sexta-feira, 16 de agosto de 2013

a girl's best friend

animal print


Percebi a passagem do tempo não com o fim do ensino médio e esse quase fim da graduação, não com os novos amigos que foram entrando no círculo ou por não caber mais nas roupas que eu cabia. Foi a velhice do Feroz que me fez notar que o tempo estava passando. Para todos nós.

o sono dos justos


Ele ficou em casa depois de cansarmos de todos os dias o colocar para fora. Não demorava muito, ele invadia a casa de novo, atravessando as grades no portão. Alguns anos depois, essa habilidade já não seria possível com a gordura que acumulou na pança. Quando chegou, Feroz mancava com uma das patas dianteiras e nunca soubemos se por fraqueza ou por charme. Naquele ano, último em que estudei na escola perto de casa, ele me acompanhava todos os dias em que eu saía para ir à aula. Vez ou outra entrava comigo na escola, dava uma volta no pátio (perturbava os seguranças) e, notando que me perdera em meio a todos aqueles cheiros de alunos, saía pelo mesmo portão e voltava para casa. Não raro atrasava o percurso, esperava o açougue abrir e o Aguinaldo (o açougueiro que a gente conhecia por Gui) lhe dava um pedaço de osso. Ele subia com o troço na boca os três quarteirões, desfrutava o quanto queria daquele pedaço e quando cansava, desejoso de entrar de novo em casa, atravessava as grades e entregava à Luma o que sobrara do presente.

sweet child of mine


Há muitas histórias do Feroz que nós nunca pudemos saber, embora quando eu era mais nova me perguntasse quanto tempo eu precisaria conversar com meus animais para que eles começassem a se interessar pela fala humana (nesse momento, Jorge Luis Borges poderia intervir e dizer que, assim como os macacos, os cães não falam que é pra não serem obrigados a trabalhar). Das coisas que sabemos, é que Feroz já cumpriu o ditado que diz que o cachorro entrou na igreja porque a porta estava aberta, que ele tinha uma estranha mania de se esfregar no espaço da barraca do peixe na feira-livre do bairro, que seu coração batia em um ritmo próprio; também sabemos que ele não tinha pudor em afastar a cadeira e usá-la de escada para alcançar um macarrão recém-preparado por mim.

charming


Certa vez, nessas escapadas diárias, ele foi capturado pela carrocinha e tivemos que resgatá-lo naquele ambiente tétrico e perturbador. Depois disso, pusemos tela no portão, cerceando a liberdade do maior vira-lata que já conheci. Sua vida foi cheia de riscos. Alguns estúpidos, motivados por sua intensa vontade de correr atrás de motociclistas. Ele detestava tomar banho, mas se jogava em córregos suspeitos em dia de calor, não gostava de veterinários, e nos lançava olhares que interpretávamos como uma sincera gratidão.


No fundo, sou eu quem agradeço, por toda companhia que me fez nesses onze anos, Ferozim.


11 comentários:

  1. A amizade entre homem-cão, homem-gato, homem-(insira aqui seu bichinho) é feita de uma maneira engraçada se a gente parar pra pensar. Diferente dos seres humanos, a gente não consegue se comunicar pela fala, não consegue receber uma resposta pros nossos problemas agoniados e nem pras nossas alegrias compartilhadas. E a graça e beleza tá justamente que mesmo assim eles entendem de um tanto das nossas dores e alegrias que a fala mesmo fica desnecessária.
    São amigos de tato e sentimento.
    RIP Feroz.

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  2. Que post lindo! Texto e fotografias tão carregados de sentimentos... Nossa, deu até um nó na garganta, principalmente porque eu tenho um melhor amigo assim. Coisas tão simples, como estar sempre me esperando e saber os horários que chego do trabalho, são sempre garantia de sorriso nos meus dias. E depois de ler a sua postagem eu só consigo pensar em um trecho do livro Marley & eu (John Grogan):

    "Um cão não precisa de carros modernos, palacetes ou roupas de grife. Símbolos de status não significam nada para ele. Um pedaço de madeira encontrado na praia serve. Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe, mas por quem são por dentro. Um cão não se importa se você é rico ou pobre, educado ou analfabeto, inteligente ou burro. Se você lhe der seu coração, ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa ou não."

