domingo, 23 de fevereiro de 2014

sobre a mulher que vai

Penélope é uma das personagens do poema épico A Odisséia, de Homero. Ulisses (ou Odisseu), seu marido, parte para uma das sagas mais famosas da literatura ocidental e ela o espera por anos. Nesse período, recebe muitas propostas de casamento, mas diz que só poderá se casar quando terminar de tecer um sudário para seu sogro, Laerte. Todas as noites, Penélope desfaz o trabalho do dia e nesse ciclo mantém-se fiel a Ulisses até o seu retorno.


Quantas referências temos de homens no papel de Penélope? Eu procurei mentalmente em mitologias ou textos clássicos, em modernos e contemporâneos uma figura masculina que espera a amada voltar de sua saga para que o casal siga junto. Não encontrei. Perguntei para amigas, para desconhecidas em grupos feministas. Nada. Na-di-ca. Já é muito difícil encontrar uma mulher no papel do herói clássico. Encontrei em Dom Quixote a personagem Marcela, que, dona de inigualável beleza, decide deixar sua vida de antes e seus pretendentes para viver como uma camponesa. E diz: "Eu nasci livre e, para poder viver livre, escolhi a solidão dos campos". Assim, Marcela é livre, mas abre mão do amor.

Comecei a pensar nisso quando o Humans of New York postou a foto de uma senhora com a seguinte legenda (humildemente traduzida por mim): 
"Quando eu tinha 19 anos, minha amiga e eu estávamos indo estudar em Paris. Nossos namorados foram às docas para nos ver partir. Quando estávamos entrando no navio, o namorado da minha amiga disse a ela: 'Se você for, eu não esperarei por você.' Então ela voltou atrás e resolveu ficar. Meu noivo viu isso e falou: 'Eu também não te esperarei'. Eu disse: 'Não espere'."
Eu acredito que a representação está sempre em diálogo com a realidade e que, dessa maneira, uma cria a outra. Se não conhecemos representações de mulheres que vão para o mundo (inclusive em termos metafóricos, porque a coisa é muito mais ampla do que uma viagem) em busca de algo - que muitas vezes não sabem o que é; porque os heróis em geral se lançam em suas caçadas pelo e no desconhecido -, passamos a acreditar que, de fato, trata-se de uma escolha. Que é preciso escolher entre ser livre e ser amada. E isso é naturalizar uma condição. Se o teatro, a televisão, a literatura não falam de mulheres no papel de Ulisses, mas falam de mulheres no papel de Penélope, fica mais fácil pensar que às mulheres cabem ser Penélope, e não Ulisses. Caberia às mulheres o espaço privado, a costura, a espera e a castidade. Aos homens, o mar, o canto das sereias, a amizade com os deuses do Olimpo. Acaba sendo "normal", portanto, que uma mulher que viaja assista ao fim de um relacionamento, porque é algo que foge da ordem.

A questão, porém, não é achar que a coisa deva se inverter (em geral, quem chama as feministas de feminazi apenas não entendeu que não se trata de revanche mas de equidade de direitos). Não é saudável para ninguém passar os dias cosendo e depois desfazendo o trabalho à espera de uma pessoa amada que está distante. Algumas mulheres no grupo do Think Olga contaram de casos em que os maridos resolveram largar seus empregos e foram acompanhar as esposas em suas jornadas. É excelente saber que existe, sim, na vida, essas pessoas. Ainda que a ficção não acompanhe. A questão é que seria ainda mais maravilhoso que a ficção acompanhasse essas realidades que existem e que problematizasse o que é, desde que a ficção se entende por ficção, posto como o "normal". Que Homero represente a mulher de sua época como ele decidiu representar não tem que causar estranhamento; que ainda não tenhamos criado um belo arcabouço de exemplos que fogem desses esteriótipos é o que me preocupa.

Ao mesmo tempo, não vejo a literatura atualmente com o peso que outras formas de manifestação artística possuem. Digamos, por exemplo, o cinema e a televisão. Não é o caso de se criar uma nova Odisséia, mas quem sabe criar outros tipos de personagens femininas para o nosso imaginário.


A feliz coincidência é que, no processo de escrita desse post, enquanto eu pensava nessa subrepresentação da mulher viajante, cheguei ao clipe novo de Fernanda Takai, pra uma música chamada You And Me And The Bright Blue Sky. Nisso, Brunna me mandou outro estímulo para minas viajeiras quererem dar a mão e sair para ver o sol, com o clip Home Sweet Home da banda Those Dancing Days. E hoje descobri esse texto de Cláudia falando sobre Frozen, Hermione e o topos da mulher poderosa e solitária.





