sábado, 7 de junho de 2014

o casaco de marx e a saia de dodora

C. me contava de uma camiseta que comprou por alguns oitenta dinheiros. Falava meio constrangido da compra, enquanto se justificava sobre o porquê ter pago tanto em uma peça de roupa. Eu disse a ele que se tranquilizasse com o assunto (devo ter dito "ih, de boa") porque estava muito impactada com um livro sobre mercadorias que tinha acabado de ler. Na introdução de A vida social das coisas, Arjun Appadurai se pergunta como damos valor às coisas e como elas circulam no mundo e em diferentes sociedades (ou em diferentes tempos, já que para a sociedade ocidental pessoas já puderam ser coisas - escravas - sem que isso fosse considerado imoral ou criminoso como hoje em dia). Com esse papo, ele me emprestou um outro livro sobre o mesmo assunto - mas mais poético e menos teórico, chamado O casaco de Marx.


O autor de O casaco de Marx faz o mesmo exercício que o tal Appadurai: para analisar a sociedade que o interessa, tira o foco da produção e coloca no consumo, nos usos das mercadorias. Appadurai faz isso no genérico (o que para mim, é excelente, já que minhas pesquisas são sobre mercado de arte); Peter Stallybrass escolhe falar sobre roupas e sobre sua relação pessoal com elas e sobre as relações sociais que começam com relações pessoais com as roupas. É sensacional. O livro tem esse nome porque, ao invés de falar como funciona o modo-de-produção capitalista, o autor conta sobre como Karl Marx tinha que vender e comprar um mesmo casaco na loja de penhores para pagar suas dívidas e se aquecer no frio de Londres. Como o próprio Marx já tinha pensado bastante sobre a produção do tal casaco, sobre a exploração do trabalho na fábrica têxtil, a mais-valia, essa coisa toda, Stallybrass pensa em outro percurso para o mesmo objeto.


A questão é que Peter Stallybrass começa o ensaio falando do momento em que sentiu a perda de um amigo que tinha morrido. Sentiu ao dar-se conta de que apresentava um trabalho vestindo uma das blusas que era do amigo e a viúva dele lhe doara. Peter diz que começou a chorar ali mesmo, sem conseguir explicar nada aos presentes. Por algumas páginas o texto avança falando dessa relação entre as roupas e os mortos. No dia em que terminei de ler o livro, estava no metrô, voltando para casa do trabalho. Respirei fundo, guardei-o na bolsa e olhei para baixo. Estava vestindo uma saia que foi de Dodora. Já faz quase dois anos que Dodora morreu e às vezes eu ainda me pego pensando que podia aproveitar que agora trabalho perto da casa dela e visitá-la; mas, claro!, não posso. E mesmo sempre separando roupas para tirar do meu guarda-roupa, as peças que ela me deu continuam ali, e não tem planos de sair. Então, percebi que as roupas que eram de Dodora são tão valorosas para mim que estão no armário - e às vezes vão comigo passear - sem que eu possa imaginar que elas tenham um preço.

4 comentários:

  1. Deixa eu falar, faz tempo que eu não leio um resumo tão bem escritinho que me deixasse com vontade de ler algo. Vou ter que ler todos eles agora :-)

    ResponderExcluir
  2. Que leitura interessante! Parece ser mesmo sensacional, me interessei. Outro dia mesmo estava comentando sobre isso, pra onde vão as nossas coisas, nossas lembranças, nossas experiências quando a gente morre? Tenho umas peças de roupa do meu avô que também não consigo me desfazer...

    ResponderExcluir
  3. Eu sempre me emociono muito quando lembro de uma blusa vermelha que era da minha avó, mas que ficou comigo quando ela se foi. Um dia eu estava com ela, e fui no banheiro, lá na Poli. Esqueci a blusa pendurada na porta, e me dei conta disso uns 15 minutos depois, quando fiquei com frio. Voltei desesperada, na certeza de que ela estaria lá. Não estava. Ninguém sabia dela. Voltei por umas duas semanas pro achados e perdidos do prédio pra perguntar por ela, mas ela nunca voltou. Essas roupas não são roupas, não...

    Vou ter que ler esse livro do tal casaco, Babilinda. Obrigada pela dica!

    ResponderExcluir
  4. Que coisa linda! Vou procurar esse livro. Os dois. É interessante pensar o valor simbólico das coisas que a gente se apega e pensar no porquê de estamos apegadas a elas.

    O Kracauer tem um texto (Fotografia), onde ele compara fotografia com moda, mostrando como a imagem (ou a roupa) por ela mesma não tem valor nenhum, sendo apenas contornos, linhas e cores e só passa a realmente ser alguma coisa quando adicionamos memória a ela.

    ResponderExcluir