quinta-feira, 5 de setembro de 2013

a resistência e a memória



O contexto da conversa, não me lembro, mas Vivian me pediu para ir ao Memorial da Resistência e contar a ela o que achei. Fui ontem e Vivian não está por perto; escrevo aqui para contar pra ela e para mais um punhado de gente. O prédio no bairro da Luz eu já conhecia, já participei de seminário lá, já vi exposição temporária da Estação Pinacoteca. Mas nunca tinha ido ao espaço expositivo que trata do uso da construção pelo regime militar. O qualitativo "sensitiva" não se aplica a mim, mas só de imaginar entrar em lugares de tamanho impacto meu estômago revira um pouco. No entanto, eu entro (afinal, estudo História e enxergar a estupidez humana em sua face mais crua é uma espécie de rotina profissional). Em outras ocasiões, já entrei na cela onde Mandela ficou preso na ilha Robben e conheci um centro de detenção clandestino usado pela última ditadura argentina. Foram essas as primeiras lembranças que mobilizei na minha entrada no antigo DOPS.


Eu tenho um pouco de mania de pensar comparativamente e, por isso, comparei o tempo todo o Memorial da Resistência com o Museo de la Memoria de Córdoba. Ontem o Memorial da Resistência estava cheio de alunos de escolas; quando fui, o Museo de la Memoria tinha um grande grupo de professores sentados no chão, concluindo o terceiro e, pelo que entendi, último encontro de docentes de escolas básicas ali. Em ambos, havia um ou outro contingente de público espontâneo (eu, entre eles). Não pedi monitoria em nenhum dos dois lugares, mas me fez falta no caso paulistano. Explico: no museu cordobês, as salas de exposição têm um texto introdutório, em geral bastante simples, sobre o material exposto. O que está exposto, porém, não precisa de muita explicação. Podem ser fotos de vítimas da ditadura como na fotografia que mostro acima; ou podem ser objetos pessoais de gente cuja família espera notícias até hoje. Ali, algumas salas me impactaram muito e pelos mais diferentes motivos. A primeira delas é onde há alguns livros com as histórias de vida das vítimas, e não apenas do sofrimento, do encarceramento e, é importante dizer, sem ocultar suas filiações partidárias e suas crenças políticas. Já no caso do Memorial da Resistência, eu sentia falta de alguém me contando histórias, para além da grande linha do tempo que nos apresenta, do discurso muito bem feito do ponto-de-vista historiográfico sobre a reconstituição do espaço e seus múltiplos usos no tempo. Aqui, a trilha sonora que enche o estreito corredor é composto por músicas de protesto que todos conhecemos; em Córdoba, não havia Walsh e sim um introspectivo silêncio. Quando a cela no pátio se enchia de voz, era uma narração feita por um ex-detento.


O Memorial da Resistência apresenta muitos vazios. É bom ver como o lugar foi, mas não tive muita dimensão de o que aconteceu ali, só pelo meu caminhar. Vi algo parecido com o que os detentos que puderam tomar banho-de-sol viram, mas não vi quem os mandou prender, quem os torturou, matou ou desapareceu. Em Córdoba, essa foi outra seção que muito me impactou. Havia nomes, rostos, descrição de cargo e grau de envolvimento dos agentes de segurança naquilo que convencionaram chamar Proceso de Reorganización Nacional. Aqui, lembramos quem resistiu, quem sobreviveu e quem morreu, mas não é difícil notar que fingimos esquecer que este-ou-aquele esteve envolvido e que caminha impunemente por aí.


Nos dois locais, as paredes diziam coisas, nomes, datas, siglas. Em São Paulo, um grupo refez algumas das marcas do período. Em Córdoba, possivelmente um visitante como eu, pouco tempo antes de minha estada ali, escreveu: "Videla puto"; no dia de minha visita fazia 12 dias que tinha morrido o ex-ditador, preso, condenado a prisão perpétua por crime contra a humanidade.


