terça-feira, 21 de agosto de 2012

beat it

Philip Roth, em entrevista à Época, disse que os livros de Jack Kerouac têm sido supervalorizados, e que o próprio sempre foi um narrador banal. Por falta de tempo e oportunidade, ainda não li nada do Roth, mas achei que ele fala umas abóboras no meio da entrevista. A principal delas, na minha opinião, é o vaticínio sobre o fim da cultura literária nas próximas décadas. Incomoda-me muito pouco - e já explico o porquê - a crítica ao Kerouac, mas eu simplesmente durmo em cima do teclado quando começo a ler que a tecnologia vai matar a literatura. Provavelmente nossos avós disseram o mesmo quando inventaram a televisão e nossos bisavós quando ouviram o rádio. Ou simplesmente não disseram nada porque a taxa de alfabetização hoje é maior do que na época deles.

alone in eternity


Li On the road - essa versão da foto - durante as férias, motivada pelo lançamento do filme e pela publicidade do Caio, que começou a escrever parágrafos gigantes sem ponto final quando o leu. O manuscrito original tem algumas diferenças do texto célebre. O nome dos personagens não são alterados nessa versão e o texto é desprovido de finalização (alega-se ter sido o original comido por um cachorro, tipo de desculpa muito em voga na época em que eu cursava o primário). Não sei o que mais muda entre os dois textos, visto que só li esse. O filme de Walter Salles, que tem uma considerável experiência em filme de estrada (Central do Brasil e Diários de Motocicleta), dá aos personagens os nomes da versão oficial do livro, mas não vi na tela muita diferença do que li no livro.

O foco turvo em Dean Moriarty/Neal Cassady, o cara maluco, encantador, com uma vida passada que ninguém queria ter e um instinto rebelde que tantos outros desejariam possuir, incomoda pela falta de profundidade do personagem. Estamos sempre diante de alguém que só é pelo olhar de um autor que coloca sempre seu amor e sua raiva por Neal na nossa frente. Pode-se dizer que o livro não é o maior clássico do século XX (nem sei se poderia ser reduzido a 140 caracteres), mas como forma de entender uma determinada cultura, é excelente. Não precisamos acreditar que Neal, Jack e os outros personagens baseados-em-fatos-reais viveram tudo o que a narrativa nos mostra. A começar pelo fato de existirem ao menos duas versões do texto à venda, já podemos problematizar a coisa da autobiografia. A grande graça dessa obra é pensar nas referências que ela toma, nos bares de jazz de Nova Orleans nos anos 40, por exemplo, e a recepção que ela terá por décadas a fio (afinal, how many roads must a man walk down?). O mito do caubói, a eterna marcha para o Oeste e a última viagem chegando ao México. Se o fluxo de consciência pode incomodar e se a narrativa não é tão elaborada assim, não dá nem pra pensar em questionar a longa duração dos valores (bastante controversos!) que a obra propaga e de algum modo o filme reproduz.

13 comentários:

  1. "mas eu simplesmente durmo em cima do teclado quando começo a ler que a tecnologia vai matar a literatura"

    Hahaha. Pra mim, a maior prova de que a Literatura não morrerá,tá aí. :)
    Não PRECISO, eu QUERO ler On the Road. Como uma disse, uma vez:Daí que você vai mesmo querer sair de casa.
    Ótima escrita, como sempre, e obrigada por mencionar filmes que, ao meu ver, deveriam ter tido maior repercussão. Ao que parece, On the Road tá sendo visto (aqui na nossa terra) como o PRIMEIRO filme "de estrada". Não gosto disso, nenhum pouco.

    Um beijo.

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  2. Kerouac supervalorizado? Oi? Pra mim ele sempre esteve no lugar em que devia está, é uma referência literaria pop, e de muito bom gosto, não é um clássico, mas diz muita coisa.

    Beijos

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  3. Li o livro há muito tempo, lembro que foi um tanto sofrível e meio que insisti nele. E eu me entreguei completamente para o filme, viajei junto, fui sem expectativas e acabei gostando.

    Gostei da sua análise, mas queria saber de que valores vc fala no finalzinho? Eu entendo o que vc diz mas nao consigo materializar... hahaha

    'valores (bastante controversos!) que a obra propaga e de algum modo o filme reproduz.'

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  4. Eu tenho um pocket de On The Road que eu comprei quando estava da faculdade. Não terminei de ler (cêjura?), mas um dia terminarei. Hahaha

    Agora sobre Philip Roth. Gosto bastante viu?! Não sei se é por causa do ex namorado que era meio que fissurado nele, mas eu li duas obras suas que gostei muito. Aquela coisa de judeu e etc: "O Complexo de Portnoy" e "Pastoral Americana". Não li essa entrevista para a Época, mas dê uma chance ao cara! :P
    Hahahaha

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  5. exatamente! isso que eu pensei. Acho que vou ter uma familia aventureira, só pra subverter hehe

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  6. Ultimamente, tenho lido e ouvido muitas pessoas falando sobre esse livro, que eu não consegui ler. Acredito que seja um livro para se ter físico, igual Lolita, e tentei em pdf, e novamente igual Lolita, não consegui ler também. Mas tão logo consiga um exemplar em mãos, poderei dar o meu parecer, oba \o/ HAHAHA

    E também não acredito que os tablets vão acabar com os livros de papel, eu mesma gosto de riscar, grifar as passagens que eu gostei, de ter uma estante bonita num canto da casa. Isso a gente não tem com livro tecnológico, né? '-'

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  7. ainda não li o livro, quanto menos assisti ao filme. haha D:
    mas confesso que tô bem mais animada em ler o livro, parece que o filme não foi grande coisa, né?
    beijo!

    http://jemappellepriscilla.wordpress.com

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  8. Olá Babi! Obrigada pela visita la no blog! adoro seu blog e ver vc por la foi bem legal! rsrsrs

    Enfim, já li On The Road e vi o filme. Vi o filme antes de terminar de ler o livro pro tanto que estava ansiosa..
    Li o livro por conta do trailler sensacional q fizerem pro filme Na Estrada. E me decepcionei tanto que nem consigo descrever verdadeiramente. Me senti exausta na sala do cinema, coisa q nao provei quando li o livro sabe? O misterio de Dean, o desejo pela estrada, a quase necessidade de estar nela. Essa busca por si, por experiencias e pessoas.. No filme era só loucura loucura e loucura.. Acho que as unicas partes q foram assim correspondentes ao q Kerouac nos passa, mesmo nao sendo um grande escritor etc, é o fim do filme e o começo com aquela caminhada ao som da música que resume tudo. rsrrsfsr

    Acho que falei demais hahahaha

    beeijos e volte sempre lá no blog! tem post novo ^^

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  9. PS.: te adicionei ao meu blogroll *-*

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  10. uma de minhas vergonhas é não ter lido on the road. mas um amigo que viu o filme mão achou lá grande coisa.

    na melhor das hipóteses tentarei primeiro o livro. ;)

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