domingo, 6 de novembro de 2016

a recusa da beleza

Existia algo de perfeitamente plausível em ignorar por tantos anos a beleza. Se me diziam bonita, logo entendia que queriam falar que eu era boa amiga ou uma pessoa divertida. Porque bonita, bonita, não era. Em uma pasta perdida no armário, certeza que há uns desenhos que eu fazia, em que meu alter-ego era como um monstro sem muito ânimo para a vida. Eu não queria ser vista e admirada. Eu não queria sequer ser vista. Se me diziam bonita, eu ficava irritada, porque preferia que usassem a palavra certa ou que, se tratando de ironia, soubessem pontuar a ênfase em alguma sílaba que claramente acusasse o recurso linguístico. Porque bonita eu não era. A beleza além de tudo me doía. Não a minha, porque não era bela. Mas sempre que achava algo lindo, me doía. Nunca precisei onde ou por quê. Era algo na alma, algo que a gente encontra quando pensa, sei lá, em Macabéa. Não à toa ainda encontro citações como aquela da página cinquenta-e-dois de "Laços de Família" que "apenas acontecia que a beleza extrema incomodava" ou mesmo de "Água Viva" que eu nem entendi direito mas que na página trinta-e-nove fui descoberta com a frase "eu amo o feio com um amor de igual para igual". Se naqueles tempos eu simplesmente acordasse bonita, eu não saberia o que fazer com aquilo. Porque ser bonita não estava nos meus planos, para ser bem sincera. É que na verdade eu nem me dava conta de o que ser bonita significaria. Seria parar de roer as unhas, aprender a respirar direito, parecer mais alta ou pelo menos arrumar essa postura horrível? Seria ganhar massa magra, perder outras coisas, tinha algo com cabelo e talvez com a pele também. Sei lá. Me faltando interesse, nunca fui perguntar o que precisaria fazer para ser bonita e, nunca perguntando, sentia que eu só queria ser, sem a necessidade de complementar o verbo com predicativo do sujeito. Mas teve um dia, um mísero dia, um fragmento minúsculo de dia, em que andando numa viela no início de tarde, eu pensei que devia ser bonita afinal.  Eu sabia que sumiria tão logo me aproximasse da próxima sombra de árvore - a apenas doze passos - aquela absurda constatação sem contexto - oito passos - de que eu era capaz de sentir que beleza era esse estranho arranjo - cinco - de bem querência das próprias feiúras com um aceite de quem me tornei - dois passos. 


5 comentários:

  1. mulher do céu. que texto. que bonito <3

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  2. Que texto bonito, que bonita você ❤ eu descobri que sou bonita quando me vi em um vídeo, despercebida. Sem tentar see bonita. :)

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  3. Que texto bonito, adorei e me identifiquei
    Até hoje fico sem jeito quando me chamam de bonita, não sei nem dizer obrigada hehe

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