segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

insuportavelmente século xxi

A pergunta que precisa ser feita antes de qualquer coisa é: você namoraria uma pessoa que passa mais tempo lendo sobre aplicativos de paquera do que efetivamente paquerando?

Eu não apenas leio muitos textos sobre aplicativos de paquera. Eu gosto de criar rankings entre eles. Este post tem o intuito, portanto, de apresentar o meu Top 3 do momento. De repente a gente descobre que alguém que lê isto aqui também tem esse interesse e surge um É namoro ou amizade? digno da Era da Informação. Deve ter gente por aí que vê mais pornografia do que faz sexo (se a gente for partidária da idéia de que toda imagem é pornográfica, então todos nós estamos nessa categoria). Deve ter também quem assista mais futebol do que jogue aos domingos. Digo isso para soar uma pessoa mais do meu tempo, um "não é que eu não goste de paquerar, é só que eu gosto mais de analisar a paquera".

Cheguei a criar uma editoria na minha vida que se chama Insuportavelmente Século XXI, e sempre que acontece algo contemporâneo demais com que eu não saiba lidar, adiciono mentalmente essa tag. Praticamente tudo que envolve sites de paquera acaba indo para esse setor. Sites de paquera são uma ideia ótima _ vamos partir deste pressuposto, e desmenti-lo depois, se quisermos. O problema é que de repente acumulam-se dezenas de interações complicadíssimas de dar conta. Supondo que cada pessoa que puxa papo é um mundo, lidar com dezenas de mundos ao mesmo tempo é, no mínimo, perturbador. O passo seguinte é a minha ansiedade chegar a um grau que eu penso "vou desinstalar isso e voltar pro joguinho". Site de paquera é muito legal, mas se eu tivesse tempo livre para interagir amorosamente com dezenas de pessoas, eu estava dando rolê com elas. A real é que o tempo livre que eu teria pra paqueras tenho usado para tentar entender o que é tudo isso que está aí.


To Fall in Love, Click Here [Pra se apaixonar, clique aqui - por dentro do triângulo amoroso entre você, sua alma gêmea e capitalismo]

Um texto analítico sobre a fase atual do capitalismo financeiro e a forma de agir nesses aplicativos. Tive que me segurar para não escrever tudo isso em Caps Lock porque, sério, a ideia do texto é bem pretensiosa, mas entrega justamente o que promete. Quer dizer, a ideia já é boa, mas quando ainda decide falar de Big Data, eu tenho vontade de sair correndo pelo quarteirão de felicidade (por favor, diga que você também tem esses arroubos de felicidade lendo umas paradas por aí). O mercado financeiro e nossa vontade de dar ou não likes em pessoas estão relacionados como gerenciamento de risco. Assim como no capitalismo financeiro, não há "fora" dele. Tudo bem você não estar dentro dos aplicativos apostando e especulando sobre matches e crushes; isso chega nas suas relações interpessoais de qualquer modo. Assim como no mercado financeiro, você se vê forçado a arriscar, a variar suas apostas. Trata-se de uma carteira de investimentos, que você vai adicionando tempo e energia, enquanto seus atributos também são avaliados por outros "investidores", separando a sua individualidade em diversos elementos - por isso também os aplicativos variam pelos interesses, se importa mais o sexo fácil, a interação com uma pessoa geograficamente próxima, um cálculo de algoritmos bem treinados pra você não precisar conversar com alguém que não renderá.
"De quem é a culpa se não sua se você falha em paquerar pela Internet? Você deve ter feito errado. Ou talvez você tenha posto todos seus ovos em uma só cesta. E então em nossa busca online por amor nós estamos involuntariamente escalados naquilo que Bryan e Rafferty tem chamado de 'projeto de risco do capital', em que 'a incorporação de formas financeiras de pensar e agir - geralmente sem a gente perceber isso - vê competição e a precificação de tudo se tornar normalizadas'".

Everything you thought you knew about love is wrong [Tudo o que você achou que soubesse sobre amor está errado]

Pra começar, esse título não tem nada a ver com o texto. Provavelmente quiseram aproveitar que é o Aziz Ansari e quiseram fazer um trocadilho com filme do Woody Allen, mas foi ruim. O resto é melhor. Pelo que entendi, Aziz começou a falar de paquera virtual nas apresentações de humor, não ficou contente em parar aí, começou a pesquisar sobre o assunto junto com um sociólogo e os dois lançaram um livro sobre romance moderno. Ele parte do casamento bem-sucedido dos pais, que se conheceram na Índia e não tinham outra opção que não um matrimônio arranjado pela família. O pai precisou escolher entre uma mulher muito alta, uma mulher muito baixa, e a mãe de Aziz. Só que nós fomos agraciados com o poder da escolha, e com a crença de que existem mais do que "muito altos" e "muito baixos"; que no meu bairro eu talvez pudesse escolher cerca de 115 pessoas da altura que julgaria ideal. Escolher, assim, se torna um suplício, porque - a priori - elimina todos os outros concorrentes (a menos que estejamos falando de um poliamor de 114 pessoas). A pressão pra escolher certo faz com que cada escolha pareça potencialmente errada. Além disso, problemas que na vida real não seriam problemas, como saber de antemão que a pessoa do outro lado gosta de uma determinada banda, acabam sendo hiperdimensionados. Esse texto está entre meus favoritos porque tem gráfico, não tem tom apocalíptico, e serviu como um abraço caloroso de uma desconhecida me informando que minha dificuldade de adaptação é até bem razoável.
"Mas lidar com esse mundo digital romântico novo pode ser muito trabalhoso. Responder mensagens, preencher perfis - não é sempre divertido. Priya, 27, disse que recentemente ela deletou o Tinder e outras contas de paquera online. 'Demora muito pra chegar ao primeiro encontro. Eu sinto como se fosse mais efetivo usar grupos sociais', ela diz. 'Prefiro me colocar em situações sociais do que ficar exausta'. Para Pryia, assim como para muitos outros paqueradores online que conhecemos em diferentes cidades, o processo morfou de algo divertido e excitante para uma fonte de estresse e terror." 

