sexta-feira, 16 de março de 2012

o espaço deixado por aziz

Assim que minha mãe soube da morte de Aziz Ab'Sáber, me telefonou. Eu estava na aula e fui informada pelo professor tão logo ele começou a falar. A sala soltou uma interjeição de espanto e eu propriamente tive que lidar com a estranha sensação de falta que a notícia me proporcionou. Nunca conversei com o professor Aziz (geógrafo, mas não só), mas o admirava desde os dezessete anos.Precisando estudar para a segunda fase do vestibular em casa, uma vez que não fiz cursinho junto com o ensino médio, deparei-me com o mapa de conformação física do território brasileiro. Na legenda, o nome de Aziz Ab'Sáber. O encontro prosaico com aquelas letras miúdas se transformou de conhecimento objetivo para uma relação de grande admiração depois que entrei na faculdade.

A aula magna, primeira aula do ano, dedicada aos alunos ingressos em 2008 foi proferida por ele. Do Aziz só conhecia o nome e o mapa fatídico no livro didático. Entrou um senhor pelo anfiteatro e puxou a mesa do palco mais para a frente. Com a voz baixa e os olhos caídos, a fala se compunha em pensamentos cheios de vida! Falava sobre a composição da floresta amazônica com a mesma propriedade que contava sua trajetória. A estrutura de uma aula como eu concebera até ali, com um professor e um quadro, esquemas e conteúdos, era levada às profundezas do planalto sudeste.



Aziz Ab'Sáber


Por isso, a foto desse post não é meramente ilustrativa. Resultado de uma feliz coincidência de fatores, ela me remete a uma noite do primeiro semestre de 2009. A câmera estava na mochila e, enquanto aproveitava o intervalo que o professor nos dera, vislumbrei Aziz rodeado de jovens estudantes. Voltei logo para a sala, peguei a câmera e bati essa foto. Sua voz baixa não impedira que os estudantes juntassem os bancos (algo impossível hoje, já que nesse período pregaram-nos ao chão, formando um quadrado - forma geométrica significativa nesse caso - perfeito e com lados distantes) e ouvissem Aziz falar. Já passava das 21h30, e não havia lista de presença ou notas a serem dadas. Havia um senhor que muitas vezes comia lanches na padaria do conjunto residencial da USP disposto a conversar sobre sua vida. E havia pessoas interessadas em ouvi-lo falar. Aziz não me ensinou com sua obra só a entender o relevo do território brasileiro. Embora professor aposentado, ensinou-me sobre o verdadeiro espírito da coisa pública. Deu uma dimensão humana a um meio com tantas tendências a disputas internas como a academia. Saiu pelo Brasil, conheceu-o e concebeu ideias sobre ele. Aziz é um exemplo - talvez muito raro nos dias de hoje - que não deve ser perdido.

(A quem interessar possa, a entrevista dele, na íntegra, ao Roda Viva, em 1992)

5 comentários:

  1. Não o conheço, mas só pela maneira como descreveu já fiquei encantada pela sua pessoa. É realmente triste perder pessoas assim..
    =/

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  2. É, assim, só de ler, senti falta dele também. Mesmo sem conhecer.

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  3. Não conheci, muito menos ouvi falar a respeito, mas acredito que ele tenha feito a diferença na visa de muitos estudantes.
    Passei a admirar só de ler suas palavras.

    beijos

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  4. Acho que ouço falar dele desde meu segundo ano de ensino médio. Quando ele morreu, meu atual professor de geográfica política no cursinho, contou, emocionado, que ele havia partido e nos disse que dias antes ele foi até Sociedade brasileira para o progresso da ciência e deixou lá todas as suas obras completas para serem distribuídas gratuitamente pelo Brasil.

    Agora que vi esse foto e li seu relato compreendo mais o quão grande ser humano ele foi. Realmente admirável e uma imensa perda.

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  5. Olá,

    Encontrei seu blog por acaso procurando uma entrevista antiga do Aziz. Já havia visto essa foto reproduzida em vários lugares. Fiquei muito encantado de poder ler a história dela. O jeito como você descreve e narra o jeito dele, as ideias, posturas e sensibilidades... Super perceptivo . Eram bem as sensações que a foto passava. Tocavam muito, e traziam um retrato bonito da pessoa incrível que ele foi/é. Me influenciou muito e significou bastante para mim, das melhores pessoas que pude ter contato. Só queria agradecer por repassar esse relato, e fazer relembrar tudo isso.

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