segunda-feira, 2 de março de 2015

está morto, sossegado #3


Numa mesma semana, duas amigas me procuraram para falar sobre morte. Por dois motivos bastante diferentes, as duas se depararam com esse fenômeno absurdo (e natural, mas nem por isso menos absurdo) que é lidar com a morte do outro. As duas me procuraram _elas não sabiam_ na mesma semana em que completava um ano a morte do meu avô. Todo fim é evitável na linguagem. Porque se ele não tivesse subido e não tivesse caído, não teria ido para o hospital, não seriam cem dias, não morreria. Mas se ele não tivesse, não seria ele. Esses tempos verbais que permitem mudar o passado não ajudam nos momentos de dor.

Quando eu fui embora, havia um amor profundo. E todos viam, e pediam para se responsabilizar de alguma maneira pelos momentos seguintes de felicidade. E pediam que tomassem conta de mim, e diziam que tomariam conta dele. Quando eu fui embora, levei uma mala resolvida em sucintez, uma carta carregada de prepotência e um abraço que pesava uma vida. Quando eu fui embora, as conversas _eu soube_ giraram ao redor de quem eu era e do que eu fiz. Usavam os verbos no passado. Como se eu tivesse morrido. Naquele momento, a linguagem criou o fato.


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