quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

o aceite da solidão

Tudo que tenho a oferecer é meu vazio, uma solidão constante que a gente já podia vislumbrar naqueles registros em VHS em que eu, miúda de tudo, olhava pro nada numa piscina de bolinhas. Foram os dois poemas ingleses de Borges que me levaram a essa constatação, e eu gosto de verdade desses poemas porque ele fala sobre uma rosa amarela que viu anos antes, ao por-do-sol. Eu mesma ocultaria essa imagem, deixaria somente a flor, para que um amarelo não contaminasse o outro na construção mental. Se ele quis assim, talvez tivesse um porquê. Eu digo que não, mas se uma lembrança de anos antes de eu nascer me fosse oferecida, eu era capaz de aceitar. Por essa suspensão do tempo. O tempo que nunca poderia ser meu. Eu disse - você não sabe, porque disse só pra mim - que eu não escreveria sobre nós, mas essa ideia do tempo que não é o meu me tem fascinado. É, coisas ainda me fascinam. Hoje mesmo eu pensava naquele processo que minhas amigas passaram na adolescência ao descobrir os rejuntes que encobriam as imperfeições do mundo adulto. E eu nunca me assustei porque já não tinha a respeito de adultos as melhores opiniões. Devo ter forjado parte dessa solidão enquanto moldava rejuntes que meus adultos usariam em suas imperfeições; um ou outro molde aposto que guardei para mim. O que me estranha é pensar que aquela menina com cara triste no parque de diversões já era eu e que só eu mesma noto a tristeza que já me habitava. Todo mundo enxerga outras coisas ali, e sente o que melhor convir. A saudade de quando eu era somente dócil, a passagem do tempo e o esvaziamento da juventude. As lembranças de como era tudo fácil, mesmo que não fosse. Foram os dois poemas e também as fitas, além de cartas de amores passados, poemas de amores desfeitos, e planos de amores apodrecidos. Eu queria poder dizer que além da minha solidão também tenho um sorriso sincero e uma mania de datilografar palavras como se andasse carregando um teclado invisível.  Eu conto isso para disfarçar o indisfarçável. De que quando alguém me mirar procurando um sinal honesto do mais puro ou indelével amor, meus olhos estarão fixos em algum ponto - que pode ser imaginário - enquanto penso que nunca nos abandonaremos, minha solidão e eu.


2 comentários:

  1. Te amo!
    Me lembrou isso aqui, que escrevi há um ano atrás, acho
    "Dos soledades que se encuentran… Podría ser una linda historia de amor. Pero esto al final no pasa con estos que quieren ser libres y no quieren dejar lo único seguro que tienen: la soledad misma."

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  2. VAI SE FERRAR, que texto maravilhoso de lindo <3 me identifiquei ~:

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