segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

a internet está morta, mas passa bem

Eu não sei como vocês tem se sentindo a respeito da internet, mas eu tenho tido sentimentos contraditórios com a rede mundial de computadores. Nenhuma novidade, mas possivelmente uma exacerbação de coisas que já estavam aqui. Esse exagero de sensações me levam para caminhos muito confusos. E um deles é a nostalgia daquela época em que uma parte do mundo estava jogando Pokémon, forçando o emulador a aceitar a alternância entre democracia e anarquia, como se naqueles dias tivéssemos realmente nos divertido por aqui. Outros caminhos podem ser um cansaço tremendo e uma curiosidade constante com o que está acontecendo. Afinal, coisas que eram muito simples de entender e que são da natureza da rede - como arranjos e inovações feitos por muitos e de forma desordenada - vai sendo aos poucos entendido como mais um elemento geopolítico em disputa (sempre foram, mas a discussão sobre neutralidade de rede tem colocado em explícita tensão a internet como entendemos e grandes empresas e países poderosos). Tomando banho, dia desses, eu me dei conta de que a minha vontade de ler textos sobre a internet tem uma origem em comum com meu interesse em ler coisas sociológicas em geral: a internet é só mais um dos mundos onde eu habito.

Desde que eu comecei uma rotina de exercícios na academia, tenho ouvido muitos podcasts. Eu chego a desconfiar que só me matriculei na educação física de adultos para ficar ouvindo esses programas de rádio. Não à toa, um dos meus favoritos atualmente chama-se Reply All e teve um episódio muito intrigante sobre o poder e a rede, chamado "The Prophet" (nesse dia, eu devo ter feito os exercícios da forma mais displicente de todas enquanto prestava atenção à história contada).
"Mas é um pouco estranho culpar a Internet. Tipo, somos nós. Essas pessoas que conhecemos e vemos todos os dias, se comportando como eles querem se comportar sob uma capa obscura. É como um espelho. É nossa responsabilidade.
Isso é o que eu sempre acreditei. Mas e se isso não for verdade? E se a gente descobrisse que a interent é ruim não por conta das pessoas que estão nela, mas por causa de pessoas poderosas que a desenham para ser assim?"
Às vésperas de uma campanha eleitoral que tem de tudo para ser bem uó, a internet é um ambiente de disputa e, a essa altura, não apenas entre visões políticas mas entre pessoas e máquinas que se comportam como pessoas. Não é uma novidade absoluta, e há quem defenda que se preocupar com robôs é muito ano passado: o olhar crítico seria mais bem-vindo à facilidade de comprar espaço nas timelines alheias, com algoritmos direcionando a publicidade política. E, então, sem que a gente percebesse muito bem como, até o termo "notícias falsas" ("fake news") deixou de ser pacificado em seu sentido, porque, afinal de contas, quem espalha notícias falsas não pode ser entendido como espalhador de notícias falsas e muitos creem na péssima máxima de que fins justificam os meios (BREAKING NEWS: não justificam).

O curioso neste momento em que as pessoas discutem notícias falsas por toda parte é pensar que na época em que eu fazia faculdade de História já se desenhava para mim uma percepção de que ter toda a informação do mundo diz muito pouco sobre as coisas. A gente ainda se debate na crença da verdade e, por isso, sofremos. Porque a verdade se pretende única e, ao não ser várias, é totalizante, e, ao totalizar, faz a gente esquecer que um fato é cheio de camadas ou dimensões, muitas delas não alcançáveis. Tem uma dúvida que em algum momento baterá à porta da historiadora e a assombrará por tempos incalculáveis: seria nossa disciplina uma ciência se ela é, ao mesmo tempo, plenamente narrativa? Transpondo a dúvida para outra área: poderia uma notícia ser informativa se ela, ao mesmo tempo, é construída por discursos? Viciada em fazer a crítica das fontes, sinto que essa é a contradição maior em que estamos metidos porque, afinal, nenhuma história ou nenhuma notícia é capaz de dar conta do todo; a boa notícia é que até as ciências ditas exatas sofrem de males semelhantes, porque passam por construções discursivas também. Mas as melhores histórias e as melhores notícias - bem como os melhores estudos científicos - são aquelas que são mais críveis e que de modo quase translúcido apresentam seus métodos, seus caminhos e, até, suas lacunas. Só que funcionar assim é funcionar muito mais devagar do que as notícias ditas URGENTES exigem.
"A lógica de consumir mais notícias - conseguir mais informações e fatos, mais números, mais probabilidades precisas - é uma questão de entretenimento, uma chance de indiretamente sentir-se sabendo e alinhar sua identidade com essa sensação. (...) O gosto por mais notícias vira seu próprio fim. (...) 'Notícias urgentes' não se referem tanto às notícias propriamente mas a uma forma de ser no mundo. Uma vez que a ilusão de notícias "que importam" é dissipada, não há mais nenhuma razão que não seja o entretenimento: eu devo aproveitar o fluxo de conteúdo como um fluxo e deixar ele me levar."
Mas não seriam sentimentos contraditórios sem ter alguma coisa de bom por aqui. Então, um pequeno espaço para respiro:

