quinta-feira, 12 de março de 2015

está morto, sossegado #6



Certas coisas são sagradas. Fingimos que não, que nos movemos com liberdade através da blasfêmia contemporânea. Tarda um pouco, mas percebe-se que certas coisas são sagradas. Eu me permito não saber, mas não me permito ser ingênua. Certas coisas são sagradas e já saíram do nosso plano para uma utópica dimensão. Nossos segredos, por exemplo. Nossos segredos habitam uma eternidade inalcançável. Eu, que deixei logo cedo de crer no sacro; eu, que me dei conta de que a comunicação humana é o primeiro passo para a condenação de qualquer segredo enquanto tal, percebo agora como há sacrilégio em não respeitar o que era apenas nosso. Por isso, passei a esquecer. Esqueço sistematicamente o que deveria guardar, porque esquecer é a forma de livrar-me das tentações, esquecer não é vontade própria, mas um jeito particular que o passado se apresenta para mim. Um grande bloco opaco, sem encantamento, com um enjoativo odor de naftalina. Possuí seus segredos. E assim pude ocultá-los de nós _e de todos.

Das coisas de que me lembro muitas não entendo. Meu avô me contava histórias sagradas que eu acompanhava com interesse e perplexidade. Narrativas que me permitiam entender a história, mas que me confundiam quanto à forma pela qual deus se manifesta aos que crêem. Possivelmente outras tantas coisas permanecerão sem respostas. Porque não me atrevo mais a fazer perguntas.



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