segunda-feira, 9 de março de 2015

está morto, sossegado #5



Eu falava como ela é boa, tranquila, com uma felicidade genuína ainda que já tenha muita idade. Minha interlocutora respondeu dizendo que parece que é verdade que os cachorros pegam o jeito dos donos. Senti-me lisonjeada, sorri. Mas tantos dias eu olho para mim e me pergunto se não sou uma pessoa ruim, se não estariam todos iludidos por uma falsa aparência. Eu rompi com a culpa, mas isso não impede que eu me pergunte quantas vezes fui responsável por machucar quem eu não queria.

Eu necessito silêncio e não é incomum me ver em fuga. Eu preciso fugir para dentro de um silêncio profundo ou para uma quieta sonolência. Quando eu era criança, escondia-me embaixo do armário e ficava horas calada. É uma forma de entender, a maneira entranhada _beira a literalidade, de um jeito corporal_ de entender. De tudo que contei, neste afã dos que advogam a cura pela fala (e não era deus o verbo?), a discrepância entre a essência e a aparência é a que demandará ainda muita quietude.


2 comentários:

  1. me encanta que as palavras nessa série em particular se encontrem de forma tão concentradas, e, por isso, tão precisas e saborosas.

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  2. Também sou feita de silêncio, preciso ficar sozinha.
    Beijos

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