terça-feira, 4 de novembro de 2014

vossa excelência, o textão

Antes mesmo de ser modinha acusar adversárias de levianas, eu tinha esse medo. Sempre tive, de falar coisas desconexas ou facilmente refutáveis. Quase nunca escrevo textos no calor do momento porque abrem-se mil caminhos e fico parada no meio, não sabendo guiar as massas e muito menos as palavras. Sábia escolha ter cursado História. Posso escrever sobre o tempo que passou depois de ter mergulhado em um monte de fontes; fico numa cômoda posição de palpiteira do presente com a documentação do passado. Com um pouco da ressaca do período eleitoral, resolvi fazer meu próprio balanço. Capaz que textão não seja a musa desse verão; mas como militante anti-levianidade (e aqui estou de tiração de sarro, não achei nem Luciana Genro nem Dilma Rousseff levianas em suas colocações nos debates televisivos) só trabalhamos com textão.

A propaganda

Primeiro, estive pensando se o nível do debate eleitoral foi tão baixo quanto as pessoas disseram que foi. O fato de ter crescido nos anos 1990, quando era banal o baixo nível em suas mais profundas formas na televisão, me deixou um pouco insensível quanto ao que poderia ser considerado o grito de misericórdia. Houve eventos lastimáveis, sim, mas eu ainda não superei as propagandas de Dilma e Serra em 2010 com grávidas por todos os lados expressando a opinião dos candidatos sobre o aborto. 2014 trouxe uma campanha difícil, mas o PV apareceu com um candidato surpreendente que dizia coisas que Marina não se arriscava a mencionar em 2010 e o PSOL surgiu com Luciana Genro, muito melhor do que o Plínio, que era um velhinho carismático sangue-nos-olhos mas ainda fazia seus principais corpo-a-corpo na missa das manhãs de domingo. A melhor surpresa foi a cobertura feita pela Agência Pública que desafiou os candidatos a explicarem melhor suas propostas, desmentiu-os com base em dados e resumiu o tal do programa eleitoral gratuito diariamente. (As manifestações de ódio que por ventura surgiram, nós não reproduzimos que é pra ver se ficam de fora dos anais da História)

A Intentona Comunista e Junho de 2013

Ter estudado História às vezes é problemático porque não sabemos muito bem a aplicabilidade da coisa. Sabemos, por exemplo, que não necessariamente as pessoas aprendem com a História e que dificilmente se sustenta a tese de que ela se repete. Ainda assim, adoramos analogias e comparações. Por um motivo xis, em determinado momento do curso, precisei entender o que foi a Intentona Comunista, de 1935. A tentativa de golpe articulada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) contra o governo de Getúlio Vargas aconteceu em pontos esparsos do país e foi reprimida e derrotada com alguma facilidade, deixando, porém, algumas cisões sociais. Cabe dizer que o Exército foi uma das instituições mais afetadas por suas diferenças ideológicas (e talvez pouca gente saiba que na Ditadura Militar foi a instituição que junto com as universidades e partidos políticos teve mais membros perseguidos e desaparecidos). Fato é que a Intentona, embora um fato isolado e meio esquecido nos capítulos de História do Brasil, foi um marco na vida política do país. Alguns comunistas, que até então seguiam a linha leninista-stalinista do PCB, acharam equivocados os cálculos do partido e se tornaram trotskistas. Outros, acharam esses cálculos tão errados que sequer se mantiveram comunistas; Carlos Frederico Lacerda, cujo nome era uma homenagem que o pai prestava a Marx & Engels, foi um dos que, poucos anos depois, mudou de lado e se tornou símbolo da direita brasileira.

As manifestações de Junho de 2013 tive que acompanhar à distância, e de algum modo agradeço do fundo do meu coração por não ter precisado ver bandeiras de partidos políticos serem queimadas nas ruas aos gritos de "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Isso não quer dizer que os eventos daquele mês sejam menos interessantes ou misteriosos para mim. Não foram aqueles dias similares à Intentona de 1935; os objetivos, os agentes políticos. Mas, quando as pessoas voltaram para suas casas, algumas foram mais para a esquerda, rompendo com o partido que há doze anos está no poder no governo federal; outras, porém, acharam que o caminho é esquecer a luta de classes e clamar por uma união nacional que transformará o país mantendo a maior parte das coisas como estão. Rodrigo Nunes, no texto Os protestos e as eleições: até aqui, Cassandra está ganhando, dá um panorama interessante do quadro político dos últimos anos:

"De forma mais ou menos consciente, os ex-petistas e 'batalhadores', anarquistas e professores públicos, ciclistas e favelados, ambientalistas e afetados pela Copa, garis e midialivristas que estiveram nas ruas no último ano anunciavam que, nas atuais condições, não somente a energia de transformação do atual projeto está se esgotando, como ele começa a fortalecer o seu contrário. Foram tratados pelo sistema político, pelo próprio PT, como os troianos trataram a princesa Cassandra: incoerentes, irrazoáveis, ignoráveis. É cada vez mais evidente, porém, que 'mudar mais' ou 'seguir mudando' dependerá, nos próximos anos, daquilo que se saiba conquistar nas ruas, com ou sem o apoio da esquerda oficial. Por isso, é provável que ainda veremos mais do ciclo de protestos aberto em 2013."

