terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

bibliografia para breve autocrítica do dia


Christy Wampole escreveu um texto muito bom, mas bastante controverso, sobre o arquétipo hipster tão em voga atualmente. Eu pareço ter gostado do texto na mesma medida em que não gostei dele. A autora traça um excelente panorama de uma cultura urbana que povoa as redes sociais, mas erra ao fazer uma das coisas mais irritantes que um texto pode fazer ao tratar de um grupo de pessoas jovens: condenar uma geração. A idéia de uma geração X ou Y ou Z, ou beta ou gama ou alfa, é algo muito abstrato; faz sentido nos textos de ficção científica, mas não dá conta de explicar o que tem em comum as pessoas que nasceram numa mesma época. Embora estejamos todos num mesmo tempo histórico, há nuances que surgem a todo momento. Não imagino que o arquétipo do hipster seja o retrato de todos que nascemos nos fins dos anos 80 e início dos anos 90. Parece-me muito mais um comportamento de uma parcela de classe média intelectualizada em geral concentrada em grandes cidades. Uma fatia pequena, portanto, dentre todas as possibilidades do que somos ou parecemos ser. Apesar de as críticas aos hábitos dos hipsteres descritos por Wampole fazerem sentido quando encarados pela faceta irônica com que essas pessoas levam a vida, pensar que a emergência desse grupo é algo recente ignora os jovens que no pós-Segunda Guerra perambulavam vestidos em suas camisas xadrez e frequentando os bares de jazz dos Estados Unidos. Jack Kerouac descreve-os em On the road e talvez por isso a geração beat tenha reaparecido em recentes produções culturais. Feitas essas ressalvas, continuo aconselhando a leitura do texto. Enxerguem-no como uma oportunidade de fazer autocrítica e as coisas estarão em seu devido lugar.
O hipster é um pesquisador das formas sociais, um estudioso do que é cool. Ele estuda implacavelmente, escavando em busca daquilo que não foi ainda descoberto pelo público geral. Uma citação ambulante, suas roupas referem-se a algo muito além de si próprias. Ele tenta negociar o antigo problema da individualidade, não por meio de conceitos, mas a partir de coisas materiais.


No mesmo viés da importância da autocrítica, cheguei a um texto muito bom sobre os blogs de moda que pululam na internet. A crítica foi publicada em inglês no blog À l'allure garçonnière e fala sobre como a cultura dos blogs de moda precisa de menos estilo e mais substância. A partir do caso de "fatshion bloggers", isto é, de meninas cujos corpos demandam roupas de numerações maiores que as convencionais, a autora faz um panorama de como os blogs de moda, que já foram espaço para crítica à indústria e ao mercado, têm sido cada vez mais um lugar para ostentação e estabelecimento de negócios entre as blogueiras e as marcas famosas (o que, convém dizer, torna quase tudo mainstream e a resistência fica dispersa ou perdida em arquivos de fóruns, comunidades e blogs do começo da década). As blogueiras temem tratar de política, bem como seus leitores ficam aflitos com essa possibilidade. Com a perspectiva feminista, levando em conta outros marcadores sociais como classe e raça, há menções a outros textos igualmente excelentes que nos levam a discussões mais profundas sobre blogueiras de estilo-de-vida (estariam esses blogs levando as mulheres a uma nova forma de comparação entre si?) e a opiniões sobre as controvérsias dos blogs de moda numa entrevista com uma blogueira americana. Embora todos esses links nos levem a textos em inglês com pessoas não-latino-americanas, não sinto o menor receio de dizer que a situação nesse campo chamado "blogosfera brasileira" não é muito diferente (e muitas vezes chego a crer que estar na periferia do capitalismo faz com que as nossas blogueiras de moda caiam em contradições ainda mais aparentes em seus discursos). Traduzi um pequeno trecho que leva a um dos pontos centrais da argumentação do que escreve la garçonnière:
No fim, tudo parece levar ao capitalismo - o qual, reconheçamos ou não, é uma estrutura política. Quer estejamos desafiando blogueiras "fatshion", blogueiras de moda ou blogueiras de estilo-de-vida, há um elemento mais abrangente que nós não podemos perder de vista. Estamos vendendo a nós mesmas?
Um balanço sobre as pessoas da minha idade que frequentam os mesmos lugares que eu e que compartilham comigo algumas referências (ainda que virtuais), e essa nostalgia dos anos 90 que já começa a aparecer no horizonte (As vantagens de ser invisível não me deixa negar), me levam a crer que, no fundo, eu mesma sou uma espécie de grande Lebowski, jogando boliche e lutando contra o niilismo quando ele resolve atacar no estacionamento do supermercado. Por enquanto só posso agradecer por ninguém ter se vingado de mim fazendo xixi no meu tapete.

