sábado, 11 de julho de 2015

o fora do programa


Eu tenho um costume muito particular de fazer-me perguntas supostamente sem resposta. Foi assim que descobri que gosto mais de dormir do que de comer e que, se eu pudesse, gostaria de ser Beatriz Sarlo. Não lembro exatamente o contexto, só lembro que era um momento difícil da vida, depois de formada e sem trabalho, e que tinha muito tempo para me propor questões e que precisava encarar que a faculdade tinha sido um continuum da escola e não a entrada efetiva na vida adulta. Perguntei-me então quem eu seria se eu pudesse ser qualquer pessoa. Alguns meses depois, em uma entrevista de emprego, perguntaram-me onde eu pensava estar dentro de cinco anos e eu, que tenho uma certa dificuldade em mentir bem, pensei que precisava ser sincera e dizer que não fazia ideia, mas que adoraria estar um pouco mais parecida a Beatriz Sarlo. Sei lá se entenderam o que eu disse, e saí da sala pensando como uma pessoa tão pequena como eu podia viver em tamanha presunção. 

Fato é que antes de fazer intercâmbio para a Argentina, a coluna que Beatriz Sarlo escreve no jornal La Nación, junto com suas análises literárias do modernismo argentino, constituíam a maior parte do meu saber sobre o país. E quando Nina me contou que ela estaria em um evento literário na mesma província em que vivíamos, justamente na cidade em que precisávamos regulamentar nosso visto de permanência, saímos agendando todos os trâmites para coincidir com a palestra dela. Eu a imaginava uma mulher alta e corpulenta, que falasse pesado e de forma direta. Ela, na minha imaginação, era fisicamente forte. Quando a vi na entrada do anfiteatro, não sei bem como, reconheci-a. Mas era uma mulher elegante, com sapatos de salto, e ainda assim mais baixa do que eu. Pensei em como os textos rígidos me davam a impressão de uma mulher grande; mas que mesmo pequena transmitia igualmente força e uma fala contundente (em homenagem a uma professora da Universidad de Rosario).

Então, é isso. Não bastasse eu me propor desafios mentais, criei uma certa fixação por uma crítica literária argentina. E quando soube que ela lançou um livro sobre suas viagens, pensei que queria muito! E depois soube que só existia por lá. E então Pamela me deu o livro de presente quando veio ao Brasil e eu, que não tenho pudores, rabisquei, grifei, anotei no livro todo. A princípio estranhei que o livro de viagem fosse cheio de notas no final, com referências teóricas, poemas. Mas pensei que seria estranho, talvez, que não houvesse essa erudição assim, de passagem, que não pesa no texto, mas que tem relação direta com a vida e a obra de Sarlo.

O livro chegou num momento muito preciso da minha vida, em que os planos de uma grande viagem vinham cheios de dúvidas sobre o porquê de eu sempre me colocar em trânsito. Se busco algo ou se me iludo com a necessidade de buscar algo (que, logo se vê, não sei do que se trata). As viagens que ela descreve vão dos territórios indígenas argentinos à Amazônia brasileira; termina contando sobre a ida às Ilhas Malvinas na época do referendo que determinaria se a população da ilha preferia ser argentina ou britânica. A única coisa que liga essas experiências todas é a ideia de "salto fora do programa", que é a possibilidade de coisas inesperadas acontecerem em viagens e transformarem ideias, romper com expectativas. Num mundo em que as pessoas fazem cada vez mais turismo para frequentar grandes redes de hotéis e pagar caro para evitar imprevistos - como se os imprevistos descambassem em frustrações e como se frustrações tivessem que ser evitadas a qualquer custo, Sarlo me mostrou que o turismo não vai à natureza e sim apenas aos recortes de paisagens (e de repente a gente descobre que já tinha visitado certos lugares, sem nunca ter ido para lá, porque os cenários já compõem uma imagem mental que temos dos espaços). Motivada por algum trecho, rabisquei no fim do livro "Tudo bem ser jovem e crer. Não só ela era jovem e acreditava". Talvez eu seja jovem e acredite em viagens de aprendizagem, na necessidade do encontro com outros. Mas desconfio que já sei - e inclusive isso está na conclusão do livro - que só alguns podem ter a liberdade de mover-se, trata-se, antes de mais nada, de um privilégio (e que ser viajante não é em nada comparável a ser nômade ou migrante).

"El viajero solitario no tiene más remedio que estar siempre en movimiento porque, si se detiene, lo asalta una soledad del extranjero, el deseo fugaz pero insistente de estar en un lugar más familiar. La pulsión de volver a un espacio propio"

Um comentário:

  1. Pequena criatura em estatura, quem vos disse serdes vós pequena? Sonhar ser Beatriz Sarlo é tão cabível quanto executável. Todo grande projeto começa com um primeiro passo; antes disso, começa com o projeto do projeto. Você vai chegar lá e além, Bárbara. Para o infinito. Esse deve ser o objetivo.

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