Violência política

Nos meses que estive na Argentina - e por isso não estava nas Manifestações de Junho de 2013, fiz uma disciplina sobre ditaduras militares no país e no Uruguai. O tema da primeira aula foi violência política e analisamos a questão venezuelana. Caberia muito bem o caso boliviano. Ou as últimas eleições no Brasil. A parte mais esquisita de estudar e viver esses acirramentos políticos é perceber que quanto mais as pessoas percebem que há uma dicotomia, mais essa dicotomia se acentua. Assim, ler e comparar os programas políticos talvez nem faça tanto sentido. Porque os programas políticos estão cheios de ótimas propostas que nunca serão aprovadas no Congresso Nacional porque a maior parte dos eleitores na hora de escolher o Legislativo deixaram de lado partidos grandes e com linhas ideológicas claras para dar espaço para partidos que forçarão (e forçariam os outros candidatos) a negociações inesgotáveis. Por isso, já escreveu Juliana Cunha, a escolha do candidato de forma asséptica torna-se inviável no mundo dos textões; porque, no fim das contas, com a polarização todos nós nos sentimos de alguma forma forçados a escolher um lado. Às vezes de forma positiva, comprando o discurso e as ações de um dos lados; às vezes só negativamente, sacando que posso não ser desse grupinho mas que com certeza não é com aquele outro que quero estar. Não à toa, o embate mais interessante no meu Facebook nesses tempos foi aquele entre anarquistas e militantes do PSTU (a saber: os anarquistas defendendo voto crítico no PT, enquanto PSTU defendia voto nulo). Pode ser um jeito tonto de se escolher e, de fato, a polarização leva a mil simplificações que levam a mil papos bestas, mas ninguém disse que a política está assim tão acima da banalidade.

O pessimismo alegre

Pouco tempo antes do segundo turno, resolvi ler a entrevista gigantesca do Eduardo Viveiros de Castro para Eliane Brum. Pouco antes do primeiro turno, o antropólogo declarou voto na Marina. Entendo e concordo com a oposição que ele faz ao governo petista, sobretudo no que tange à situação do meio ambiente. Depois de ler esta entrevista, me perguntei se eu estaria coadunando cegamente com uma política anti-indigenista. Ao mesmo tempo, por mais que a base ruralista se sinta à vontade com esse governo, suponho que estaria ainda mais com o outro. E então? Me perguntei se a esquerda nascida antes de 1989 algum dia dará conta das questões ambientais (a direita - e eu lido sim com essas divisões; e eu acredito sim em luta de classes e não na separação entre esforçadosXpreguiçosos - acredito que não). O Mujica, no Uruguai, por mais fusquinha-azul-e-chinelo-na-nomeação-do-ministro que seja, não fez avanços nesse campo e, a bem da verdade, permitiu que indústrias se estabelecessem em regiões onde não deveriam estar. Como Viveiros de Castro defende o "pessimismo alegre", acho que me rendi a essa forma de encarar nossa experiência institucional, torcendo para que a esquerda incorpore e não apenas mencione transformações mais profundas no seu lidar com o mundo.

A função social dos mortos - e dos ex-presidentes

Na véspera da eleição, Aécio foi visitar o túmulo do avô. (Para ser bem sincera, me incomodava com os primeiros desenhos do embate político ser composto por dois netos - Eduardo Campos e Aécio Neves - e por uma filha - Luciana Genro - de políticos importantes em seus estados, embora Luciana seja a que nunca recorreu à figura do pai nas aparições públicas). Poucas semanas antes, estava com a viúva de Eduardo Campos. Muitas pessoas julgaram essas atitudes. Demorei muito para pensar em ter uma opinião sobre o assunto. No fim das contas, acho que essa é a função social dos mortos, serem disputados. Por outro lado, os dois maiores partidos do Brasil têm se acostumado a indicar seus candidatos à presidência a partir da benção de seus ex-presidentes. Os mortos talvez não fortaleçam tanto os vivos; mas é possível que os vivos estejam enfraquecendo as bases.

