terça-feira, 18 de janeiro de 2011

So, let's eat the cake

Se você for uma princesinha 24 horas por dia, 7 dias por semana, saiba que a primeira parte desse post é dedicado a criticar o filme Maria Antonieta de Sofia Coppola. Acho justo avisar, antes que comecem a tacar brioches (cupcakes ou macarons) em mim e a coisa comece a ficar feia.

Maria Antonieta é um dos dois filmes a que assisti no sábado. O outro é Na natureza selvagem sobre o qual falo a seguir. O filme de Sofia Coppola é gostoso de ver, tem um conceito muito bem trabalhado, na arte, na fotografia, nos detalhes e até nos planos mais gerais. O problema aqui é que sou estudante de História, o que me torna uma pessoa chata, crítica e especialmente ressabiada quando o assunto é representação de uma realidade histórica. No extras, a diretora diz que não quis fazer um épico (no sentido de reconstrução histórica), mas que pretendia trazer a rainha francesa pros dias de hoje.

Não me incomoda que a história seja alterada para se adequar aos nossos padrões contemporâneos. Não vejo problema nenhum em achar um All-star no meio dos sapatos da realeza do século XVIII. Acho que Sofia Coppola e qualquer outro diretor de cinema tem que ser livre para dar seu toque autoral a qualquer narrativa e por isso o filme é gostoso de se ver. Estamos dentro de um universo de meninas luxuosas que se divertem de várias maneiras. Maria Antonieta é jovem e tem seu destino selado por um casamento arranjado com Luís XVI. Sofre pressão de tudo quanto é lado e se torna a última rainha da França, quando a Revolução Francesa se radicaliza. É aqui que o filme peca. Ao trazer a visão da rainha, torna o povo uma massa homogênea, brutal e violenta. Quem aparece lendo Rousseau no palacete de Petit Trianon é a rainha e suas amigas. Olhando assim, ninguém imaginaria que havia uma intelectualidade envolvida no processo revolucionário e influenciada inclusive pelo iluminista Rousseau.

A imagem final que aparece para mim da rainha é que ela foi apenas vítima. No entanto, tive um professor que diz, baseado em suas leituras, que provavelmente a monarquia na França não cairia, se o rei e a rainha não fossem pegos fugindo em uma noite para a Áustria, onde tentariam angariar apoio para reestabelecer sua força. A Revolução Francesa não era republicana desde o início e talvez se o casal real tivesse cumprido o combinado de não fugir hoje seria mais uma Monarquia Parlamentarista (como no Reino Unido).

Marie Antoinette estava fadada a uma só visão de mundo, do palácio, admirando a beleza dos jardins franceses com suas moitas delicamente esculpidas. Ainda que no filme é dito que a rainha nunca falou ao povo sem pão que comesse brioche, é bom que se saiba que havia pessoas sem comida. O filme então é bonitinho. Fica por isso mesmo.



Sobre Na natureza selvagem, dirigido por Sean Penn, não consigo falar muito, porque eu mesma quis entrar no filme, em toda sua wilderness! Rola toda uma discussão paralela sobre a importância do ser-wild nos Estados Unidos, na expansão para oeste, e depois em algumas guerras de conquista, mas o filme, ainda que se desenrole em boa parte na costa oeste e depois no Alasca, não é exatamente sobre isso. É sobre uma wilderness (rola toda uma dificuldade de traduzir esse termo certim, também) interior. Uma busca, um conhecimento que está além de você e muitas vezes se traduz na força da natureza. Tem um lance transcendental e a importância da experiência, de se conhecer lugares novos, pessoas novas e uma crença na bondade e na felicidade. Happiness is only real when shared. FATÃO.

No fundo, tudo isso é só um jeito de eu dizer que estou mais próxima de Alexander Supertramp do que de qualquer Maria Antonieta do mundo.

10 comentários:

  1. Eu devo dizer que adoro muito os dois filmes - apesar do meu favorito ser o Na natureza selvagem.
    Acho que no fundo, os dois filmes tem muito em comum. O filme da Sofia, na minha opinião, retrata a juventude como poucos filmes fazem: de repente a gente é jogado num mundo de gente grande quando a gente não quer e não entende direito como as coisas funcionam - e isso é uma fase na vida doída e solitária. Invariavelmente, ainda me pego questionando essas coisas. Aaaah, e tem a trilha bacanuda também né? =)
    E nem falo nada sobre o do Sean Penn - e esse lance de buscas doídas e solitárias tá lá também, só que tão intenso né? Talvez seja um filme de geração. Com uma trilha super bacanuda.

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  2. Olha,não tem como discordar, mesmo discordando haha.

