quarta-feira, 6 de abril de 2016

um monomito para chamar de meu

Já era tarde e eu olhava para o teto do quarto escuro. Mais uma noite em que eu não conseguia dormir porque dentro de mim uma série de sensações me impediam de descansar. O corpo visivelmente cansado e a mente que não aguentava mais tanta emoção. As memórias pareciam percorrer minha extensão em fluidos e as horas passavam. Eu precisava dormir mas não conseguia. A vida parecia boa demais para eu não ficar aflita de vontade de congelá-la ali. Era 26 de janeiro, meu aniversário, e mais uma vez eu amei tanto e fui tão amada que nada me consolava.

Um mês e pouco depois, abri o e-mail e o contrato do aluguel estava lá. Eu senti uma alegria intensa e uma tranquilidade estranha. Eu não imaginei o futuro. Pensei em três anos antes. O dia em que eu abri o e-mail e o contrato de aluguel estava lá fazia exatos três anos que eu tinha embarcado para a Argentina para um intercâmbio de quatro meses. A chegada do contrato de aluguel deveria ser a celebração de algo novo, mas foi, pra mim, o fim de um ciclo de três anos.

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Eu olho para o vazio e tento criar uma explicação para o que é uma invenção abstrata no meu coração. De onde vem essa alegria, por que tamanha tranquilidade? Três anos atrás eu quis estar onde estou hoje, mas eu não podia, e eu não sabia que eu não podia. Três anos atrás eu via o tempo acontecendo em linha reta, mas sem sentido, e agora nesse vazio para onde olho enxergo uma espiral por onde correm os eventos. Eu até acho graça, porque nada é mais antigo em termos de narrativa do que a jornada do herói, e esses três anos cabem tão bonitinhos na geometria de Joseph Campbell que me permito empacotar minhas experiências e acomodar esse pacote no centro desse círculo imaginário. Só que é isso: quando o herói conclui sua jornada, ele não volta para o mesmo lugar. Estamos num mundo tridimensional, afinal de contas.

Eu desejei cuidar e ser cuidada e sofri porque me confundia ao estabelecer quem eram os agentes dessas ações. Eu podia ser forte, mas ninguém parecia ter motivos para acreditar nisso. E se parece que essa transformação eu pude fazer só, é ilusão. O herói não avança sem mentores que o conduzam pelo mundo mágico.

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4 comentários:

  1. Tantas palavras e pessoas bonitas numa foto só.

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  2. Vizinha, bem vinda a essa região onde cada dia é uma descoberta (e em 99.9% das vezes ela é maravilhosa, contrariando todas as estatísticas da vida)!

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  3. PS: Eu não estava brincando sobre te dar talheres e copos! Vamos tomas café para eu te explicar as pegada da vizinhança e te encher de amor e utensílios de cozinha.

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  4. Sua jornada do herói (mais para heroína, no caso), iniciada há três anos, pode ter se concluído neste dia, mas uma nova jornada surgiu e a cada conclusão, a cada realização, você terá novas jornadas para concluir, realizar e sempre evoluir. Você é inspiracional e linda!

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