  • Pra quem gostaria de ter pouco trabalho e saber mais sobre temas relacionados a tecnologia e internet, além dos links que estão por todo o lado neste post, recomendo a newsletter da Ada. Outra recomendação é de um veículo que eu acho que faz um bom trabalho jornalístico na internet, justamente porque tenta aproveitar as especificidades do digital: o Nexo Jornal.
  • A Carol me mandou um link sobre aplicativos de paquera publicado no MIT Technology Review que aponta estudos que dizem que essa forma de se relacionar amorosamente com alguém está mudando a cara da sociedade: ao que tudo indica, houve um grande aumento em casamentos de pessoas de diferentes grupos étnicos e de relações mais estáveis no período estudado (talvez isso mostre que as pessoas estão se relacionando com pessoas diferentes delas e gostando? E talvez a convivência entre grupos diferentes seja um bom caminho para enxergar semelhanças entre os diversos?)
  • Tenho alguns sites favoritos que focam em assuntos como arte e design (eu sou a pessoa mais aleatória do mundo, no sentido de quais são minhas coisas favoritas no mundo), como o Hyperallergic, o Artsy e o AIGA. Mas esses tempos tropecei em links que me fizeram ver como o Medium - a ferramenta do Twitter para textões - tem sido usado para esses conteúdos meio artísticos-meio institucionais: o Stories do MoMA e a revista Zumbido do Selo Sesc.
  • Uma amiga me perguntou outro dia o que meu blog é para mim e eu achei uma pergunta engraçada mas muito boa. Como nunca soube escrever diários secretos - até porque se a gente escreve, o segredo não é mais secreto - e como escrevo blogs desde os 13 anos, ritualisticamente criados e apagados até chegar nesta versão da qual eu sinto menos vergonha do que todas as anteriores (mas sinto um pouco de vergonha, sim), ter blog é praticamente parte de quem eu sou, da forma como eu organizo minha vida e meus pensamentos. Eu gosto de escrever para os outros e até com os outros, porque os comentários que surgem a partir daqui me ajudam a pensar melhor. Arrumando a parte de links daqui, percebi que muitos dos blogs que eu costumava ler na época do Google Reader (jamais perdoarei o Google pelo que ele fez com essa ferramenta, teje registrado) já não existem mais. No natal, dei de presente a outra amiga o livro da Leonor Macedo que surgiu do blog Eneaotil, que nós duas acompanhávamos religiosamente antes mesmo de nos conhecermos. Muita gente mudou muito e desistiu desse formato e muita gente mudou muito e continua escrevendo por aí. Olhando pras abas abertas enquanto escrevo isso, sinto que a blogosfera ainda tem uma vizinhança agradável que não se importa de me ver de moleton andando no corredor do condomínio. 

Um comentário:

  1. Você falou dos podcasts e da forma como a internet funciona e eu lembrei do Anticast que eu ouvi sobre Big Data e Marketing Político. O podcast é uma mistura entre um papo de bar e pessoas que acompanham e estudam o assunto em pauta, então é muito leve e fácil de ouvir. E é espantoso a forma ridícula como a internet foi... manipulada? Não sei se posso usar essa palavra, mas enfim... Basicamente os políticos entenderam e se aproveitaram do modo como usamos a internet. É bizarro.
    Tenho um carinho muito grande pelo Nexo porque as matérias deles são bem feitas e evitam o sensacionalismo. Meu post preferido deles é um em que você coloca seu salário e ele mostra qual a sua situação em vista do restante do Brasil. É ASSUSTADOR!!!
    Ainda acompanho blogs pessoais e gosto bastante, mas sempre passo por umas crises de conteúdo. Será que eu deveria escrever posts úteis, ou posts tipo diário? Será que eu "posto e foda-se" ou eu deveria me preocupar se as pessoas leem ou não (afinal, quem escreve quer ser lido)? E isso faz meu broguinho virar uma bagunça.

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