sexta-feira, 3 de junho de 2011

genial mesmo


Ano passado tive a oportunidade de ver pessoalmente o Angeli numa palestra. O mediador começou perguntando se ele se achava genial, como dissera o Millor Fernandes, fazendo um anagrama com seu nome. Angeli respondeu que não, que genial mesmo é o Laerte. Na mesma programação da Biblioteca de São Paulo, pude ver Lourenço Mutarelli, Paulo Caruso e Ziraldo falando de seus trabalhos. O Laerte foi um dos primeiros, quando eu não sabia que podia encontrar grandes cartunistas nas tardes de sábado. Consegui vê-lo na platéia quando o Ziraldo foi lá, mas não tive coragem de falar com ele (falta de um assunto objetivo nessa hora é sempre o maior problema).


Pois bem. Ontem o Laerte estava na minha faculdade e pude vê-lo falar sobre sua vida, seu trabalho. Dividindo a mesa com o editor André Conti e com a professora Lilia Schwarcz, o cartunista vestia uma camisa xadrez azul sobre uma camiseta cor-de-rosa, uma saia preta, meias-calças e um belo par de sapatos pretos de salto alto. Falou de sua época de militância no Partido Comunista Brasileiro, de suas referências para as tiras diárias que faz para a Folha de São Paulo, de suas técnicas de trabalho na hora de desenhar, da sua relação com o crossdressing, do que é humor (e que ele nunca pode estar acima da crítica, como mercadoria) e de sua relação com a internet.


Numa conversa que tive à tarde com dois queridos, discutíamos sobre a velha esquerda revolucionária. Sobre o totalitarismo stalinista que atinge as falas e os pensamentos daqueles que congelaram nos modos de produção marxistas e que não colocam em pauta discussões de gênero, de opção sexual ou de outras liberdades individuais e coletivas. Quando uma pessoa desqualifica qualquer uma dessas discussões para falar que a única coisa importante é acabar com a fome no mundo, não entende que há gays, mulheres, comunidades autóctones que passam fome e têm outras necessidades que estão além da comida. Há também pessoas nessas e em outras condições de exploração que fazem três refeições diárias. Parar a discussão em "fazer a revolução social é a única alternativa" é utópico - e, penso, insuficiente.


Quando Laerte fez a conexão entre sua antiga militância no Partidão e o fato de ter cruzado a fronteira de gênero há pouco tempo, disse que foi assim que ele fez sua revolução. Não carrega isso como bandeira política que o aprisione, mas como forma de discutir o que é feminilidade e masculinidade no nosso mundo. Porque escolher ser ou simplesmente ser obrigado a ser qualquer um desses papéis é estar sujeito a um pacote de valores, regras, estéticas. É ter seu corpo delegado a um controle social. E isso é um troço totalitário, é privar meninas de jogar futebol (me privaria de ter arrebentado o pé dois meses atrás - ainda assim, prefiro um calcanhar inchado a nunca ter podido fazer um gol de cobertura), meninos de brincar de boneca, é dizer que cor-de-rosa é pra uns e azul é pra outros. Começa assim e vai até a diferença de salário, as jornadas múltiplas, a privação de alguns prazeres. E prática política boa está além (e muitas vezes fora) de partidos. Está no cotidiano, sendo construída o tempo todo. De preferência implodindo modelos feios e anacrônicos.



É, Angeli, "genial mesmo é o Laerte".

(blog com as tiras diárias do Laerte: Manual do Minotauro)

13 comentários:

  1. Revolução é todo dia. =)

    (e Laerte também. Que bom!)

    ResponderExcluir
  2. Eu sempre admirei o Laerte cartunista, aí, depois que descobri mais sobre o Laerte pessoa, comecei a ver que a beleza desse sujeito podia ser ainda maior. É uma beleza tão contestadora e, ao mesmo tempo tão simples, que eu acho que seria tão bom e tão edificante pro mundo se tivéssemos mais Laertes espalhados por aí.
    Fiquei com invejinha de você pela oportunidade da palestra (ainda mais com a dupla incrível que tava com ele).
    Quem sabe um dia ainda conheço o Laerte...
    :)

    ResponderExcluir
  3. foda teu blog. seguindo muito, gostei.

    ResponderExcluir
  4. Queria conhecer o Angeli,gosto do trabalho dele, tirinhas são meu vicio.

    ResponderExcluir
  5. Eu conheço o Adão pessoalmente. E pra falar a verdade, não conheço muito do ET Real e do Angeli...

    Acho que esses cartunistas são divertidos, mas me intimidam um pouco. Como lidar?

    Beijo.

    ResponderExcluir
  6. Eu, que acabei de ver de pertinho o que a Revolução Comunista fez (de melhor e de pior) para tanta gente, fico imaginando como teria lidado com isso caso tivesse vivido intensamente esses dias. Pesado.

    Definitivamente voltei da Rússia uma outra pessoa.

    E viva a liberdade individual!


    Camila F.

    ResponderExcluir
  7. Acho todos geniais, a seu modo, claro.
    Mas tenho uma admiração enorme pelo Laerte! (tipo favoritismo mesmo hehe)

    Beijoo

    ResponderExcluir
  8. Laerte é macho pacas

    ResponderExcluir
  9. a clareza de idéias dos seus textos,
    bem como a riqueza de conteúdo
    e as questões que são colocadas de maneira aberta, e sem medo
    são tônicas que me encantam no seu "discurso literário".
    Babi, quando eu crescer
    (ou melhor, quando eu reencarnar)
    quero ser igual a vc...

    ResponderExcluir
  10. Laerte é meu amigo. Isso é muito mais legal do que dizer o que faço ou o que tenho. Tão melhor ainda é ver a mente dele sendo descoberta e admirada ainda em vida!

    ResponderExcluir
  11. Que inveja docê!
    De fato, Laerte é genial - cada vez mais eu entendo o que o Angeli quis dizer. Mas não gosto menos dele (Angeli), devo dizer.
    Engraçado lembrar nossa cofrada. Seguimos ele até a saída. =P

    Esse debate de gênero tá em alta na minha vida, principalmente lá na FE, que anda borbulhando.
    Maravilha isso de cruzar fronteiras.

    Laerte é foda.

    ResponderExcluir
  12. Deve ter sido super interessante ver o Laerte falando sobre alguns destes assuntos mais polêmicos e como eles o influenciam. Realmente, ele é o máximo.

    Bárbara, fiz um post hoje c/ inspirações sobre o amor e em um dos itens, coloquei algumas fotos de sua autoria, de quando vc viajou para a Argentina. Coloquei o crédito, porém se vc preferir, posso tirar o item do post. (:

    beijos

    ResponderExcluir
  13. The accomplishеd performance was the result of preparation, harԁ wοrk, a
    manаger oρerаting in a рuгely theoretіcal framewoгκ, we must
    understanԁ the fοundаtions.
    Use the ԁesсription section tο fuгther dеtail
    thе goods anԁ sеrvicеѕ meet
    those neеԁs, solve those problеms, oг
    take adѵantage of what you have to amаѕѕ а library of
    teсhnіques ωhіch аrе successful.

    It createѕ а sense of bеlonging and
    vаlіԁatіon οf opinions аnd ideaѕ.

    You can busіness do this by using a qualifiеd ІT professional.


    Tаκe a look at mу webpage ... http://wiki.dbjr.de/index.php?title=Benutzer:TeddyWort

    ResponderExcluir