Fica de experiência

Além de ser maníaca por textões, como já deu para reparar neste post, também sou louca por análises sobre poder e sua estrutura. Só isso explica o fato de eu ter conseguido chegar à segunda temporada de Game of Thrones, mesmo detestando histórias de zumbis, dragões, feiticeiros, estética medieval, personagens de RPG. Por isso, no pós-eleições fiz questão de fechar esse ciclo tentando entender um pouco mais do Pacto Federativo (que acho que junto com o peso do Poder Legislativo é o ponto mais subestimado do nosso processo eleitoral e abre brecha para que uns e outros pensem que separar estados da Federação é o passo certo a ser dado; poderia ser (afinal, todos os países da América em algum momento tiveram que proclamar suas independências) mas não com motivações racistas e xenófobas de quem ainda não entendeu que perdeu a Revolução de 1932 porque segue sendo feriado em São Paulo). O Estadão fez um infográfico massa que derruba altos mitos que foram compartilhados à exaustão em redes sociais; desde Minas Gerais não elege presidente, passando por pesquisas acertaram dentro da margem de erro e terminando com uma análise de que não há crise na representatividade. Por fim, se estudar História nos leva a ver como a esquerda foi mudando sua visão sobre a democracia, desde o repúdio até sua defesa, parece que é cada vez mais latente defender esse valor que pode ser abstrato e cheio de falhas, mas é a garantia de direitos que não faz sentido perder (lembrando que democracia não é só a vontade da maioria e sim, também, a garantia de se verem representadas as minorias).

4 comentários:

  1. No fim, depois de ler todos os tópicos eu chego a duas conclusões: a) temos medos de perder o que foi conquistado e b) não podemos retroceder.
    E acontece que até nos textões mais conscientes eu vejo isso: Medo de perder aquilo que nós conquistamos e que nenhuma profecia de retrocesso iria tirar. Porque aquilo que é realmente nosso, não se perde, e se houver esse risco, nós estaremos lá para defende-los. Também não é preciso estudar a historia para saber os grandes feitos e os não feitos nestes longos anos de Brasil. Temos ótimas criticas e elogios para ambas as partes, até pro Sarney. E as vezes, o que se é definido como "pessimismo alegre" de alguns pode ser sim uma realidade dura maquiada de bons índices.
    Não é a toa que você cita "Parece que é cada vez mais latente defender esse valor que pode ser abstrato e cheio de falhas, mas é a garantia de direitos que não faz sentido perder" e veja só, de novo eu percebo medo, e depois do medo eu vejo um argumento consciente sobre possíveis perdas e profecias de um futuro pior do que estamos construindo hoje com passos lentos, um medo danado de ir além sem olhar pra tudo que já passou e virou historia, historias essas que você decide ou não usar ao seu favor.
    No fim, temos opções terríveis, uma pior que a outra, onde ambas trocaram ataques bobos em rede nacional ( Aécio chama Dilma e Luciana de levianas e Dilma manda Aécio ir estudar, quem é o santinho?)...
    Eu não acho que somos obrigado a escolher o menos pior e depois se lamentar. Do mesmo jeito que discordo de voto ser obrigatório, porque a democracia se perde nesses detalhes. Votar nulo não é um jeito bobo de se manifestar ou ficar em cima do muro vendo a merda toda acontecendo. Talvez ele seja usado em caso de situações em que você não seja obrigado a participar desse circo que nos foi apresentado. Ou quando você simplesmente se recusa a participar desta falta de respeito para com os adversários, seja ele quem for. Me pareceu um jogo baixo do começo ao fim.
    Textão incrível, como sempre.
    Boa noite,

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  2. Cê conseguiu um textão bem sucinto pra isso tudo que estamos vivendo. Acho que eu me perderia mais em outros devaneios.
    Achei massa que tem bastante referência, quero lê-las todas.
    E se o amigo aí de cima tem razão, e estamos num momento de medo, medo latente, medo quase declarado, aí é que a porca torce o rabo. O medo é uma grande arma na luta pelo poder, etc.

    De qualquer forma, é nóis, hermana

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  3. Ricardo, fiquei muito contente com o seu comentário! Obrigada por ele! :)

    Só achei ruim que o ~textão~ tenha te passado a idéia de que tenho medo. A bem da verdade, eu fujo de discursos do medo porque acho muito Regina Duarte em 2002. Não tenho medo de regimes democráticos porque realmente acho que é por esse tipo de organização do Estado que o mesmo pode ser controlado por instituições. Evidente que essas instituições tem problemas, porque estão cheias de pessoas, não são abstrações que pairam acima do mundo humano. São produzidas e é onde os humanos atuam. Assim, se Aécio ganhasse, o meu receio não era do governo dele, exatamente, mas do que significava isso para alguns grupos que o apoiavam (e com os quais inclusive acredito que ele não concorde).

