segunda-feira, 27 de março de 2017

as vozes que me acompanham

Estava pensando em contar sobre os podcasts de que mais gosto na vida e percebi que no arranjo da internet, eu sou de um grupo que frequenta textos, fotos e áudios mas foi muito pouco cativada por vídeos. Muitos amigos meus tem sua gente que produz em vídeo favorita mas eu não saberia dizer quase nada do que pessoas que vivem de vlog fazem em seu tempo documentado em filmes para esse ambiente. Quando eu tinha muito tempo livre, lia sobre o que várias pessoas estavam fazendo - e assim surgiram muitos dos meus amigos na rede social informal que era a blogosfera. Agora que tenho quase nada de tempo livre, é no balanço do ônibus e na memória do celular que vou ouvindo esses programas de rádio sem rádio que são os podcasts. Se fosse décadas atrás, só uma radioamadora conseguiria chegar às frequências dessas paradas que tenho escutado.

O primeiro podcast que eu ouvi foi Serial e quem tinha me indicado foi a Dora. Ela me contou numa festa que tinha ficado um feriado de Carnaval inteirinho fechada em casa ouvindo esse podcast. Pensei que era exagero, que a gente se fica deitado ouvindo uma pessoa falar logo pega no sono e não entende nada de nada. Desconfiei. Mas logo depois que mudei para o apartamento, em abril do ano passado, pensei que precisava testar meu inglês que eu sentia não saber mais entender sem legendas. Fui atrás do podcast e fim da vida social como até então a entendíamos. Eu passei umas duas semanas muito feliz por pegar transporte público lento para ir para o trabalho e poder escutar a história do Adnan Syed, que foi condenado à prisão pelo assassinato da ex-namorada. A primeira temporada inteira é conduzida por Sarah Koenig (que tem uma voz apaixonante) tentando desvendar se Adnan era ou não o responsável pelo crime. Em cada episódio ela traz elementos diferentes como tensão racial em Baltimore, os métodos problemáticos da coleta de provas, a forma como a defesa de Adnan foi falha. Serial foi o podcast mais ouvido em 2014 nos Estados Unidos, as pessoas ficaram doidas pela história, grupos de discussão sobre o caso surgiram na internet, o caso foi reaberto, todos esperamos ansiosamente o desenrolar disso (mas já é alucinante pensar que um negócio que é um programa de rádio na internet mexeu dessa maneira com um julgamento). A segunda temporada é só ok, sobre o caso de um soldado americano que ficou anos como prisioneiro no Afeganistão. É interessante, tem questões complexas sobre Obama ter trocado prisioneiros de Guantánamo por esse soldado que era como um desertor pro exército, mas pode ouvir só a primeira temporada que já tá de bom tamanho.


Serial acabou e eu senti um vazio. A voz de Sarah era uma das minhas favoritas do mundo e histórias de crimes sempre me interessaram. Assim, comecei a ouvir dois outros podcasts em inglês: The Heart e Criminal. Eles não tem nada a ver um com outro.

The Heart é basicamente sobre intimidade, isso pode ter ou não a ver com amor e sexo. A produção mais recente é uma série chamada Pansy sobre masculinidades e feminilidades, com uma proposta queer. Todos os episódios são muito bem produzidos, seja nas narrativas ficcionais como também nas documentais, e variam bastante de tempo de duração. Dois episódios de que gostei muito são: Mariya, sobre uma vítima de mutilação genital, a escritora Mariya Karimjee, que conta sobre sua infância no Paquistão, sua adolescência no Texas e suas relações interpessoais nessa descoberta sobre seu corpo e essa cultura; To Nora tem pouco mais de quatro minutos e é a narração de uma carta pessoal do escritor James Joyce à esposa com uma pegada bastante erótica. Já Criminal é sobre crimes reais, mas de um jeito tão real que é prosaicamente maravilhoso. Os episódios diferem muito entre si e um indicativo de que eu gostei dele é chegar em casa comentando com os amigos que moram comigo. Isso aconteceu pela última vez no episódio Melinda and Judy sobre adoção de crianças raptadas. Mas também lembro de ter ficado perplexa com o episódio Money Tree sobre roubo de identidade e crimes financeiros.


Só que eu estava sentindo falta de ouvir algo em português e Ísis me indicou alguns podcasts brasileiros. Como até então meus podcasts favoritos eram narrativos, se preocupavam em contar uma história mais do que tudo, não me imaginava ouvindo podcast com pessoas conversando. Mas faz algumas semanas que só lavo a louça, penduro a roupa e me arrumo para ir trabalhar ouvindo o Salvo Melhor Juízo, um podcast sobre direito feito por um pessoal de Curitiba. Até o momento, minha lista de três episódios favoritos são: Ruy Barbosa (perdão, sou historiadora), Política de Drogas e Tribunais Internacionais.

(De vez em quando eu também escuto Los Cartógrafos, que é um podcast mais literário de um pessoal da Argentina, ou o Art + Ideas do Getty. E às vezes eu também gosto de não escutar nada porque um silêncio de vez em quando não faz mal a ninguém. Mas se tiver sugestões de podcasts, sempre aceito)

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