domingo, 19 de fevereiro de 2012

as histórias cruzadas

Filmes das últimas semanas: "O pequeno Nicolau", "Valsa com Bashir", "Contra a parede", "Os sonhadores", "Os descendentes", "Os batutinhas", "Crina branca", "A invenção de Hugo Cabret" e "O balão vermelho".

De todos os filmes que vi nesse período de "retiro intelectual", Histórias cruzadas foi o que mais mexeu comigo. O filme trata da segregação racial no Mississipi dos anos 50 e 60, enfocando a relação das empregadas domésticas com suas patroas. Com preponderância de tons pastel, a estética "menininha" tão em voga e tão tributária dessa palheta de cores abre caminho para discussões muito mais sérias. As cores e a maioria de personagens femininas em Histórias cruzadas talvez nos ajudem a lembrar que o assunto do filme é, dentre outras, uma questão de gênero.


Entre um litro e outro de lágrimas derramadas na sessão de cinema, voltei a uma recente lembrança da viagem ao Rio. Havia algo de muito incômodo na fala de que o Rio de Janeiro tem uma organização espacial democrática porque a praia une as diferentes classes sociais. O argumento não bastava; não é nas aparências que pessoas de diferentes setores da sociedade e de diferentes tons de pele podem se sentir como iguais. Há toda uma evidência visual na conformação da cidade: as favelas nos morros, os ricos nas baixadas. Mas foi uma visão de relance que fez ruir o mito da democracia carioca que se encontra entre o calçadão e o mar. Era feriado e pela janela do carro vislumbrei ao menos três pessoas indo em direção à praia. A mãe, a criança e a babá. Só pude saber naqueles poucos segundos de visão que se tratava mesmo da babá por causa de seu uniforme branco. Havia algo de extremamente absurdo nessa imagem tão rotineira. Era feriado. Não consigo entender que em um dia de descanso a babá seja fundamental, deixando ela mesma de aproveitar o dia ensolarado com a própria família. Não consigo entender que em um dia de folga uma mãe - a patroa - precise de uma intermediação com seu filho, fazendo com que outra pessoa (quem sabe também uma mãe) tenha que estar presente ali. Talvez seja verdade que todos se encontrem na praia, mas os espaços sociais que ocupam muitas vezes reverberam nos espaços geográficos, não só no Rio de Janeiro.



Os problemas dos empregados domésticos extrapolam fronteiras. Não é só uma questão de cor de pele. A garantia de direitos civis que os movimentos negros dos Estados Unidos exigiam nos anos 1960 não é tão distante quanto parece das lentas conquistas trabalhistas que a categoria conseguiu no Brasil. Ainda assim, não raras vezes, escutamos por aqui um muxoxo das patroas com tímidos aumentos do salário mínimo. O tema é muito bem explorado em outras duas obras cinematográficas que conheço. Em português, no bem-humorado Domésticas e, com poucas frases mas em francês, no curta "Loin du 16e", dirigido por Walter Salles e Daniella Thomas em Paris, eu te amo.

7 comentários:

  1. "O pequeno Nicolau", "Histórias Cruzadas" e "Paris, eu te amo" têm pra mim, cada um a sua maneira, uma graça e uma razão especial para serem imensamente queridos. Afora a beleza desses filmes, pensando em questões mais profundas, é triste fazer constatações como a que tu fez, Babi. É chegar na conclusão que essa dita 'igualdade e democracia" ainda engatinha. E isso, infelizmente, não é exclusividade de nenhum lugar :/

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  2. Eu já tinha lido sobre o filme Histórias Cruzadas. Fiquei com mais vontade ainda de assisti-lo.

    E, nossa, é realmente complicada a forma como muitas babás e domésticas, melhor, como vários trabalhadores são tratados. Muitas pessoas, por serem como máquinas, sem pensar no outro, nos sentimentos e necessidades do outro, acabam tratando as pessoas - nesse caso, as pessoas que empregam -, como máquinas também :/.

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  3. Depois da nossa conversa sobre o filme, pensei em outra coisa que segue pelo mesmo caminho também. No Brasil (não sei como é em outros lugares), muitos apartamentos e casas ainda possuem seus banheiros de empregadas.
    Geralmente escondidos e minúsculos.
    Só sei que é tudo muito assustador :(

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  4. E os quartos das empregadas que moram no serviço de modo geral são despensas muito menores do que os outros cômodos da casa. Sem dizer que ainda existem as divisões de elevadores em "de serviço" e "social".

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  5. Eu lembro desse momento...e é comum aqui no Rio...dentro das áreas em que as classes privilegiadas moram, a utlização de babás e com esses indefectíveis uniformes bancos...mantendo vivas as imagens de debret.

    A democracia na praia do rio se dá de outra maneira, não é pela "mistura" das pessoas, mas sim pela liberdade que cada um tem de ficar no pedaço de areia que desejar. Sempre foi assim.
    Qdo morei na Urca, durante a disputa Lula Collor, existiam lados pró e a favor do sapo barbudo...eu como não queria nenhum dos dois sentava no meio...rs
    A democracia nas praias cariocas passa pela maconha em lata (vc não era nascida), pelo topless da Gal, do apitaço contra a polícia, pelo Circo Voador e o posto 9 de ipanema...

    tem piscinão em ramos, o posto 8 na barra, e o arpoador, mais misturado impossível...

    beijo Babi
    vc sempre tão lúcida e coerente

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  6. Infelizmente ainda não assisti nenhum dos filmes. Moro numa cidade pequena e daqui que algum desses chegue por aqui... Vai demorar bastante! Já vi vários posts falando bem sobre "Histórias Cruzadas" e estou louca pra o assistir! :D

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  7. É triste saber que, para algumas babás/empregadas, não existe vida além da casa dos patrões :/

    E eu quero muito assistir The Help!

    Beijo

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