessem revelados seus gêneros, tentando trabalhar com palavras e construções verbais neutras e com referências que levam a uma dúvida. No décimo episódio do podcast Mulheres que escrevem, Seane e Estela conversaram um pouco sobre essa série (e eu confesso sem o menor pudor que foi muito estranho e que fiquei emocionada). Os textos todinhos estão aqui:


Por fim, por causa da minha pesquisa de mestrado, fui convidada por Antonio Carlos Abdalla a escrever a cronologia do colecionador e crítico de arte Theon Spanudis para o livro que ele estava organizando com texto de Ladi Biezus. O livro foi lançado junto com uma exposição com obras de artistas que Spanudis colecionava. Gostaria de fingir que estava preparada para algo do tipo, mas no dia do lançamento eu só pensava "eita que doideira tudo isso!".

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