4 comentários:

  1. Tens razão...não há referências de homens no papel de penélope,por que é tão difícil para eles esperar a mulher amada? Achei demais a atitude da senhora da legenda,é preciso essa coragem nos dias de hoje :)

    Parabéns pelo post
    Um Forte abraço
    Estrela,Flores...Melancia

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  2. OI. Passei nessa pagina hj pela primeira vez e ja de primeiro post pretendo virar leitora diaria daqui! No caso da posição de Penélope vista comumente em mulheres e raramente em homens, me identifiquei muito. Moro sozinha na minha cidade, minha mae mora em Portugal e, apesar de ainda não ter terminado a faculdade, estou casando, e entre esses preparativos de casa, vi algumas amigas se aventurando a ir estudar fora pelo Ciencias sem fronteiras e isso me fez pensar muito sobre tudo. Sobre estar fazendo a coisa certa ou o que eu realmente quero, sobre oportunidades e sonhos e, principalmente, no caso de eu resolver ir, meu noivo me esperar. Ele nunca me deu motivos para desconfiar, mas sinto muito como se esperar não fosse uma opção para ele, assim como para tantos outros comumente vistos, ne.. Não sei se a realidade seria de ele nao me esperar, mas pelo sim, pelo não, não me sinto confortável em sair. Não tenho do que reclamar dele, ele me ajuda muito mais que qualquer outra pessoa com laços sanguineos que diz me amar. Ele não é egoísta ou se coloca antes de mim em qualquer coisa.. Sempre pergunta minha opnião em coisas que nao há a mínima necessidade, mas por respeito a mim. Eu poderia ter uma posição atípica em muitas outras situações comuns a mulheres tradicionais (das quais meu noivo não tem a mínima queixa, e ate mesmo me apoia),entre tanto, nessa eu não me sinto segura. Talvez pela falta de 'apoio'/divulgação midiática que torna isso algo muito incomum, não sei. Eu simplesmente não tenho conforto nenhum de pensar na hipótese. Amei seu texto, foi um balsamo pra esses meus dias pensando sobre.

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  3. Acredito que o filme Bagda Café também comenta dessa força interior que qualquer ser humano, seja mulher ou homem, tem de viajar e se comunicar.

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  4. eu acho esse texto seu genial. me lembro daquela exposição que te falei pelo facebook, e de papos meus com minha amiga sobre o filme Valente, em que a personagem principal do filme da Disney luta para nao se casar e ter o direito de escolher o "principe" que deseja ou o direito de simplesmente nao ter um principe.

    Sobre essa senhorinha, me lembro de ter lido e relido a historia dela e ter pensado o quanto ela foi de peito por ter encarado o relacionamento da forma como ela encarou. adoraria ser - na verdade nem sei se sou, um pouco que seja - uma mulher assim como ela foi,so que no meu tempo, digamos desse jeito.

    Meus conselhos pra amigas que estao em algo parecido eh faze-lo de Penelope e se ele fizer o que voc faria por ele é que realmente vale a pena o esforço. E na real, quando acontece algo com amigos, sempre digo pra eles " e vc gostaria q ela nao esperasse por voc? fica de boa e espera tua namorada se vc realmente gosta".

    E pra nao dizer que estamos indo ribanceira abaixo no quesito homens, aquele que você conheceu comigo no café é o "meu penélope". Estamos juntos, aos trancos e muuitos barrancos, desde 2011. Desde quando entrei pra faculdade de Turismo, nos conhecemos desde quando fazia pe vestibular e agora estou indo pra outra faculdade. Tudo isso comigo morando em RJ e ele em SP. Ele vindo todos os meses praticamente para o Rio e eu indo quando posso pra SP. Ele me espera, desde 2012, criar coragem pra largar tudo aqui e ir embora viver minha vida em SP pq rola mais mercado pra carreira que quero, há quase 3 anos ele espera so q eu diga sim, pra pelo menos morar na mesma cidade que ele.

    com tudo que vivo e experimento com esse relacionamento, so espero na real que mais filmes disney, mais filmes de festival, mais livros, mais series, que o mundo aos poucos perceba que nós temos as mesmas condições de irmos ser amigas dos deuses do olimpo, tanto quanto qualquer homem.

    PS. se o comentario saiu muito loco eh pq eu to chapada de sono hahahahaha



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