sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

metáfora nenhuma



Esboço poemas à beira do mar mas todos soam patéticos. Desisto, deito na canga. O calor de janeiro faz minha pele brilhar bonita, mas fica quente demais e eu corro ao encontro do mar. Uma água igualmente quente me alivia as quenturas. Junto à canga, um livro, minha mochila, ali, sozinhos. A praia em dia de semana, um ou outro surfista que anunciam, sem palavras, que aquele mar não era pra mim. Uma força desconhecida formava ondas e espumas constantes. E não era pra mim? Meto a cabeça dentro delas, testo a minha e não a sua força. Pareço forte. Não muito. Forte prudente. Porque talvez sorrio quando canso e deixo meu corpo ser levado ao raso. Afasto o sal dos olhos. Capaz que sorria outra vez. Não sei. Eu mesma estava só, ninguém que não eu registrava cada momento. Se for mentira as duas trilhas que fiz, as conversas com os desconhecidos que dividiam comigo quarto, banheiro. Se for mentira o sono cansado e as homéricas - quixotescas, na verdade - lutas contra os mosquitos pela madrugada adentro, a noite escura e os rostos invisíveis que conversavam comigo naquele domingo, o caminhar no acostamento da estrada em outra noite igualmente escura (era semana de lua nova). Penso em mais três ou quatro versos que me lembram de amores e cicatrizes mas não os anoto. Tem hora que metáfora nenhuma dá conta e eu só penso a coisa mesma. Algo como "que bom que acordei tão cedo e cruzei o rio, o nascer do sol é sempre lindo no mar". Lembro de amores imediatos, como os raios solares queimando minha pele, e lembro das cicatrizes que se formariam com as feridas das picadas dos mosquitos. Eu, ali, tão só que parecia destituída de um eu. Sozinha, enfim.











3 comentários:

  1. Sei agora, como se já não o soubesse, porque elena ferrante, sem metáfora nenhuma, não te faz nem cócegas.

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  2. Que bonito Malu! Sensível....belas imagens tudo conversando entre si...bjks

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