segunda-feira, 6 de junho de 2016

sobre a constante cosmológica

Na noite distante e na mente cansada
últimas memórias aparecem desnudas;
os erros abandonados à interpretação
e um último toque naquilo que era
o desejo irreparável de registro.
Dedos guardavam mensagens criptografadas
inventadas na sua pele desde nascido.
Decifrei cada frase desconexa em pintas,
sinais, manchas e nevos melanocíticos,
e contei-lhe sobre os léxicos, as semânticas,
estruturas verbais, o riso que me dava.

Liguei os pontos espalhados da epiderme
e formaram-se desenhos de constelações.
O universo, tão amplo e misterioso,
deitava-se ao meu lado, encostava-me
em si e movia-me naquilo que convecionou
chamar de ondas gravitacionais.
Pela janela, em noites claras,
nunca me ocorreu decidir se movimento
era aproximação ou era distenção.

Não sabia que havia destino derradeiro
- ninguém é capaz de dizer, na verdade,
se é finito ou infinito, e, se sendo algo,
é cíclico ou retílineo -
mas mantive em segredo a última leitura
dos símbolos às suas costas vistos
da altura do meu travesseiro
com olhos ainda meio cerrados
(por indecência fingi-me sonolenta
ou por incômodo da luz matinal?).
Diziam as borras castanhas que
ninguém jamais te amaria como eu.

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