quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

está morto, sossegado #2


Existe algo de muito triste em nós três. Mas eu não consigo me aprofundar nos pensamentos de uma ou nos sentimentos da outra. A gente simplesmente sabe, e compartilha um olhar meio vago. Eu nunca enxerguei o que cada uma de nós tem da outra. Talvez uma docilidade meio arredia, um importar-se descompromissado. Talvez até uma bondade. E a busca por determinados esconderijos.

Luma ia ao portão e, às vezes, chorava sofrendo _quem sabe?_ pela partida do Feroz. Ela que já não dormia quando ele latia em dores, e que latia com ele em uma sinfonia de desespero que enchia a casa. Eu suspeito que minha avó ainda chore, vez ou outra, pela ausência do meu avô. Desde aquelas noites em que não dormia, pensando nas próximas visitas ao hospital, nas orações que o salvariam, na urgência de que ele voltasse a respirar. Aquelas cem noites mal dormidas. Eu, sozinha, nunca chorei pela perda que me coube (além das outras duas). Me pergunto se a natureza da perda era diferente ou se a nossa é que é assim tão distinta.


Um comentário:

  1. é um texto tão bonito e tambḿ tão delicado, já que versa, sobretudo, pela solidão da perda. Há um sentimento de abandono e isso é sempre cheio de cumplicidade entre olhares vagos.
    Abraços.

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