6 comentários:

  1. Indicações super válidas! Fiquei mesmo com vontade de conferir. Ótimo poder tomar um fôlego de tanta tendência e procurar ver as coisas por um outro viés.

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  2. Gente... nunca havia lido um texto tão bom sobre esse assunto! Confesso que não tenho uma opinião formada sobre isso por pura preguiça de ler/pesquisar! :S

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  3. Tanto hipsteres quanto as "bloguetes" de moda são tendências com a leve diferença de que, aparentemente, os fashionistas existem há tempos. A única eficaz crítica a este segundo grupo, que vejo atualmente, é a Blogueira Shame (uns amam, outros detestam) que, apesar de ser ferina em seus argumento, também é a única que conheço e que revela o que há por trás dessas blogueiras. É um grande comércio os blogs, de um modo geral - mas o de moda se destacam melhor. E somos nós quem sofremos com informações ambíguas, ausência de conteúdo, ostentação desnecessária e ortografia péssima.
    Abraços.

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  4. The dude is always right. ;)

    Esse texto veio numa hora curiosa. Ontem revi Barfly, escrito pelo Bukowski, para mim o símbolo do anti-American Dream. O filme tem uns insights incríveis sobre a vida em sociedade e me fez pensar sobre a quase obrigatoriedade que temos hoje de viver uma vida intensa, cool, realizada... (intensificada ainda mais pelos exemplos de vida "perfeita" que vemos todos os dias nos blogs e redes sociais).

    Um pequeno e genial trecho do roteiro do Bukowski:

    "This is a world where everybody's gotta do something. Y'know, somebody laid down this rule that everybody's gotta do something, they gotta be something. You know, a dentist, a glider pilot, a narc, a janitor, a preacher, all that. Sometimes I just get tired of thinking of all the things that I don't wanna do. All the things that I don't wanna be. Places I don't wanna go, like India, like getting my teeth cleaned. Save the whale, all that, I don't understand that".

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  5. Já faz algum tempo que li esse texto Como viver sem ironia e concordo sobre alguns pontos bem específicos, como a atual necessidade noltálgica que vivemos. É como se estivéssemos passando por um momento de seca criativa e por isso acabamos voltando os olhos pro que nos precedeu. Todavia, a questão da ironia não faz muito sentido pra mim. Não me vejo num contexto em que ironizo pra me sentir protegida ou intelectual. Isso é pra mim é bosta e se alguém está realmente agindo assim, precisa de um semancol pra ontem. Um pouco radical na minha opinião, talvez.

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  6. Eu simplesmente adoro esses tipos de debates porque sempre surgem no meio dos textos/conversas um nostalgico, extremamente romântico como o caso dessa francesa ou daqueles que podem jurar que as coberturas das semanas de moda eram melhores... e os anos 90 eram muito mais maravilhosos..

    A questão que sempre me ronda é o que fomenta isso sabe, essas bloggers fraudes que vendem suas opiniões, meninas ricas q fazem dos blogs mais uma janela para esnobismo e como humanos q somos buscamos padrões q na história sempre foram estes "os de vida teoricamente perfeita" sejam religiosamente ou hoje, materialmente..

    concordo com vc q ela se perdeu ao condenar uma geração e cobiçar essa vida sem ironia, ate pq no Brasil, pelo menos, os politicos, governantes agem com muita, mas muita ironia..

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