domingo, 23 de março de 2014

a loucura deve ter mais servos e agregados que o bom senso



Existe esse senhor que eu totalmente desconheço mas que foi o provável maior receptor de abraços telepáticos meus nos últimos meses. O nome dele é Ernani Ssó e ele é o tradutor da versão de Dom Quixote que terminei de ler esses tempos. Quando eu tinha uns 15 anos, peguei uma versão que repousava na estante da minha mãe e comecei a lê-lo. A capa era dura, azul, e a obra estava impressa em papel-bíblia. Eu li duas páginas e desisti porque não era capaz de entender o que estava acontecendo naqueles parágrafos todos, com um vocabulário que imitava o do século de Cervantes. Devo ter colocado o exemplar de volta na estante e optado por Crime e Castigo, porque é literatura russa, cada personagem tem uns três nomes diferentes, mas eu pelo menos conseguia entender as palavras da tradução.

Ganhei a caixa com os dois volumes de Dom Quixote de aniversário de 23 anos, mas logo em seguida fui para a Argentina. Lá, cursei duas matérias na universidade em Santa Fe e uma delas era de Literatura Argentina. Eu precisava analisar contos de Jorge Luis Borges e não tinha nem idéia de por onde começar (na verdade, comecei só sentindo desespero). Mas, intrigada com o que se entende por "experiência", fui ler um texto meio famoso do Walter Benjamin a respeito do assunto e percebi que podia tentar fazer um paralelo entre o alemão e o argentino. Passei semanas me enxergando como uma pequenina árbitra no meio de dois pesos-pesados num ringue de boxe, colocando os dois autores em confronto, tentando descobrir as diferenças e as semelhanças entre seus pensamentos.

Uma das coisas que os textos deles têm em comum é a menção à obra de Cervantes; Benjamin com certo ar pessimista a respeito do começo do fim da narrativa e Borges tendo-a como uma referência literária fundamental. Assim, achei que, como a vida já brinca bastante de aleatoriedades comigo, eu devo estabelecer vínculos racionais nas minhas escolhas e ler o Quixote naquele momento de pós-intercâmbio e notável desemprego era a melhor opção.

Foram meses para ler os dois volumes, mas até risada no metrô eles me renderam. É curioso que o caso do moinho de vento que vemos sempre que alguém menciona Dom Quixote não passa de um pequeno trecho, só uma das aventuras nas 1300 páginas do livro. Provavelmente a coisa mais fascinante, para além do carisma do personagem principal e da lealdade de Sancho Pança, é a quantidade de ficção dentro da ficção que Cervantes constrói. Até a autoridade de um falso historiador é mobilizada pra contar a história de Alonso Quijano (o nome original do Quixote, antes de se crer Cavaleiro Andante). Essa edição da Companhia das Letras (vocês estão cientes de que eu não ganho um tostão pra falar das coisas de que eu gosto por aqui, né?) tem um final ainda melhor do que o esperado: dois ensaios sobre Dom Quixote, um escrito pelo próprio Borges e outro do Piglia (também argentino e estudioso hardcore do primeiro). 

A edição não é ilustrada, mas para o post usei as ilustrações de Gustave Doré de 1863 que conheci depois de _aleatoriamente_ uma delas aparecer nos meus feeds do Facebook.

Um comentário:

  1. Mês passado tava rolando no prédio da Brasiliana uma exposição sobre Quixote. Com vários exemplares do livro, editadas em todo mundo, adaptações, traduções orientais, enfim. Tinha um bem antigo e bacana só com gravuras (!!), todas muito parecidas com estas que ilustram o seu texto. Te passo o nome depois - não achei aqui nas minhas anotações - oremos para que ele esteja digitalizado por aí. Bj

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