sábado, 12 de dezembro de 2015

a mulher do fim do mundo



Eu vivenciei deus e ela se chamava Elza Soares. O show A mulher do fim do mundo, assim como o álbum homônimo, é o coroamento de uma vida. Posta no alto, sobre os músicos, com uma saia trançada feita de sacos de lixo, Elza é a rainha do mundo apocalíptico.

Como todo show que se preze na sociedade do espetáculo, estávamos ali para adorá-la. Acostumados que estamos com a idolatria, pareceu-me surpreendente estar tão consciente de que se tratava de um rito quase litúrgico. As palavras tinham a força do Verbo e, não à toa, chorei já à terceira música. Só que deus se fez humano e Elza permitiu à plateia saber que ela também não controlaria as próprias lágrimas quando, ao fim da canção A mulher do fim do mundo, o público se colocou em pé, as luzes acenderam e ela foi ovacionada.

Em Luz Vermelha, somos avisados de que não tem ninguém na rua, não se viu ninguém no açougue e até a praça está vazia. O mundo se termina em um poço cheio de merda, como contou o anão. O tiroteiro é a causa, o fim. Elza então incorpora a esse cenário a frase de que a carne mais barata do mercado é a carne negra. A sua própria carne. Na mesma semana em que cinco rapazes de pele negra são alvejados por policiais com 111 tiros na periferia do Rio de Janeiro. O fim do mundo não se anuncia, o fim do mundo já é o próprio mundo.

Se naquele cenário o corpo é vítima, em Pra fuder deixa de ser só objeto e vem cheio de tesão e ação. E o refrão “Pra fuder” interminável em coro é extremamente erótico. Elza, ao descrever o corpo feito vulcão (potência, calor, fúria), reivindica o carnal. Uma mulher, negra, de mais de 78 anos. Dona do seu próprio desejo sexual. Se os anjos do apocalipse não soarem como algo parecido com isso, nem vale a pena.

A transcendência da alma e do corpo está na faixa Dança. Cantada de dentro do túmulo, cria um cenário de solidão nesse espaço em que ninguém quer dançar. E, mesmo quando supõe a ressurreição, percebe que fora dali ninguém também acompanharia sua dança. Ali, de onde não se levanta, a chuva lava do osso a carne que ainda lhe resta. As imagens são sinestésica ao extremo, pela voz rouca de Elza, pelo tom azulado da iluminação de palco (que ainda por cima conversa com os cabelos roxos da cantora), pelo peso das palavras. Nada se mostra, mas tudo se revela.

Ao contrário da percepção linear de tempo, em que um dia acontece depois do outro até o fim dos tempos, quando se suspenderá o tempo mesmo, o show - e o álbum, mais uma vez - se desenvolveu em espiral. Cantando o poema Coração do mar de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik, Elza rememora os navios negreiros que compõem um passado que lhe diz direto respeito. Mas encerra o revolver circular em um lugar diferente de onde começou. Comigo também rememora um passado, menciona sua ancestralidade. Mas, dessa vez, na figura de sua própria mãe que sempre estará contigo pois ela foi fruto de vosso ventre.

As cortinas fecharam pela primeira vez e, ao pedido de bis, Elza Soares devotou à plateia de Elton Medeiros Pressentimento e, do Vanzolini, Volta por cima, que informava que todos nós choramos sem procurar esconder; que ali onde eu chorei qualquer um chorava. A comunhão, porém, foi feita ao final, quando, com as luzes acesas e o público saindo do teatro, começou espontaneamente entre os presentes um tímido coro de “laralaras”. As cortinas voltaram a se abrir e ali estávamos, olhando-nos admirados uns para os outros, perguntando-nos se aquilo tinha mesmo acontecido. Vimos sua glória.

A perfeição não é uma questão extraterrena como se pode levar a crer. A perfeição é o qualitativo daquilo que é feito completo, sem faltas nem excessos. A mulher do fim do mundo transfigura-se a olhos vistos e apresenta as faces de Elza Soares, de sofrimentos metaforizados em fim de carnaval, de cantora do real e do absurdo do real, de corpo insubordinado, do diálogo com seus irmãos-moleques e com suas irmãs-meninas. Sua obra é perfeita.

2 comentários:

  1. Eu me emocionei muito quando ouvi o cd e fiquei completamente viciada nele. Seu texto também me emocionou e agora eu PRECISO ir ao show. Essa mulher é incrível!

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