segunda-feira, 28 de novembro de 2016

sem medo ou esperança

Presente
Como a gente escreve sobre algo tão difícil de entender ou como a gente entende algo sem falar sobre a coisa? Ou como a gente pode esboçar pensamentos sobre coisas tão complicadas, cuja essência desconhecemos e cujas consequências parecem ainda nebulosas? Talvez a gente possa se apegar a nossas crenças com um afinco que não sabíamos que tínhamos ou fingir que somos espíritos que pairam para além do bem ou do mal. A questão é que sempre tenho vontade de escrever sobre política e o ano 2016, mas as faces são inúmeras e minha energia é pouca. Tentarei agora (isso é um esforço de análise. Não briguem comigo. Discutam comigo, só não briguem comigo).

Passado
Não são os erros dos protagonistas que caracterizam as tragédias, mas a catarse do público e a inevitabilidade de um desfecho catastrófico. De dezembro de 2015 a meados de 2016, a narrativa política brasileira me mantinha presa em uma tragédia que eu sabia que não seria fácil de escapar. Não escapei. Não escapamos. As únicas surpresas que o processo de impedimento de Dilma Rousseff nos trouxe foram duas: o apoio incondicional de Kátia Abreu à presidenta (até então, a única similaridade que eu via entre as duas era o apoio a projetos desenvolvimentistas cujas vítimas em geral são populações indígenas) e a dedicação de Flávio Dino, governador do Maranhão, em tentar angariar votos contra o impeachment mesmo tendo sido preterido pelo PT em seu estado. Quando o deputado Eduardo Cunha decidiu acatar o pedido de abertura do processo, um ano atrás, perguntaram-me se eu sentia medo do que vinha por aí. “Não”, respondi, “não tenho medo nem esperança, porque, afinal, são sentimentos que estão juntos ao jogar para o futuro coisas que dizem respeito ao presente”. Em 2016, muitos disseram que um projeto político foi derrotado. Eu infelizmente preciso contar que a derrota já tinha sido, e datava de antes de 2014. O que aconteceu de pior em 2016 foi a derrota de valores republicanos e democráticos. E isso tem zero a ver com um ou outro partido.

Presente 
Eu carrego em mim o horror da história. Todos nós carregamos. Eu sempre penso nisso, em como sociedades caminham dia após dia com a memória dos sofrimentos que passaram e fizeram outros passarem. Mas em 2016 a face mais perversa desse nosso legado será ter na memória a saudação que um deputado fez a um torturador convicto naquele lugar que se convencionou chamar de Casa do Povo. Foi ali que doeu. Viver numa sociedade complexa com códigos igualmente complexos de linguagem nos leva a paradoxos em que num regime democrático seja possível defender a supressão da democracia mesma. É do jogo político o uso da retórica. Mas discursos de ódio não são meras “formas de falar”. Discursos de ódio criam realidades sociais que independem de contagem de votos, criam comportamentos xenófobos, racistas, autoritários e, infelizmente, não está restrita ao Brasil essa derrota do Republicanismo e da Democracia. Ao mesmo tempo, chegamos a outro limite do paradoxo: expor aqueles que propagam mensagens das quais discordamos visceralmente não faz suas falas mais fracas, mas sim suas personas mais fortes. Talvez pudéssemos nos abraçar e chorar, tentando entender como o culto à personalidade se tornou um traço mais forte do que todas as checagens de fatos a que as pessoas supostamente tem acesso.

Passado
Mesmo sem medo nem esperança, há uma melancolia sem fim em olhar para os fatos políticos desse ano. Não sabendo o que esperar ou como construir rotas, tenho pensado muito nos velhos tempos. Velhos mesmo. Tipo o século XVIII e o pensamento iluminista. Ou então sobre como temos a possibilidade de criar diálogos e não sabemos como. Não sabemos se antes existiam mais ou menos diálogos possíveis, até. Tenho pensado em como a produção cultural mais importante desse ano na Broadway retoma valores iluministas, ainda que com a marca da contradição daqueles tempos (como se podia brindar à liberdade e defender a escravidão simultaneamente?). Ninguém quer voltar ao passado. Ou, a princípio, ninguém teria por que querer isso, que além de desagradável é humanamente impossível. Nessas de pensar, eu mais me pergunto do que me respondo. Eu me pergunto se quero nesse momento reproduzir palavras de ordem em show de artistas progressistas (não tenho querido). Me pergunto também se determinadas idéias de o que a gente teria que privilegiar não nos fez abrir mão de conhecimentos sobre os quais temos dificuldade de conversar com adversários políticos (tipo, qual a visão da esquerda sobre economia?). 

Presente
Perplexa, me pergunto ainda se quando estou parada só dispendo energia ou se sou capaz de acumulá-la. Com a tragédia conformada (e quando não foi trágica a experiência humana na Terra?), preciso entendê-la independentemente do desfecho que eu tivesse preferido. Sem crença ou temor perante o futuro (já não é o presente indecifrável o bastante?), a Marcha da História caminha, independente de mim, mas comigo nela. Sou parte de algo, mesmo que não queira. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário