domingo, 17 de agosto de 2014

as tênues linhas



Eu tenho blog há dez anos e mesmo assim não é tranquilo me expor. Não me parece sequer necessário ou muito saudável. Mas às vezes só quero falar uma coisa mais pessoal e já me podo, com medo de machucar outras pessoas. Então fui ler mais um texto maravilhoso de Nirrimi e ela diz umas verdades que precisei traduzir aqui:

"Eu percebi que quanto mais honestos e abertos nós somos, especialmente com as partes mais cruas que normalmente escondemos, mais nós percebemos que não estamos sozinhos. Que nós todos falhamos e passamos por batalhas e nenhum de nós realmente sabe o que estamos fazendo e tudo bem. Lá no fundo nós somos iguais. Nós só temos que seguir crescendo. E então estou aqui de novo compartilhando minha jornada. Minha alegria e meus esforços."

Eu penso demais. Esse diagnóstico é fácil e aparece o tempo todo em conversas com meus amigos. Antes eu achava ruim, achava "que droga, eu penso demais, sempre pensei demais, nunca consigo deixar de pensar demais". Daí lembrei que aos dezesseis anos - ou mais ou menos por aí - estava almoçando na mesma mesa que minha professora de inglês do colégio e ela disse que nosso maior defeito é também nossa maior qualidade. Não lembro se ela disse isso ou o contrário, de que nossa maior qualidade é também nosso maior defeito e claro que não tenho ideia de em que contexto surgiu essa frase nem o porquê de ela ter me marcado tanto já que variáveis como "os melhores perfumes e os piores venenos estão nos menores frascos" estão aí por toda parte. Fato é que penso demais e tive que aprender a lidar com isso.


De repente tudo o que é complexo e caótico demais eu organizo de uma forma tão objetiva que pode parecer falta de sensibilidade. Eu penso demais sobre o amor e até já pensei que preferia o benefício de apenas senti-lo, mas é que no fundo uma coisa não anula a outra e pensar demais no amor também é senti-lo em sua complexidade. E eu pensava e sofria e conversava com amigos e eles me aconselhavam. E eu pensava que no fundo pouco adiantavam os conselhos, porque, afinal, ninguém sabia como eu sentia, ninguém sabia o que eu tinha passado, ninguém sabia nada nem eu mesma. Mas meus amigos cada vez mais entravam em acordo sobre o que eu devia fazer para sofrer menos. Meio cansada das minhas sequências de tentativa-e-erro, achei que podia dar um arranjo democrático à coisa e executar a vontade da maioria. Eu preciso dizer que não foi fácil e talvez nunca será. Mas eu precisava ser justa e honesta (e não só comigo). E às vezes o verbo tem mesmo que ser o "precisar" ao invés do "querer"; às vezes a gente precisa se dar conta de que fazer o que parece querer é o jeito mais esquisito de se machucar.

Eu só espero que o exaustivo trajeto na tênue linha entre ser uma pessoa bem-resolvida e ser uma pessoa que se autossabota tenha chegado ao fim.

9 comentários:

  1. O que me deixa feliz é saber que independente do que a maioria queria ou achava, você fez o que você acreditava ser o mais honesto contigo. Porque assim como ninguém sabe de fato o que você passou antes, ninguém também sabe de fato o que você tem passado agora.
    No fundo, acho que existem esses momentos críticos da vida da gente em que precisamos fazer uma decisão, que pode sim ter influências de mil coisas e pessoas, mas que, no final, só é nossa.
    Importante é: você escolheu. E a gente fica aqui do lado apoiando e segurando firme pra te ajudar no que for ;*

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  2. Paulinha, teu comentário é dessas singelas provas de que tenho melhores amigos do mundo.

    <3

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  3. No fundo, quando nós estamos dispostos a crescer com o tempo, a vida se torna mais leve a cada dia. O amor é uma queda no escuro, pois ninguém sabe a dor ou felicidade que esse sentimento causa na gente, mas no fim, sempre acrescenta em algo todas essas experiências que a gente vive no nosso dia a dia. A vida é isso, felicidade, desastres, amores e a batalha é contínua...

    Sobre tuas fotos: sempre lindas.
    Boa noite, bjos.

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  4. Estou cada vez mais convencida de que somos a mesma pessoa. Tenho absolutamente o mesmo problema: fico racionalizando conversas com os outros e fico chateada comigo mesma e com os outros quando as coisas não vão de acordo. E acabo sempre fazendo o que acho que a maioria gostaria, me auto-sabotando. É um aprendizado quando a gente se dá conta de que na verdade ninguém se importa muito e o importante é fazer o que a gente realmente quer.

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  5. Terminei agorinha um livro em que a personagem principal pensa em demasia - e escreve para "aprimorar" essa função de seu cérebro, por assim dizer.
    Sim, é um defeito e uma virtude, algo valioso. Pensar é maravilhoso, exercemos a filosofia de dentro para fora. E precisamos externar isso, mesmo que pese.
    Não tenha medo de se expor.
    Abraços.

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  6. E eu que tenho tentado agir menos e pensar mais. Até escrevi no blog esses dias que quando se é transparente demais em relação aos seus sentimentos, as pessoas deixam de enxergar os limites que existem em você. Pelo menos é o que tem acontecido comigo esses últimos dias. Eu me expresso demais; e aí muita gente, por saber minhas fraquezas, faz questão de chegar direto nelas.

    Vai ver que tenho sido transparente demais com as pessoas erradas (é que a vida tem disso...).

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  7. Em meados de 2011 eu tinha uma psicóloga que vivia me dizendo que eu me sabotava. Estamos em 2014, eu tenho outra psicóloga e agora que eu estou começando a entender como funciona esse processo de se sabotar. Eu fico ali andando sobre a linha e nem sempre consigo perceber quando começo a descambar para o lado errado, rs.

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  8. Retificando: nunca consigo perceber quando começo a descambar para o lado errado. rs.

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  9. Faz um tempo que leio teu blog, mas não me lembro ao certo como o encontrei. Não só pela escrita gostosa, como pelos assuntos interessantes que você traz, costumava acessar todos os dias para ler os posts antigos até ter lido o site por inteiro. Também ansiava por ter posts novos quando havia terminado de ler tudo pra ver um pouquinho mais da tua arte.

    Só sei que sua virtude/defeito de pensar demais te faz, de muitas formas, sem quem é. E mesmo que não se exponha tanto nesse tempo todo de blog, posso dizer que pelo pouco que conheço, mesmo que virtualmente, és uma pessoa inspiradora, a qual eu admiro.

    Sempre tive vergonha de comentar, mesmo quando eu tinha muitos pensamentos que eu gostaria de compartilhar, mas achava estranho por não nos conhecermos. Tomei coragem só pra dizer que acho você incrível. Espero que encontre o caminho que procura, não se autossabote (ou pelo menos não tanto) e continue inspirando e aspirando arte por aí, sendo quem tu deseja ser.

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