segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

as invasões bárbaras


Quando Berlusconi era primeiro-ministro italiano (tipo mês passado), fui ao consulado da Itália fazer meu passaporte da dupla cidadania. Depois de dez anos num trâmite para me tornar cidadã italiana, minha família conseguiu tal direito. Nunca entendi o porquê de estarmos nisso, embora a galera sempre puxasse assunto sobre isso com muito entusiasmo. Entrei nessa como aqueles que entram na fila sem saber o que tem no começo dela.

O consulado é um pedaço do país dentro da cidade; soa como um Vaticano. Passei pela revista, provei que estava desarmada, desliguei o celular como mandavam as orientações. No fundo da sala, uma máquina de café que comia moedas e não entregava o produto. Muitas cadeiras e muitas pessoas sentadas nelas. Nos guichês de atendimento, vidros à prova de bala e o número indicando com as cores da bandeira italiana (achei kitsch no meio de toda a idéia de seriedade do processo).

Eu e minha mãe, apesar de termos marcado horário pelo site, chegamos bem cedo. Ela levou consigo um romance policial sobre máfia siciliana que dei de aniversário; literatura temática para os momentos certos. O tempo livre que tive me fez adiantar leitura da faculdade e ainda serviu para eu repensar um milhão de vezes o que estava fazendo ali. Encolhida numa das cadeiras, prestava atenção nos comentários classemédiasofre, pensando que babaquice é minha dupla cidadania. Sei assobiar "O sole mio", reger o hino italiano como fazia o Schummacher nos áureos tempos na Ferrari e como pizza por volta de três vezes por mês. Fora isso, nada mais me aproxima da Itália. Eu acho que o que move as pessoas que tiveram tataravós italianos (e só) a ir atrás duma dupla cidadania é um atípico caso de síndrome de vira-lata. Atípico porque, uma vez obtida a condição de cidadão europeu, a pessoa assume uma pose empertigada, como se aquilo realmente significasse uma ascensão social. Pra mim, a única vantagem desse documento é o de furar a fila no desembarque do avião, pegando os guichês para europeus e não os dos outros mortais idos do resto do mundo, o que, na real, nem conta como vantagem nos meus padrões.

Pensava em como é maluco pegar cidadania italiana pelo fato da minha tataravó (se não for tetravó) ter vindo duma cidade hoje italiana. Naquela época, Trento pertencia ao Império Habsburgo. Altas chances da minha antecedente estar inconformada por sermos considerados italianos ao invés de austro-húngaros. Sabe, na época dela a Itália nem existia.
O alto-falante chama:
- Ítalo, guichê três.
Engraçada a redundância. Um moço chamado Ítalo requerendo sua cidadania italiana. É como se chamar Lusa ou Franca e pedir para se tornar portuguesa ou francesa. Dali a pouco, ouço meu nome.
- Bárbara, guichê cinco.
No guichê, a mulher me indica os procedimentos. Preciso pagar (uma taxa medonha: pela metade do tempo de duração do passaporte brasileiro, paga-se dez vezes mais pelo passaporte italiano) e levar fotos 3x4. Agradeço, digo que volto em breve. Saio do lugar assumindo a fatalidade do meu nome, assim como rira por Ítalo. Assumi a interpretação de que as invasões bárbaras derrubaram o Império Romano e nunca mais voltei.

5 comentários:

  1. vc escreve tão bonito, mas tão bonito :)

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  2. ahahahahahahaahah, MUITO BOM!!!!

    Precisamos desse tipo de Invasão (da) Bárbara...

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  3. adorei seu blog: a escrita, as imagens, os pensamentos... :D

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  4. " a pessoa assume uma pose empertigada, como se aquilo realmente significasse uma ascensão social"

    Como nos casos do colégio, onde os coleguinhas gostam de ter e mostrar o sobrenome italiano. Uns acham minha observação boba, mas eu não.
    E, assim como já disseram aqui, você escreve bonito. Passa uma certa seriedade, mas é bonito!

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  5. qual é sua camera e qual o programa que você edita suas fotos ? ...
    Conheci à uns 3 dias atrás ,ja li um bom tanto ! :D Muito bem escrito, PARABÉNS.

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