Em suma, eu senti falta de poesia feita pelos anônimos, e falta de verdades que ainda não alcançamos. Não vi rostos, e apenas pude me colocar no lugar (é algo importante, mas a História depende um tanto de uma materialidade além da construção arquitetônica ou da mobilização da minha subjetividade). O discurso histórico está bem feito. A academia têm discutido o assunto já faz um bom tempo. O que falta no Memorial da Resistência na verdade não falta nele; falta na nossa forma de lidar com o tema.


(um adendo: semana passada em um evento sobre patrimônio, pude conhecer parte do trabalho da organização argentina Memoria Abierta que com criações virtuais e pesquisa de campo reais reconstrói lugares, sem precisar erguer fisicamente monumentos. Com depoimentos e documentação arquivística, criaram um mapa de lugares de detenção provisória e centros clandestinos de detenção e a partir desse trabalho viabilizaram a busca por verdade e justiça a partir da memória e da história dos que viveram essas experiências.)

8 comentários:

  1. Gostei muito do texto. Muito mesmo. Achei o conteúdo muito bem trabalhado e as fotos ficaram ótimas. Adorei as descrições, acho que são muito úteis pra quem tem a intenção de visitar. Preciso de mais blogs como o teu.

    Essa parte me comoveu e meio que pude me ver no seu lugar: "Vi algo parecido com o que os detentos que puderam tomar banho-de-sol viram, mas não vi quem os mandou prender, quem os torturou, matou ou desapareceu. Em Córdoba, essa foi outra seção que muito me impactou."
    Incrível, incrível. Parabéns.

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  2. Eu sou muito sensível, ainda mais quando é algo envolvendo memória, história. Eu não posso passar por um prédio antigo da minha cidade sem tentar imaginar ou conhecer o que aconteceu ali. Agora imagina eu visitando lugares parecidos com esses que você citou? O máximo de dor e sentimento parecido eu tive foi em uma antiga casa grande que hoje é um parque de diversões do meu estado (oi?), onde as senzalas foram praticamente maquiadas, mas mesmo assim pra mim continuam a exalar dor.

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  3. Adorei, bem interessante! Aqui em Recife existe a Casa da Cultura, que era a Casa de detenção do Recife, e hoje vende todo tipo de artesanato, vale a visita!


    Beijinhos, seguindo!
    Lia ♥
    Limão & Alecrim

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  4. Texto fantástico, como sempre. Adorei as fotos, o texto, a comparação, a mistura. Principalmente a observação da falta de certas informações, nomes e rostos.

    Só me senti uma mula por não saber da existência disso. Minha mãe veio me perguntar esses dias quais eram os museus relacionados a ditadura e até esqueci de procurar.

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  5. Eu gostei bastante das tuas fotos nesse post. Não sei se é porque não sou acostumada a visitar lugares assim, mas fiquei lendo como se fosse um guia desses dois espaços que por mais que tenham a mesma proposta,acabam saindo totalmente diferentes. Me deu muita vontade de conhecer o de Córdoba. Deve ser bem interessante, mas acredito que agora eu vá visitar esse Memorial, coisa que duvido que faria tão cedo.

    Pale September

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  6. Passei boa parte do meu TCC dentro do Memorial da Resistencia (ditadura militar no Brasil foi o meu tema central) e realmente deixa muito a desejar. Por ir muitas vezes e já ciente do assunto, na época eu não reparei, mas agora lendo suas impressões concordo plenamente!

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  7. Esse seu relato me entristece muito... temos muito que aprender com os nossos irmãos latino americanos nesse quesito consciência política e histórica, né?

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  8. Então, acho que o grande negócio é que eu conheci primeiro o Museo de la Memoria y Derechos Humanos de Stgo, aí de fato a comparação é inevitável, e não pende bem pro Memorial da Resistência. Essa tua frase aqui: "Vi algo parecido com o que os detentos que puderam tomar banho-de-sol viram, mas não vi quem os mandou prender, quem os torturou, matou ou desapareceu" é a que mais me causa incômodo no espaço expositivo.
    Mas tô te devendo minhas impressões, agora. Em uns cinco minutos, quando tu chegar pro mate, conversamos sobre isso. =]

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