sábado, 9 de abril de 2011

on fire

não;

Perguntar o que faz você feliz é me apropriar de um comercial de supermercado e ter minha imaginação permeada daquelas imagens. Ao invés de me perguntar aquilo, preferi questionar-me sobre o que seria encontrar o Nirvana. Não a banda do Kurt (quem curte?), mas o estado transcendental de espírito. Tenho milhões de conflitos com todo e qualquer tipo de espiritualismo, mas estar presa à matéria o tempo todo é simplesmente insuportável. Não sei se vocês se lembram (ou já viram) a cena em que o senhor cego de O fabuloso destino de Amélie Poulain fica tão feliz que é representado em chamas, mas acho que é uma metáfora que eu levo pra vida.

Estou rodeada de pessoas que quero bem e que dizem me querer assim também. E por mais que a sabedoria do samba me diga que tristeza não tem fim, felicidade sim, estou aqui, com os primeiros passos de um novo projeto fotográfico que deram muito mais certo do que eu jamais imaginaria (a começar que não queimei nenhuma pose do filme, pela primeira vez). A faculdade me enlouquece mas gosto muito de estar enlouquecendo por esse motivo, com a carga de boas leituras que tenho feito (essa semana menos, porque adoeci e minha produtividade foi nula, ops). E estou fazendo um estágio obrigatório em que eu discuto pelo menos duas horas por semana a arte e a pedagogia, que são duas coisas que me encantam.

Essa semana, então, fui duas vezes à Pinacoteca e pude ver as duas exposições maravilhosas que estão no primeiro andar: a do Rodchenko e a da Paula Rêgo. As artes, sobretudo as visuais, me fazem entrar em autocombustão de felicidade. Quando entrei no Malba, o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, me senti assim. Plena. A vontade que me dava era a de entrar nos quadros das vanguardas do século XX e dar um abraço em seus pintores e chorar de alegria, tudo ao mesmo tempo. Essa semana, o encontro com o fotógrafo soviético e com a pintora portuguesa me levaram para o mesmo caminho.


Eu não acredito que um quadro é só um quadro ou uma foto é só uma foto. Não, numa exposição há inúmeros outros elementos juntos e ver as fotografias de Rodchenko é ver também a construção de um olhar, que hoje nós talvez reproduzimos automaticamente apertando nossas câmeras digitais sem muito controle. Pra galera do design é interessante porque não só se constrói um olhar ou as composições em diagonal, mas também se inaugura uma estética - que também acho que é bastante reproduzida até hoje, a do construtivismo soviético.




A Paula Rêgo é uma artista que eu fui conhecer quando a Pinacoteca me avisou da exposição pelo mailing. A orientadora do meu estágio havia nos guiado, quarta-feira, apenas pela exposição do Rodchenko e pediu-nos que déssemos ao menos uma passada na da Paula. Senti-me culpada por ter abandonado a sala com tanta pressa, porque precisava correr pra minha aula e voltei lá hoje acompanhada do Caio. É incrível como o trabalho dela é visceral e tem uma técnica fantástica. Há momentos em que a ironia da sua mensagem é tão forte que é impossível não rir com os personagens que ela pinta. Em outros, a ironia fica tão séria que o difícil é não se consternar e sofrer um pouco com aquele pastel sobre papel ou acrílico sobre tela.




Agora, se você preferir algo transcendental com a letra da banda do Kurt, aconselho Emilie Simon, cantando Come as you are.

5 comentários:

  1. Sabe o que eu acho? Que a felicidade vem em grandes ou pequenas doses, de acordo com o dia, a disposição, a vida, o universo e tudo mais. Acho ainda que sinto uma felicidade, uma ansiedade do novo, do descobrimento, quando leio você falando sobre arte. Admiro muito, tanto a área quanto suas palavras, e sinto que elas me fazem querer também viajar e amar mais esse universo.
    E Emilie Simon cantando Nirvana é <3

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  2. Pero la potencia del poeta
    no reside solamente
    en que gracias a él
    le recuerden y se sobresalten
    No.
    Hoy la rima es también
    lema
    bayoneta y látigo.

    (Vladimir Maïakovski. "Conversación con el inspector fiscal sobre la poesía")

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  3. Sinto por morar tão longe dos grandes centro e quase nunca poder ir nesses lugares...

    Achei adorável o início do post! As vezes estamos sendo felizes e nem nos damos conta disso, só quando passa, é importante viver o momento né? A última vez que vi Amélie chorei nessa cena, acho que foi um pouco culpa dos hormônios, hehe, mas aquela felicidade toda me comoveu.

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  4. Engraçado, eu li o post todo pensando "Caramba. É verdade. Me sinto assim quando vejo artes que me deslumbram também." e o comentário sobre a versão de Come as you are me fez pensar que também sinto isso com relação a algumas músicas.
    Agora o mais louco é pensar que isso que fascina a gente é puro tédio pra outras pessoas. D:

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  5. Nirvana é a última banda que me fêz sair do chão...espero outras mas sei que o cíclico do rock tem as suas próprias regras...

    O Nirvana búdico se alcança através: da plena atenção; do momento presente (único caminho para a felicidade plena, e pela compaixão por todos os seres.
    É naturalemnte possível e simples, mas não é fácil.

    Essa sensação de se transpor para as obras eu tive ao ler um livro da coleção mundo da criança, o livro 11 que mesclava artes plásticas e música...hoje sei que eram picasso, klee, miró, gaudi, goya, lichtestein entre outros...mas meus olhos de criança só viam cores e sonhos...sonhar é bom

    "ser artista no nosso convívio" ...melhor ainda


    Babi como vc escreve bem Deus do céu
    é um prazer te ler...não pare

    bjos

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