terça-feira, 1 de março de 2011

O retrato do Cisne Negro


Ontem fui ao cinema ver Cisne negro. Como acho que a maioria das pessoas que lerão o texto já viu o filme, não terei pudor em escrever sobre o enredo.

Saí do cinema com a impressão de que a história já me era conhecida. Além de eu ter ganhado na infância duas caixinhas de música que tocavam "O lago dos cisnes", havia algo na transformação da personagem da Natalie Portman que me parecia mais familiar do que a melodia do balé.
Antes de dormir, lembrei-me de O retrato de Dorian Gray, escrito por Oscar Wilde no final do século XIX. Tanto Nina quanto Dorian passam por transformações ao longo da narrativa, e ambos se tornam seres muito diferentes com relação à própria moral. Para quem não conhece a história do livro, Dorian Gray é um jovem que não envelhece, depois de ter seu retrato pintado com tamanha fidelidade. Quem envelhece, então, é o Dorian do quadro. Conforme o tempo passa, os vícios (aqui como antônimo de virtudes) do jovem Dorian vão sendo marcados na face do retrato, que envelhece com feições malignas. A versão real dele, no entanto, continua com o rosto puro.

Se os dois personagens se transformam, há diferenças cruciais no porquê dessas mudanças. Dorian se torna outro por seu hedonismo, sua busca por prazeres e sua imoralidade (quando descobre ser eternamente jovem, entrega-se ao ópio, ao sexo, e inclusive comete um assassinato por motivo torpe). Nina precisa mudar. Precisa para entender o que esperavam dela no palco, para se entregar a um papel que desejava. Muda talvez menos por si própria, por seu desejo, do que pelas pressões externas da mãe, da companhia de balé, do professor.

Se o desenrolar da história não é exatamente igual, o final dos dois é um ponto que os une. Depois fiquei pensando que há outro personagem (nesse caso, dois personagens no corpo de um) que poderia fazer parte do clube de Black Swan e Dorian Gray: Dr. Jekill & Mr. Hyde (de O médico e o monstro). Em todos os casos, a parte imoral, luxuriosa ou criminosa é a que domina o lado bom do ser e o controla, e o destrói.


mr. hyde and dr. jekyll

8 comentários:

  1. O retrato de Dorian Gray foi a primeira obra que li de Wilde; quanto ao filme, tema do seu post, está na minha lista pra ser assistido.
    Menina, como vc escreve bem!
    Parabéns!
    Bjoca!
    =]

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  2. Eu só consegui pensar em uma coisa "nossa, a Babi já teve um cabelão...que bom que ela cortou!"
    huahuahuahua

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  3. É uma comparação deveras tonta, mas acho incrível quando personagens sofrem transformações assim pois penso um pouco em mim mesma e nas várias pessoas que mudaram tanto - talvez e, quase nunca, de maneira tão drástica quanto esses personagens - algo em sua personalidade, em seus ideais, em seus sonhos de vida. Essas transformações podem ser boas ou não, mas são marcadas por um processo quase sempre tão intenso que acho que um filme que fale de algo assim deve ser tão intenso quanto. E é dessa forma que vejo Black Swan, com uma intensidade profunda.

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  4. verdade, muito diferente você com o cabelo comprido! (gosto mais de como tá agora!)

    Por mais que falem, bem e mal do filme, Black Swan me deixou: tensa, angustiada e emocionada. gosto quando é assim...

    beijos, babi!

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  5. Esperei assistir o filme pra poder vir comentar, hehe. Mas no fim ainda não tenho uma opinião formada, como sempre, esse tipo de filme demora pra ser digerido e sempre gosto de ler opiniões, descobrir um lado que eu talvez não tenha visto.

    Uma menina que era dominada pela mãe, fragilizada pelo estresse e diga-se de passagem pela falta de comida só podia pirar mesmo, tudo bem que a piração dela foi para se descobrir, mas como sempre não acho extremistas uma boa coisa. Consigo me identificar com a pressão pela perfeição, a busca de algo impossível (ou quase), onde a gente nunca está satisfeito com resultado algum. De maneira geral gostei do filme, mas acho que o auê do twitter prejudicou um pouco as minhas expectativas.

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  6. não tinha, de fato, pensado em alguma semelhança entre dorian e nina.


    e, mesmo agora eu ainda não sei se consigo enxergar algo que os aproxime muito.

    mas entre o professor de nina (v. cassel, por sinal, pode me ligar, seu lindo. larga essa feia da belluci, vem ni mim!) e henry , com certeza.

    ambos como professores de desejo, para usar o título - mas não só, claro - do livro de philip roth.

    acho que não teria chegado a essa relação sem seu post. obrigada! talvez eu faça eu post sobre isso. :D

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  7. Adorei o post...
    Me fez pensar no quanto as mudanças podem chocar (não só visualmente). O filme me deixou paralisada, sei que toda vez que escutar “lago dos cisnes” vou sentir um frio na espinha.

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