quarta-feira, 3 de setembro de 2014

à força de conhecer

just there

O passeio chegava ao fim quando começamos a conversar sobre política argentina com um homem da província vizinha. Comentamos com ele como nos sentimos aliens ao pleitear eleições para reitor, ainda que saibamos que no seu país essa é uma conquista histórica há quase cem anos. Com um ar de sábio que cruza o caminho dos jovens aventureiros (pra não mencionar o Mestre dos Magos em texto sério), ele disse algo como a importância do intercâmbio para mostrar outras realidades possíveis.

Quando estudei na Argentina, resolvi fazer meu trabalho final de História sobre a questão da autonomia universitária na Universidad Nacional del Litoral (instituição que me recebeu) e a ditadura militar. Logo no começo do trabalho, coloquei uma citação do historiador francês Fernand Braudel pra justificar a escolha do meu objeto de estudo:
"Se alguém passar um ano em Londres, o mais provável é chegar a conhecer muito mal a Inglaterra. Mas, por comparação, à luz de surpresas experimentadas, compreenderá bruscamente alguns dos traços mais profundos e originais do seu próprio país, aqueles que se não conhecem à força de conhecê-los."
Durante meus anos na USP passei por duas grandes greves em que as pautas vinham das mais diferentes perspectivas políticas mas convergiam a um problema de estrutura da universidade. Agora assisto a uma distância considerável a situação de uma universidade em impasses graves de gestão. Eu meio que agradeço por ter conseguido me formar antes de estourar a crise, mas dá um desgosto tremendo acompanhar como avançam pouco os diálogos e as soluções. Quando falamos em votar para reitor, falávamos sobre repensar a participação, que é falha em muitos aspectos (e não só no que tange aos poucos professores que podem votar para reitor, mas também em quem são os alunos que participam dos processos internos na universidade). No caso argentino, por exemplo, os ex-alunos podem votar e participar da gestão universitária, o que, querendo ou não, expande a ideia de comunidade universitária.

Untitled

A criação da universidade no Brasil e na Argentina tem trajetórias muito diferentes. Lá, é uma instituição que já existia na época da colônia e que teve sua mais importante reforma em 1918 (enquanto a USP só foi criada em 1935). A defesa de uma autonomia universitária e do ingresso livre são já temas bem-resolvidos e, estudando as intervenções que a UNL sofreu no século XX, dá pra entender como era complicada a nomeação de reitor por autoridades externas à administração universitária. Às vezes eu sinto que no Brasil a instituição universitária tem uma baita dificuldade de se mostrar como um espaço legítimo de elaboração do pensamento crítico e de transformação social; a hipótese que levanto é a mais banal do mundo: se a universidade reproduz desigualdades de maneira tão visível, não é difícil imaginar que os que estão fora dela, vindos de camadas sociais mais baixas e tendo que pagar por ensino superior, apoiem propostas de cobrança de mensalidade. (Os de classes mais altas que têm essas ideias são, a meu ver, só liberais mesmo).

Passei cinco anos dentro da USP e não consigo saber o quê e em que sentido as coisas mudaram por ali. Não me sinto confortável pensando que nada mudou ou que nada mudará e, ao mesmo tempo, me aflijo analisando certas posições em que as pessoas mais próximas de alterar algo não tem disposição, vontade ou voz o bastante para isso. Para as pessoas de fora dos muros, lamento dizer aos colegas intra-muros, é como se nada estivesse acontecendo. (mas por ora me contento em terminar esse texto com a percepção de que, ainda que a universidade não mude suas estruturas de representação e participação, a democracia que é esse jeito caótico de lidar com o outro na política, também é a forma mais eficiente de incluir as diferenças nos espaços públicos)

[Fabiana Jardim, que tem mais clareza e tempo de USP do que eu, escreveu uma boa análise da situação no texto Chutando a escada (ou: seis notas sobre a greve na USP)]

3 comentários:

  1. É uma verdade isso que você falou. A situação é tão caótica que a culpa já não é só de uma parte em si, mas de varias delas junto.

    Boa tarde, bjos.

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  2. Bárbara, estou bem longe da USP, mas adorei muito o seu texto, principalmente a forma simples e lúcida com que você expôs questões que costumam ser complexas. Senti minha orelha puxada por não estar envolvida com a política dentro da minha universidade, por esses motivos aí. Não sinto que tenho voz, o que me tira a vontade e me faz engrossar o coro daqueles que só veem as coisas erradas acontecendo, dão uma resmungada na fila do bandejão, e vida que segue.

    Salvei a citação pra vida, porque nunca consigo enxergar a situação da minha universidade com tanta clareza como quando eu leio sobre experiências, problemas e questões de outras faculdades. A greve na USP, por exemplo, tem me feito refletir sobre várias questões do meu campus.

    Gostei mesmo do seu texto. :)
    beijo!

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  3. Eu vejo mil problemas na USP. Eu fiz a graduação na Unicamp, então sei bem dos problemas estruturais que tem lá, e agora estou no segundo ano de pós na USP e, francamente, não tenho a mínima ideia do que acontece. Não sei se me considero de lá, nem se tenho direito a opininão do que acontece. Mas acredito que todas as crises ocorrem da hermeticidade das universidades, da escolha delas de se fecharem absolutamente do dia-a-dia da cidade em que se inserem, da falta de democracia, como você falou. Sinto que a universidade exlui o restante da população por opção, discutindo coisas que não interessam a ninguém fora dela. Gostaria tanto que tudo isso se resolvesse algum dia e que as estruturas finalmente mudassem.

    E, ei, adorei sua foto da praça do relógio. Eu gosto muito da praça.

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