sábado, 13 de outubro de 2012

rompendo as fronteiras

Quando fiz a série The pain and the beauty comecei a me preocupar esteticamente com as questões de gênero e de corpo com uma profundidade um pouco maior do que antes. Sou, fisiologicamente, desde que nasci, uma mulher. Mas isso não quer dizer que sempre acatei as convenções de gênero que com uma força inegável tentam mostrar aos meninos como ser meninos e às meninas como ser meninas. Eu era do tipo que batia bafo com os meninos, colecionava figurinhas do campeonato brasileiro, e via muito mais sentido em ser a poweranger amarela (já que todas as outras meninas entravam em disputa para poder ser a cor-de-rosa). Na adolescência, para fugir de estereótipos, encontrei a solução de não usar roupas rosa ou claramente de meninas (isto é, vestidos e saias). Sim, recusei-me a ser uma daquelas minas que dançam em festa de debutante para poder ir de calça ao evento. Precisei passar por esse radicalismo para formar, de algum modo, um pensamento mais libertador perante meu corpo e, se hoje saio de calça ou de vestido, sei que é por uma vontade minha. Mas vai pensando que o mundo não tá cheio de expectativas de gênero...
Tomboy

Os dois filmes deste post de algum modo tratam dessas mesmas expectativas. Muito além do sexo das personagens principais, Tomboy e XXY dão ao corpo delas uma força expressiva fantástica. Não é preciso falar muito para entender os conflitos, porque eles se expressam em suas aparências e em seus desejos. Em comum, apesar das diferentes idades (Laure tem dez e Alex tem quinze anos) e de morarem em países distintos (a primeira na França e a segunda no Uruguai), foi-lhes permitido viver - pelo menos no âmbito privado, na convivência familiar - conforme quisessem, rompendo com padrões de feminilidade e masculinidade. A temática possivelmente só pôde ser desenvolvida por causa dessa liberdade que as narrativas resolvem no espaço ocupado pela família. Já no mundo exterior, o caminho é muito mais complexo e tumultuado em que a condição do sexo está em oposição à estética do gênero.

XXY

Na vida real, a fluidez nas fronteiras de gênero colidem, porém, na ratificação constante do normativo. E esse é o maior enfrentamento. Compreendamos que a estética hegemônica esteja pautada no referencial homem, branco, ocidental, cristão, com posses e todo passo na negação desse padrão é uma oposição à norma imposta. Por mais livres que sejamos das categorias, enquanto houver um normativo que não se relativiza, o gênero ainda será um lugar de engessamento e a negação do gênero, pro nosso bem, será uma resistência ao que nos é imposto.

2 comentários:

  1. Estou com o Tomboy em casa para assistir e não conhecia o XXY. Me interessei, vou procurar. Como estamos há anos luz de viver livres de expectativas e conceitos engessados, imagino que já seja uma vitória viver, ao menos no âmbito privado, tendo rompido os padrões de gênero. Uma vitória parcial, é claro, e ainda rara.

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  2. Quero muito assistir os dois filmes. Estão nas minhas listas tem bastante tempo, mas acabo sempre adiando.

    Dei uma lida no seu blog, e me apaixonei pela forma como escreves e teu olhar nas fotografias. Além do teu gosto. Ainda bem que achei esse teu canto. Adorei. :)

    http://www.paleseptember.com

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