sexta-feira, 15 de julho de 2011

quanto por essa coleção?

No dia 14, fui à abertura da exposição Coleção de fotografia contemporânea da Telefônica no Instituto Tomie Ohtake. Trata-se de um recorte da coleção composta pela empresa espanhola, dividida em três salas: Corpo e Identidade, Arquitetura e Natureza e Simulacro.

Ainda que organizada assim, senti que faltava organicidade ao percurso. Não está claro o porquê de aquelas fotos terem sido adquiridas. A curadora nos conduziu, tentando explicar a racionalização daquele caminho. O problema é que na formação de coleções há duas partes: a racional e a irracional. Quando uma pessoa começa uma coleção de arte, cria uma racionalidade daquela acumulação de objetos. Mas a acumulação, em si, não é facilmente explicada. Por que pessoas participam de leilões de quadros? Ou por que há quem financie roubos a museus? O colecionismo move muito dinheiro por razões inexplicáveis. Mas não impede que no decorrer da formação dessa acumulação de obras-de-arte seu proprietário se empenhe em dar um sentido à sua posse.

A questão é que não estamos falando de uma pessoa física que é louca por fotografias contemporâneas e as consegue para pendurar na parede de casa. Falamos de uma empresa, que coleciona fotografias de muitos artistas, como Vik Muniz e Thomas Struth. Estamos no pluralismo da arte pós-moderna e esse é o panorama mostrado na exposição. Cada artista tem sua forma de expressão e seu conteúdo próprio. Em meio a tantas possibilidades exploradas por cada um deles, em seus contextos culturais, em suas escolhas técnicas, fiquei com uma sensação de vazio no todo. Gostei de particularidades, senti falta de uma coesão mais ampla.

Fiquei mesmo é com a sensação de que aqueles objetos só estavam ali por seu valor de mercado. Seu valor de obra de arte não foi preponderante para a aquisição, me parece. A escolha pelos ditos grandes nomes da fotografia contemporânea me parecia muito menos estética ou discursiva e muito mais por serem-quem-são. Essa parece ser a racionalidade de uma coleção de arte de uma empresa privada. Outra coisa bastante racional é que uma empresa monte uma exposição e gaste dinheiro produzindo material educativo. Será beneficiada no mínimo em duas frentes: com leis de incentivo, que garantem isenções de impostos, e com uma publicidade favorável, num mundo em que as boas ações corporativas são também valor agregado às marcas.

Então, a primeira obra da última sala que visitamos (Simulacro), praticamente sintetiza meu pensamento e ratifica o uso das fotografias na exposição. Combien pour ce chapeau?, de Louise Lawler, mostra os mesmos objetos em contextos diferentes e cria uma valorização deles de acordo com as informações que se têm a respeito deles.


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Combien pour ce chapeau? [Quanto por esse chapéu?]


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AN OLD HAT [UM CHAPÉU VELHO]


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Musée Jules Verne, Nantes, 1987 [Museu Julio Verne, Nantes, 1987]

5 comentários:

  1. Uau, falou "tudo". Ao menos uma situação dessas possibilita essa reflexão tão pertinente, mas a questão levantada e que paira no ar é exatamente o "porquê" de uns e não de outros.

    Os pensamento não estão, de modo algum, bem organizados na minha mente, mas é o próprio rumo da história né? [e aí você pode falar mais e melhor do que eu]. Os "vencedores" constituirão o que esta fotografia pós-moderna, contemporânea ou seja lá o rótulo que levar, mesmo que as escolhas que levem estes artistas até lá não sejam, necessariamente, estéticas e/ou discursivas.

    Enfim, :)

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  2. Engraçado que isso não se resume a exposições de fotografias... Quase tudo tem por trás a mãozinha do patrocínio ou de nomes grandes...
    É... realmente você falou tudo:)

    beijos
    ótima semana!

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  3. Eu sempre me perguntei isso. Pra quê, meu Deus, essa pessoa mantém uma coleção dessas? Muitas vezes, as pessoas sequer entendem o significado da arte, estão preocupadas mesmo com o valor. No fim, acho que o que elas querem expor é o próprio ego e não as obras de artes.

    PS: Amei o seu comentário no meu último post! Eu nem sei como agradecer, porque me senti muito confortada e contente com as palavras que você deixou pra mim!

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  4. Essa coisa de "valor de mercado" chega a ser cruel, né? Especialmente para os jovens artistas, que podem ter trabalhos belíssimos, mas ainda vivem na obscuridade. Muito interessante esse trabalho da Louise Lawler sobre a contextualização de um objeto (ou obra, ou pessoa...) mediante as informações que temos sobre ele. Faz pensar...


    Camila Faria

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  5. sempre achei estranho mercado de arte. valor de obra de arte. quem define esse valor? porque ele tem esse valor? recentemente vi uma notícia da fotografia mais cara do mundo. era um auto-retrato da cindy sherman deitada no chão. só isso, sem nada de especial. e a cindy sherman ainda está viva e atuante. no fim da matéria o dono do leilão dizia que a graça de comprar obras de arte em um leilão era ganhar, simplesmente. poder pagar o máximo possível numa fotinho, mesmo que fosse uma fotinho da cindy sherman ou do vik muniz ou do banksy ou de quem fosse. fiquei com nojinho. mercado de arte dá nojinho. dar valor monetário às coisas realmente esvazia todo o sentido deles.

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