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  3. ai babi que post mais lindo.. te digo que me emocionei com teu post. tanta ternura, amor e respeito por um animal como voc tinha pelo seu feroz.
    me fez lembrar do meu gato q nao passei tanto tempo quanto gostaria com ele porque ele era como seu Feroz que gostava de umas "vidas duplas" e passeava por aí, e por conta dessa raiva irracional que as pessoas tem de gatos envenenaram meu bichano..li teu post sentindo saudade dele, e nas suas palavras pro seu cão quis ter meu gato de volta ao lembrar da falta q ele faz...

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  4. Chorando. :,(

    Também tive um assim. O Frodo não passava mais na grade do portão, então, quando alguém esquecia aberto, ele saia correndo pra vadiar. Acompanhava a vizinha ir buscar os filhos na escola na rua de cima. Não atrasava um minuto. Quando voltava, ficava lá no portão até alguém gritar "Seu 'Jão', o Frodo chegou". E lá ía meu vô botá-lo pra dentro.

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  5. Acho que o amor e a gratidão que esses bichinhos expressam no olhar são duas das coisas mais fortes e inexplicáveis da vida. Impressionante como, apesar de tudo o que se passou antes de vocês se encontrarem, eles tem a capacidade de amar gratuitamente (ou por uma dormida no sofá, ou um macarrão fresquinho roubado da sua tigela rsrs) como se nunca tivesse conhecido o sofrimento ou abandono...

    Lindas as fotos, lindo texto. Fique bem...

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  6. Sofri junto com ele com essa história da carrocinha e da subsequente (e inevitável) tela no portão. A gente quando ama quer proteger de tudo e de todos, quer ficar pra sempre perto. Mesmo que pra sempre não exista, né? Lindos vocês dois.

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  7. Ai guria, as tuas histórias do Feroz me lembraram do meu primeiro cachorro, o Toby, e terminei de ler teu post chorando :(

    Acho que as lições mais lindas que eu já aprendi na vida foi com a convivência com eles, e sinto muito mais falta dos meus cachorros que morreram do que de muito amigo que perdi, mas gosto de pensar que eles estão em um lugar muito especial, correndo à vontade e roendo muito osso, felizes pelas coisas que nos ensinaram.

    A tua história com o Feroz é linda, viu, parabéns.

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  8. Que lindo o Feroz.
    Tenho/tinha dois cachorros: Tobe e Lilo, são da raça pinscher. Agora que não moro mais com meus pais, confesso que sinto falta da Lilo "gritando" quando alguém chegava chamando no portão, ou do Tobe quase enfiando a cara dentro do meu prato quando eu ia almoçar.
    Só quem convive com esses bichinhos sabe a falta que eles fazem.

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  9. Eu lagrimei demais lendo isso. Talvez porque meu sonho desde sempre é ter tido algum animal pra chamar de amigo, pra dormir junto e brincar.. Quem sabe um dia. Esse prazer é o tipo de coisa que todos deviam ter. :)

    Você escreve lindamente.

    Pale September

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  10. Você quer me matar, né? Ai meu jesus senhor, que coisa mais linda esse Feroz! Ele curtiu bastante a sua liberdade, pena que tem gente sem coração. Eu tenho uma que já tá velhinha, e quase todo dia eu olho pra ela brinco dizendo que tou tão velha quanto ela. O tempo passa.

    Beijos

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  11. E eu, que quase amo mais vira latas do que humanos, me emocionei demais com essa historia!
    Awn Feroz, seu maravilhoso!!
    Me lembra um pouco o Xerife (cão do meu namorado). Impossível não amar <3

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