quarta-feira, 30 de março de 2011

é tudo verossímil

Não é possível desconfiar da realidade o tempo todo. Ou talvez seja, mas não sem conseqüências trágicas. É complicado viver pensando que tudo pode ser um sonho o tempo todo ou que estamos em matrix. Há uma verdade cotidiana, em que, muitas vezes, acreditamos por falta de possibilidade de parar e fazer a crítica.

A verdade está sempre sob desconfiança. Há quem desconfie de que não há verdade, ou que não há apenas uma. Há quem pense que a existência de várias verdades é uma maravilha, há quem ache pavoroso, uma falta de ética. A verdade é discutida em várias frentes. Em Descartes, na Ivi.

Esse post começou a nascer (a fórceps) no ano passado, quando a questão da verdade me veio por dois filmes: Viajo porque preciso, volto porque te amo e Terra deu, terra come. A estrutura fílmica, os assuntos, as técnicas nos deixam em um impasse porque ficção e documentário se confundem. E a questão fundamental do documentário como gênero cinematográfico talvez fosse a expressão da realidade, de uma verdade que o cinema traz à tona na exibição.




Eu só tive como comprovar que o primeiro filme era mesmo ficção porque o Caio havia tido uma aula com o diretor uma semana antes. As cenas, porém, foram gravadas com o intuito de ser um documentário. A locução e uma história de amor vão nos enveredando na vida do protagonista, geólogo, personagem ficcional. No entanto, e os outros? As imagens dos outros foram coletadas em lugares reais, pessoas reais, falando das suas vidas. Os outros eram o documental. Mas em outra montagem, com outro propósito, tornam-se também personagens de ficção, da tal história de amor.


O Terra deu, terra come ganhou o festival "É tudo verdade" de 2010. O curioso é que até hoje é complicado para mim saber qual é a parte do filme em que a verdade está manifesta. Acho feio contar o final do filme, porque ele é mesmo muito bom. Se passa em uma comunidade remanescente de quilombo em Minas Gerais e, mais do que questionar o gênero documentário, há o interesse do diretor em mostrar a tradição dos cantos vissungos. Um texto muito bom sobre o assunto é este: Visão dos Vissungos.

Talvez não seja tudo verdade, como o nome do festival sugere. Mas que existe verossimilhança e assimilação como partes de uma verdade, não tenho dúvidas. Porque estudar história às vezes é isso, é não saber se existe ou não a verdade e se é possível que ela esteja expressa, impressa num documento, mas estar impossibilitado de desconfiar de tudo o tempo todo.

4 comentários:

  1. A variável é o impressionante. O duvidar é o impressionante. E, no caso dos dois filmes, a construção, também, é impressionante.

    Ótimas referências :)

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  2. esse primeiro filme eu logo quis ver pelo nome, mas acabei nem vendo e o segundo eu quero muito ver :D

    que bom gosto vc tem :)
    bjooz.

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  3. Fiquei com vontade de assistir os dois. :)

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  4. "Viajo porque preciso, volto porque te amo" é lindíssimo! Fui em uma palestra com o diretor e ele disse que o filme foi montado à partir de várias filmagens que ele fez durante viagens.

    beijos

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