terça-feira, 18 de outubro de 2016

pouca escrita e muita leitura

Fico como que frustrada por não conseguir escrever o tanto que eu gostaria. Por outro lado, tenho lido bastantes coisas que tem me agradado um bocado. E como também peguei gosto por curadoria de internet, deixando um pouco de produzir e só coletando e dizendo "olha, isso é bom mesmo, hein!" já me dá uma satisfação. Talvez dê pra saber mais sobre quem sou conhecendo os textos que me prendem ao computador do que os textos que eu mesma escreva sobre a minha vida. Não que eu imagine que alguém esteja assim tão interessado em saber quem sou, mas, enfim, aqui temos uma seleção que eu entregaria aos meus melhores amigos (mas também aos meus piores inimigos, se os tivesse, porque links bons podem ser compartilhados indiscriminadamente).


Comecei a ouvir o podcast do J. Paul Getty Trust por esses tempos porque queria entender melhor as relações do instituto com a internet. Depois de poucos episódios ouvidos, o aplicativo atualizou com o episódio da semana e ele era sobre uma exposição em montagem. Até aí, normal, porque é um podcast sobre arte. O que me surpreendeu é que a exposição em montagem tem como foco obras de tendências abstracionistas do pós-guerra no Brasil e na Argentina. Esse primeiro episódio da série trata tanto da perspectiva da História da Arte como da análise científica dos materiais empregados pelos artistas. Só que talvez o melhor episódio que ouvi até agora foi aquele em que T.J. Clark fala sobre Pousin e termina declamando um poema que escreveu em resposta às imagens que estuda (pra quem não se sente confortável ouvindo em inglês, os dois tem transcrição na página).

Amandla Stenberg entrevistou Willow Smith para a Dazed e era só isso mesmo que eu tinha para falar sobre o assunto. É meio impressionante como elas são tão jovens e tem uma percepção tão profunda das coisas da vida, seja sobre a transcendência dos espíritos, seja sobre aspectos do cotidiano (como o exemplo que elas se tornaram para outras meninas negras).


Um artigo do The Guardian sobre uma exposição que está rolando na National Gallery de Londres até janeiro do ano que vem com obras de arte do século XVII. O nome da exposição é algo como "Para além de Caravaggio", mas o texto enfoca na produção de Artemisia Gentileschi, artista do período, que foi estuprada pelo mestre contratado pelo pai a ensiná-la a pintar, foi submetida à tortura como forma de descobrirem se sua denúncia era real, e viu seu algoz ser perdoado devido à sua proximidade com o papa. Não podendo ver a justiça se realizar no plano do real, Gentileschi pintou a si mesma como Judith, decapitando Holofernes, com as feições daquele pintor, chamado Agostino Tassi. Gabriela escreveu sobre Gentileschi pra Capitolina ano passado (em português, yey!).

"Gentileschi, porém, traz um elemento da história bíblica que nenhum artista homem enfatizou. Em muitas pinturas, incluindo a interpretação alucinatória de Caravaggio, Judith tem uma criada que espera para coletar a cabeça. Mas Gentileschi faz a criada uma mulher jovem e forte que ativamente participa do assassinato. Isso acarreta em duas coisas. Adiciona um realismo selvagem que nem sequer Caravaggio considerou - levaria duas mulheres para matar esse bruto. Mas também dá à cena uma implicação revolucionária. 'E se', imagina Gentileschi, 'mulheres se juntassem? Poderíamos lutar contra um mundo controlado por homens?'"
Terminei de assistir à segunda temporada de Breaking Bad e semanas atrás terminei também a segunda temporada de Narcos. É sempre fabuloso perceber escolhas dos produtores. Se Netflix me chamasse para dirigir a história de Pablo Escobar, dificilmente eu a transformaria em um drama edipiano em que o maior traficante de cocaína do mundo é um filho amado por uma mãe castradora e tem pelo pai um misto de ódio e admiração. Eu com certeza escolheria tratar da história de Pablo Buendía e o Cartel de Macondo, porque a realidade me interessaria menos do que a perspectiva de realismo fantástico colombiano. Tudo isso só pra dizer que há umas duas semanas, Shawn Carter (também conhecido como Jay Z ou como Marido de Beyoncé) fez um editorial em vídeo para o The New York Times com desenhos de Molly Crabapple sobre a chamada Guerra às Drogas que arrebenta mais do que a narrativa psicanalítica sobre Pablo Escobar.


Ana Paula Pellegrino, quando não está recebendo mensagens minhas suplicando para ela escrever sobre o acordo de paz na Colômbia, está escrevendo textos como o que foi publicado essa semana no blog da Folha de S. Paulo, o "Agora é que são elas". Ana Paula trabalha com políticas de drogas e, além de ser uma das pessoas com quem dá mais vontade de livetweet sobre debates presidenciais dos Estados Unidos, traz para nós meros mortais dados sobre o encarceramento de mulheres por conta de delitos relacionados ao tráfico de drogas (não acho que seria exagero dizer que tem um diálogo importante com o vídeo do Jay-Z compartilhado acima).

Mas não podemos esquecer, como já fazemos nos dias de visita, das mulheres. Podem até ser minoria em números absolutos, pouco mais de 37 mil dos 620 mil presos no Brasil, mas vem aumentando em ritmo assustador a quantidade de mulheres presas. É esmagadora a diferença do impacto da Lei de Drogas sobre as elas: se, em cada 10 homens presos, menos de três estão lá por tráfico de drogas, em cada 10 mulheres, são quase sete.


(x) Only Dogs Can Break My Heart
Eu era criança e chorei sem parar em Beethoven porque não queria que os cachorros tivessem que ficar sozinhos abandonados. Depois chorei mais uns litros no filme de Laurie Anderson chamado Coração de cachorro sobre a vida e a morte de Lollabelle. Mas daí veio Kate Gavino e nos perguntou como alguém supera um coração partido por um cachorro. E, ainda por cima, se permite ter o coração partido outra vez por outro cachorro. É tão fofa essa história animada na Rookie que eu até consegui ler até o final sem chorar copiosamente pensando em todos os cães que já amei.

(x) Notas sobre um mergulho etc
Fui lendo essa newsletter de Olivia Maia que chegou semana passada e conforme avançava me perguntava se já tinha lido algo tão bonito nessas levas de cartas que chegam pelo e-mail. Terminei achando que não. Se fosse pra escrever, teria que ser bonito assim. Enquanto não consigo, obrigada a todo mundo que enche nossas caixas de mensagens com esse tipo de beleza.

Um comentário:

  1. Abri todos os links aqui e já peguei todos pra ler hoje, inclusive assinando o podcast. Estava mesmo procurando um sobre arte. Obrigada mesmo! <3

    Pale September

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