    Isso tem a ver diretamente com a minha crença de o que é o Estado. Ao contrário de Foucault, não acho que o Estado está aí para vigiar e punir, embora, sim, vigie e puna. Também não acho, como dizia Hobbes, que o Estado é a expressão da vontade do Povo na figura de um Leviatã. Não. Para mim, Estado é uma arena de debate e disputa, onde grupos e indivíduos se articulam para ganhar, impor e negociar projetos de sociedade. Perder, nessa arena, não é de todo o ruim. Perder, em política, na real, não é quase nada ruim. Porque os perdedores não são derrotados. Aécio está de volta ao Senado, Luciana continua frequentando manifestações de esquerda nas ruas, Marina provavelmente se articula com o grupo da Rede Sustentabilidade; outros partidos negociam cargos e espaço político. Por isso, discordo quando você diz que direitos não podem ser perdidos. Podem, sim. Porque na arena política pouco é estável. Quando eu digo que devemos defender a democracia, repito que não acho que nenhum dos dois partidos que disputavam o segundo turno pensem em ameaçá-la. Mas certos discursos e alguns grupos não fazem tanta questão assim de defendê-la contra seus interesses. As negociações políticas, como diz o cara que analisa os protestos de Junho de 2013 que linkei, talvez seja o que nos faça crer que o projeto petista se esgotou. Ainda assim, é esse projeto - ou parte dele, ou a representação dele - que teremos nos próximos 4 anos no governo federal. Ninguém, de fato, é santo e eu acho isso plausível. Não tenho paciência para mártires. Há projetos em disputa, um país não é uma linda comunidade hippie em que todos se amam. É da natureza das disputas que haja conflito, mas, sim, esse conflito deve respeitar limites de ética e não serem criminosos. (a política, afinal, está aí para que não nos matemos por um preferir a cor azul e outro preferir a cor vermelha; ainda que alguns se matem por isso)

    O que me cansa um pouco é que há todo um desgaste em debates políticos sobre o governo federal e os municípios em geral fazem campanhas pífias, os estados são considerados cargos menos relevantes. Essa percepção do nosso arranjo institucional é super problemático, já que a Constituição e as políticas públicas implementadas ao longo dos últimos 25 anos tendem a colocar em posição de maior importância os "menores" espaços políticos. Assim, as prefeituras e os estados assumem importantes papéis em educação, transporte, moradia, saúde, mas a cobrança recai sobre o governo federal sem muita propriedade. (isso não tem a ver com o que você comentou, haha, mas é uma reflexão que vale ser feita).

    Quanto ao voto nulo, acho-o um direito legítimo e excelente que apareça como opção quando ninguém parece representar suas idéias políticas. Em uma conversa com uma moça dos EUA, ela me contou que em uma eleição regional para o conselho de ciência de onde ela morava só havia um candidato, publicamente assumido como criacionista. Uma parte considerável dos votos foram preenchidos nas cédulas como indo para Charles Darwin. Que já tinha morrido há muito tempo. O voto nulo serviu ali de protesto e tem seu valor representativo, ainda que não elegesse ninguém de fato. (esse voto de protesto nós perdemos com as urnas eletrônicas).

    =]

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  4. Entre todas as qualidades que vi no texto - e foram muitas - gostei demais da reflexão passado-presente, em especial a que trata da Intentona. Porque, sim, a história tem dessas de se "repetir" (como farsa?), mas seu texto mostra, também, como a ação humana pode fazer com que uma situação muito parecida a outras temporalmente distantes possua um desenrolar completamente diferente.

    Daí, gostei ainda mais do seu comentário. Porque não dá medo, a situação atual. A manifestação em favor do golpe, por exemplo, se dividiu, foi ridicularizada até mesmo para aqueles que são reivindicados pelos manifestantes como seus "representantes". O discurso não encontrou base material para se concretizar - nem vai encontrar no curto prazo.

    Mais do que nunca, temos um Estado em disputa democrática: com esquerda e direita, sim, brigando em diversos níveis e espaços. Isso nos possibilita fazer escolhas sem seguir diretrizes pré-determinadas, como você falou, e me permite, sei lá, não ser (ou ao menos não me sentir) contraditório ao lamentar pela possibilidade do Kassab ser ministro mesmo depois de ter me esbaldado de pular na Paulista domingo retrasado. Não é fácil, essa disputa, mas é bom tê-la no campo do possível.

    Muito bom, o textão.

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