quinta-feira, 12 de novembro de 2015

como aprendi a me preocupar e amar a internet


Eu tenho pensado muito sobre a internet. Eu tenho caído em discussões ótimas sobre o assunto em contextos muito diferentes e eu mesma notei que posso dizer sem vergonha por aí que eu amo a internet. Alguém, lendo isso, pode achar que eu vivo como o protagonista do filme "Ela" e eu não me esforçaria para desmentir (porque o filme, para mim, não é sobre estarmos condenados à solidão por conta do virtual, e sim sobre como relações se esvaem quando os parceiros se desenvolvem de forma e para lugares diferentes. É também sobre a expansão do real, mais do que sobre a negação dele). Mas não é só por me permitir descobrir que Vera Holtz é uma performer digna de nota que eu amo a internet.


A maior parte das minhas relações fora da internet está conectada a ela também. Minhas amizades mais duradouras se fortaleceram em conversas no ICQ ou em correntes do Livejournal. Tendo blog desde os treze anos, hoje consigo me dar conta de que não fosse essa ferramenta, seria, para mim, muito complicado organizar quem sou. Ao contrário das redes sociais, que se pretendem fluidas, eu posso um dia querer saber quem eu fui em 2010 e encontrar vestígios por aqui. Eu mexo nos arquivos e descubro que já fui mais feliz mas que já fui mais triste e que já tive mais tempo livre e que não é de hoje o acúmulo de eventos malucos na vida. Por isso, endosso o pedido de Laura pra não deixar os blogs morrerem, não deixar os blogs acabarem.


Por outro lado, as redes sociais foram acusadas de não serem reais. Embora o assunto pareça novo, muito década de 10 do século XXI, o tema existe desde provavelmente sempre, quando pintores, escritores, poetas, cineastas, dramaturgos se perguntaram como representar o real. O real, esse acúmulo de vivências simultâneas muitas vezes com cargas de aleatoriedade e falta de sentido. O problema, arrisco dizer, não é o que é real ou virtual, mas sim qual o papel de determinados agentes (a publicidade por exemplo) sobre as pessoas (os produtores de conteúdo e aqueles que o consomem; acreditando ou não no que está sendo dito). Sobre as redes sociais serem uma edição do real, este texto do Pequenos Monstros dá conta do que penso. Já sobre a nossa relação com a internet, com as redes, a Carol, que além de ser meu spirit animal, foi quem escreveu a frase da imagem acima no livro da Capitolina, fala bem dito neste vídeo. Ainda sobre esse assunto, eu tenho minhas diferenças com o conceito de "empoderamento", mas achei massa a Dounia Tazi falando na Dazed como redes sociais permitem que pessoas muito diferentes encontrem semelhantes, na própria diferença. Só pra endossar que o problema não deve ser a coisa em si, mas os usos dela.


Como tudo pode ser ainda um pouco mais complexo e como sou uma acumuladora compulsiva de links, deixarei aqui três sugestões de textos que me acompanharam nesses dias em que quis parar pra pensar relações entre ativismo e internet, entre real e virtual, e variantes. O primeiro deles é o mais recente e faz parte da seção Modern Love do New York Times - que é um pouco mindfuck porque faz você descobrir que suas relações interpessoais bizarras são emuladas em outros pedaços do mundo. Chama-se "On Tinder, Off Sex".
"Exceto que nunca fazemos sexo. E nunca nos apaixonamos. Nós quase nos apaixonamos e a vida nos separa um do outro. E sem a memória de pele contra pele para nos conectar através do tempo e do espaço, nós nos tornamos, mais uma vez, estranhos"

O segundo deles é um ensaio de Emily Ruth Waters sobre teorias CyberFeministas na internet publicado em HYSTERIA. Mas ela traz uma perspectiva muito excelente sobre as mudanças que a Web 2.0 trouxeram para esse ambiente em termos identitários. Sério. Esse texto.
"Teorias CyberFeministas foram desenvolvidas em um ambiente de Web 1.0 quando o 'WWW focava na habilidade do usuário de ser anônimo ou livre para construir sua própria identidade online' (Langlois 2014, 30). O nascimento da Web 2.0 (sites particiativos que destacam conteúdo gerado pelo usuário) viu uma mudança com usuários da Internet sendo desencorajados de agir anonimamente e crescentemente tendo que identificar a si mesmos. As mídias sociais e os blogs da Web 2.0 não estão produzindo conteúdo mas armazenando conteúdo. Isso dá a ilusão de uma plataforma neutra que meramente facilita o que o usuário deseja subir, mas está longe de ser o caso."

O último, mas evidentemente não menos importante, texto é uma análise da evolução da M.I.A. Houve uma ocasião em que me compararam fisicamente a ela e eu ganhei o dia, mas ler a análise da Noisey sobre ela ser um ícone global é ainda melhor. M.I.A. dá conta de dialogar com o mundo do subdesenvolvimento (não só com o Sri Lanka, sua terra natal, mas também incorporando uns batidões aqui e ali) e é consumida nos ambientes mais hypes possíveis (ou executado até seu desgaste em inúmeros filmes de Hollywood), tudo isso sendo experimental e criativa e com tensões e contatos com a internet. 
"Acho interessante a maneira que reagimos à ficção e a maneira que reagimos ao realismo na internet... isso aqui é a grande mídia, quisera eu estar falando sobre teorias bem mais alternativas, mas não estou, isso aqui sou só eu digerindo o que vejo na grande mídia"
Não encontrando uma forma mais exata de terminar essa compilação de questões e referências, me despeço com um já clássico Chico Buarque lidando com comentaristas de portal. Um momento de descontração. Bom pra perceber que esses 12 anos produzindo coisas e subindo na internet ensinaram que não dá pra ter raiva de quem tem raiva. (Inclusive porque ainda tem muita coisa pra se pensar-fazer por aqui)

2 comentários:

  1. Gente, que post maravilhoso e super necessário. Também sinto que estou sempre conversando com alguém sobre essas questões que envolvem a internet e, na maioria das vezes, pela internet. Meus melhores amigos atuais eu ganhei por causa do blog e a gente só se comunica pelas redes sociais e acho isso muito louco. Não sei, não tenho uma opinião formada ainda sobre isso tudo que você falou e sobre essas experiêcias que a gente tem, só sei que essas relações que tenho estabelecido com as pessoas pela internet são muito loucas e bizarras e ao mesmo tempo que são reais, tenho a impressão que podem simplesmente acabar.
    Enfim, nem sei mais o que dizer, fiquei aqui pensando e tagarelando hahaha
    Beijo!

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  2. Ah, e abri todos os links que você citou. Agora vou ler loucamente hahaha

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