quinta-feira, 5 de março de 2015

está morto, sossegado #4


A morte do meu avô foi o início da construção de um vazio em casa. A toalha sumiu, o casaco azul com a gola marrom que habitava o mancebo, as coisas no armário esquerdo do banheiro. O vazio na cadeira de balanço, na poltrona da sala, do lado esquerdo da cama. A mesa ficou maior sem ele na ponta. As garrafas de vinho de Santana, porém, são a única exceção, seguem cheias mesmo depois de seu sumiço. O fim dos vestígios podem mobilizar as memórias. Uma das lembranças mais vivas que tenho é de ser empurrada por ele em um carrinho de supermercado, pendurada à frente nas grades. Brincávamos juntos, enquanto minha avó percorria as prateleiras, ignorávamos os 54 anos de diferença entre nós.

Meu avô acreditava na vida eterna (na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne). Eu _imagino que ele sequer supusesse isso_ me convenci em algum momento de que a morte é o fim da existência. Lembro de quando essa possibilidade apareceu pela primeira vez, aos treze, e eu e um amigo nos olhávamos embasbacados com a ideia de acabar em um não-lugar. Essa narrativa é um pouco isso. Porque, no início, havia tudo. E então fez-se o nada. E agora é esforço para colocar isso em ordem.


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