sábado, 19 de outubro de 2013

o quarto que habito


Eu tinha me preocupado muito em construir algo que fosse nosso, em cuidar de um espaço que eu achava que era nosso. Mas a vida tem um senso de humor meio esquisito e me provou facilmente que o que eu julgava nosso, na verdade, era dele. Só DELE. Enquanto eu me preocupei em ir atrás de móveis, de confeccionar coisas, de tentar enxergar em programas de computador como o espaço ficaria na vida real, não me preocupei muito em ajeitar o lugar para onde eu tinha acabado de me mudar. Eu fiz uma escolha. E ela se mostrou errada.


O tombo entre um possível "para sempre" para um provável "nunca mais" é grande e às vezes dói. A parte boa é que eu tive ao menos duas sortes nesse processo: a primeira, de encontrar uma lata velha de tinta da minha cor favorita no porão de casa; a segunda, de lembrar que Virginia Woolf escreveu que uma mulher que quer escrever romance deve ter um quarto todo seu. Não é exatamente meu caso, não há planos para um romance a curto prazo (tampouco a médio ou a longo, a bem da verdade). Mas a ideia geral faz muito sentido. Resolvi que era hora de desfazer a escolha errada de ter arrumado um espaço para outro e criar um quarto todo meu. Se não pela propriedade, pela ocupação e bom uso.


Só não tirei foto do antes para fazer comparação, porque desconfio que a vida pode ter um senso de humor esquisito o bastante para muita gente pensar "ih, era melhor do outro jeito". Como não tenho o dinheiro que viabilizaria o trabalho de um arquiteto ou marceneiro nesse espaço, tudo foi arranjado (ou re-arranjado) conforme os materiais disponíveis e minha própria boa-vontade ou estado de espírito. A parte mais importante, na verdade, é o implícito conceito de sororidade: na prateleira, obras literárias de e sobre mulheres. Na cortiça auto-adesiva, preguei a gravura de Nina, a foto de Ivi, o cartão-postal de Paris que me deu Stephanie. A única exceção é o Fellini que pedi ao Liniers fazer no meu caderno há poucos meses.

Livros da coleção de mulheres modernistas; Andorinhas, de Nana Moraes;  Trança, de Marilena Soneghet, O segundo sexo de Simone de Beauvoir, Laços de Família e Água viva de Clarice Lispector; Mrs. Dalloway, de V. Woolf; Encontros sobre Nise da Silveira; Gaveta de bolso da Juliana Cunha; e livro de fotos de Frida Kahlo

Na cortiça: gravura da Nina, cartão-postal que me deu Stephanie, Fellini por Liniers, a foto de Ivi e a lista de livros pra ler num futuro próximo sobre mulheres artistas
Na vitrola: sambas de Clara Nunes

13 comentários:

  1. Encontrei seu blog através de um link no Chez. Adorei o texto e a reforma no quarto. Minha cor favorita é o amarelo, meus olhos brilharam ao ver muito do que está ai, incluindo os livros que também estão na minha estante rs. A vida teve o bom humor de me trazer a um espaço lindinho e com o qual me identifiquei bastante :)

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  2. minha cor favorita também é amarela (amar-ela, deve ser por isso) e acho que uma das coisas mais boas de quando a gente vai "crescendo" é moldar nosso quarto/nosso canto de acordo com a nossa identidade. nessa arrumação, pelo menos comigo, é como se eu estivesse me re-conhecendo. sensação boa demais. e tá lindo esse espaço teu. aproveita esse senso de humor da vida, que surpreende sempre.

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  3. Mesmo com tantos posts incríveis que você já fez por aqui, terei que ser sincera em dizer que esse se mostrou um dos melhores, mais tocantes e mais significativos de todos. Seus dois primeiro parágrafos explicam o que eu tô querendo dizer.
    Tão lindo quanto seu quarto ficou!
    :*

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  4. Babi, hice un esfuerzo enorme por leer y entender todo el post en portugués...
    Estoy tratando de seguir con mis lecciones para ver si algún día puedo dominar esa hermosa lengua.

    Se te ve bien, se te lee bien y la misión del cuarto que habitas me encantó. Toda la renovación implica un cambio desde dentro hacia fuera :)

    Muy buen gusto, por lo demás. Yo estoy en planes de hacer lo mismo.

    Un besito desde Chile, con un pedazo de nostalgia de ser vecinas.

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  5. Tá lindo, Babi!

    E amo o seu jeito com as palavras! <3

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  6. Pena que não existam planos, serei a primeira da fila quando um romance de Babi Carneiro for para as livrarias.

    Belíssima coleção de obras de e sobre mulheres, curti demais.

    E me encantei com a sua vitrola, estou às voltas com uma gigante e gostaria de encontrar uma assim mais compacta e charmosa.

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  7. Oi querida ,
    seus textos sempre me surpreendem e me encantam..
    sou sua fã incondicional...
    beijos
    Rose

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  8. Ficou tão lindo! Com a sua cara. E uma proposta de felicidade embutida. bjo enorme. e toooooda a felicidade pra você!

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  9. nada como ter um canto só nosso, com a nossa cara. dividir espaço pra gostos é complicado, a gente se sabota! mas viu, teu canto tá lindo.
    e aliás, amei a primeira fotografia!

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  10. Eu vou me mudar ano que vem e sabe.. ansiosa pro canto só meu. Mesmo que seja um quartinho bem básico, ele vai ser meu e isso me deixa realizada. :)
    O seu ficou lindo, aliás.

    Pale September

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  11. Eu amo amarelo...
    Na minha casa tem muita coisa amarela hahaa, fico me segurando quando compro algo novo para não comprar mais amarelo hahahaha

    Amei os triângulos no vidrinho


    Blog do Sofá
    Loja Kodry

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  12. Lindos demais os detalhes amarelos (:
    Que sonho ter um quarto todinho meu, só meu...

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