segunda-feira, 16 de março de 2015

está morto, sossegado #7


Cada um teve que descobrir como viver depois da morte do meu avô. Ainda me lembro de como nós, as crianças, chorávamos e nos abraçamos em completo desconsolo. Eu já tinha chorado uns noventa dias antes. Primeiro, na viagem de ônibus que atravessava a cidade. Lembro de duas mulheres que conversavam, de um homem que vendia cartões feios e de como eu não conseguia controlar as lágrimas dentro de mim. Não me esforçava, é verdade. Sabia que era meu dever e minha salvação, ali, chorar, pressentindo o pior. Depois, chorei na mesma noite entre os adultos. Todos tinham tanto controle e eu mais uma vez sabia que seria vão meu empenho. Entrei em um estado de letargia, que só se rompia quando, presente ao quarto do hospital, minha pressão baixava e eu buscava uma força _que não vinha!_ para parecer valente. A prostração morreu junto com ele e, depois de outra viagem, eu sentia a dor não no coração como a literatura insiste em ensinar, mas em algum lugar perto do estômago. Me apertava e me contorcia, distante. O vazio se criava a partir do meu próprio umbigo.

De altura, minha avó não mede mais do que eu e sempre foi minha referência de rijeza. Muito séria, compenetrada em suas responsabilidades. Eu nunca percebi isto ou noto só agora porque, de fato, as coisas mudaram, mas às vezes seus olhos marejam, o nariz se avermelha e a voz embarga. Às vezes, com uma lembrança do passado, que me conta com tom de ensinança, às vezes a mais banal notícia de telejornal sobre a alegria do personagem escolhido. O tempo devora seus filhos. Com a velhice do Feroz, fui ensinada como o tempo passa. O tempo passa a ponto de todos nós já termos sentido o que é um amor desfeito _mesmo aqueles que nunca sequer começaram. A ponto de já termos visto com o quê a morte se parece. O tempo passa a ponto de a vida precisar se desmanchar e se refazer, incontáveis vezes com as mais diversas intensidades.


Um comentário:

  1. "O tempo passa a ponto de todos nós já termos sentido o que é um amor desfeito _mesmo aqueles que nunca sequer começaram. A ponto de já termos visto com o quê a morte se parece. O tempo passa a ponto de a vida precisar se desmanchar e se refazer, incontáveis vezes com as mais diversas intensidades."

    Isso é TÃO real. :( Parece que a cada dia que passa a gente fica com mais certeza disso, cada dia só passa mais rápido...

    http://www.paleseptember.com

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