Mr. (Swipe) Right [Senhor (Deslize) Certo]

Um perfil de Sean Rad, o CEO do Tinder. É muito menos analítico do que os outros, porque, na real, não é um texto de análise. É uma jornalista acompanhando Rad em sua vida de milionário de 29 anos, descendente de uma família persa em Bel-Air (aquele bairro de Um maluco no pedaço). Pra mim, o cenário é tão estranho quanto Rad dizer ter chorado depois de uma festa do Tinder, por ter criado algo tão importante para a sociedade que merecia uma festa; e em seguida sua assistente dizer ter chorado naquela manhã por Rad existir e pelo que está sendo criado. Eu tive que parar um pouco a leitura pra tentar entender o que estava acontecendo, e retomei para descobrir que co-fundadores do aplicativo foram acusados de assédio sexual a outra co-fundadora (é difícil dizer criador nestes ambientes ~colaborativos~ do Vale do Silício; as ideias são múltiplas e compartilhadas, nunca há apenas uma pessoa por trás de uma nova invenção). É interessante - e uma pena que um pouco assustador - enxergar essas disputas dentro do aplicativo, que, na real, é uma empresa com sede em um lugar físico, com pessoas trabalhando para eles. É interessante também descobrir que os dados são analisados e os algoritmos reprogramados a partir daí, e que eles estão em busca de antropólogos para entender como funciona a paquera online em outras culturas, e que já lançam mão de sociólogos para pesquisar relação entre atração física e o uso desses aplicativos. Portanto, nada menos Millennials do que dizer "gente de humanas".
"Com um pós-doutorado em Sociologia pela UCLA - sua pesquisa focou em atratividade facial e paquera online - Carbino é uma adição prudente à companhia, que está tentando expandir para um público mais velho e, mais importante, expandir para o exterior. Ela também é, como descobri, hábil em relações públicas, usando estatísticas de pesquisa e jargão científico para esvaziar a ideia de que o Tinder está criando uma cultura de vício ao sexo. Citando um estudo recente de Archives of Sexual Behavior [Arquivos do Comportamento Sexual] que indica que millennials não tem mais parceiros que boomers tinham, Carbino adiciona sua perspectiva: 'Essa ideia de que há uma cultura massiva da pegação é tipo besteira."
Textos que pegam o caminho fácil e destroem a ferramenta sem apresentar motivos claros para isso não entram nos meus rankings. Nenhum desses textos indica que toda essa forma de flertar é absolutamente nova ou que a culpa é tão somente da vaidade humana que quer receber mais likes do que dar. Nem o texto de Jacobin Mag entra nesse caminho e até propõe o desafio marxista: "Mas quando idéias, práticas, e conceitos de amor já foram separados de condições materiais? Pegue qualquer romance de Jane Austen e a relação entre o sistema econômico e as práticas de corte e de romance, e como eles mudaram em relação um com o outro ao longo do tempo são bastante claros". O do Aziz é mais tranquilão, e aponta que no fim não somos tão diferentes paquerando online ou fora da rede mundial de computadores. Os sites e aplicativos se mostram, aí, como ferramentas de aproximação. É como se fossem seus amigos dizendo "quero te apresentar alguém" (ainda existem esses amigos?), e a partir daí é entre você e a pessoa. Pode dar certo, pode não dar. Como toda relação humana. De algum modo, a gente experimenta e descobre que em relacionamentos há diferentes tipos de comprometimento. Isso está na minha geração, mas pode ter certeza que estava na dos nossos pais, dos nossos avós. Há lindas histórias de amor passadas de geração em geração, e há histórias cabulosas de parentes que só torciam pra encontrar a paz e o sossego (com divórcio quando possível, com a viuvez quando era o que cabia). Talvez agora só sejamos menos drásticos nos rompimentos ao justamente termos formas mais drásticas de levar as relações. 

Eu, por exemplo, me levo pela gameficação excessiva. Sinto que pontuo, crio narrativas paralelas, não entendo bem os objetivos do jogo. E daí alguma amiga que também é apaixonada por textos de análise de sites de paquera me conta que um cara hackeou o OkCupid e chegou no chefão ao duelar com os algoritmos do site, que o levavam a paqueras pouco interessantes. Fato é que quando eu começo a hiperventilar de ansiedade, sei que é hora de voltar a ouvir música do século XX, que tenta garantir que o amor é simples (mas as coisas simples o tempo devora). Agora, se você não coleciona artigos sobre aplicativos de paquera mas tem bons perfis de celebridades esquisitas dos anos 1990 ou um blog de análises do figurino de Mad Men salvos nos seus favoritos, talvez ainda possamos pensar numa primeira aproximação.

Um comentário:

  1. Eu te entendo! Gosto de ler os textos pra ver se entendo alguma coisa dessas paqueras onlines, e pq não me adapto. Eu estou quase excluindo porque fico ansiosa só pra sair e nada rende, eu não sei ainda, mas afirmo com certeza que gosto muito mais de gostar da pessoa pessoalmente primeiro.

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