    Quando assisti ao filme a primeira vez, achei que eles tinham vitimizado demais Marie Antoinette.
    Mas gostei,porque me prendi muito mais à estética/roteiro desprendido da visão história real.Até porque tenho dificuldade em acreditar na maioria desses filmes. Prefiro ler um livro de história para saber, sabe?

    Enfim, aí comecei a ler o livro que inspirou o filme, a tal biografia da Marie. E a visão é meio que assim também "Antoinette foi uma vítima". Ainda não acabei de lê-lo para ter maiores opiniões, mas o que quero dizer é que concordo (porque eles deixaram a coisa histórica meio nhé) e discordo de você (porque to sendo convencida pelo livro que a Sofia não fez por mal hahahaha).
    Pode ser assim?

    Bisous, mon lapine :)

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  3. Adoro Maria Antonieta e concordo com toda a sua crítica ao filme. Contudo, discordo da sua crítia ao Na Natureza Selvagem.

    Na verdade, o filme (baseado no livro fenomenal de mesmo nome!) fala sobre a vida de um rapaz que era contra o mundo. Não por simples rebeldia, mas sim porque ele nunca encontrou um significado sequer na vida. Por que nasceu? Ele não pediu para isso! O Chris nunca viu sentido nas relações interpessoais, no conhecimento erudito, nos bens materias... Apesar de ter sido um gênio, não quis usar a inteligência para enriquecer ou corromper pessoas. Ele achava isso tudo sujo demais e foi por isso, que resolveu se isolar no Alasca. Ele não estava atrás de simples novas experiências, ele queria se isolar porque se sentia mal entre as pessoas. Para ele, a sociedade norte americana era vazia e sem propósito.

    É bem o que Eddie Vedder escreveu em uma das músicas para o filme (a trilha é toda dele e é fantástica!):

    "society, you're a crazy breed
    i hope youre not lonely without me...when you want more than you have you think you need and when you think more than you want your thoughts begin to bleed i think i need to find a bigger place because when you have more than you think
    You need more space"

    Ele pensava demais, muito mais do que a maioria... Ele pensava o que todo deveríamos pensar. E quando a gente pensa demais e pensa diferente do que é aceito, é difícil conviver em sociedade.

    Procure o livro, vale a leitura :)

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  4. Olá Babi, um dos primeiros textos do blog foi justamente sobre o Maria Antonieta. Era um texto curto e meio tosco, mas que falava brevemente da falta de rigor histórico no filme de Coppola. Antes de tudo, preciso dizer que ela é uma das minhas diretoras favoritas do cinema contemporâneo. Poucos conseguem tratar de relacionamentos humanos com a delicadeza que ela o faz. E foi isso que gostei no Maria Antonieta. A rainha é só um motivo para falar de solidão, não creio que o filme pretenda tratar nem da Revolução, nem do povo, mas do drama de uma jovem deslocada no tempo e no lugar. E isso resulta numa história muito bonita. Há vários filmes que fizeram a mesma coisa, partiram de um tema ligado a Revolução Francesa para falar de outras coisas. Só pra lembrar três muito bons: Marselhesa de Jean Renoir, Casanova e a Revolução do Scola e A Inglesa e o Duque do Rohmer. Cada um deles inventou uma revolução própria, com seus personagens, seus acontecimentos, seus momentos intensos. É a mesma coisa que a Coppola fez. E a mesma coisa que os historiadores sempre fazem. Só que os historiadores são os únicos que fazem essas invenções e acham que estão falando a verdade sobre a Revolução. Talvez por isso prefira mil vezes o filme dela do que qualquer livro de um Furet, de um Soboul, Hobsbawm ou Darton.

    Aproveito para te pedir um favorzinho. Não sei se você viu, mas mudei meu blog de endereçõ. Agora o Ensaios Ababelados está em www.ensaiosababelados.com.br Será que você poderia trocar o link do seu blog que está direcionado para o endereço antigo?

    Um abraço

    Leandro

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  5. Gosto dos dois filmes e acho que a crítica, em sua grande maioria, não conseguiu perceber o que Sophia Coppola quis dizer quando atualizou a história de Maria Antonieta. Evidente que "Encontros e Desencontros" é um filme muito superior, mas o que não precisa necessariamente significar que Maria Antonieta seja uma droga...

    Na Natureza Selvagem é muito bonito, e Sean Penn é sempre muito competente, mas não senti essa vontade de entrar no filme que você falou. Acho que prefiro admirá-lo de fora, talvez numa wilderness mais particular e urbana.

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  6. Me lembro do dia que assisti Maria Antonieta. Estava super empolgada pra ver...achei que era meu tipo de filme. Quando terminou eu estava completamente "revoltada". Acho que é um mal de que tem ciência humanas demais na cabeça.Meu pai é professor de história e eu estudante de museologia. sempre que eu pensava na revolução também não conseguia entender a rainha como essa vítima que o filme quis passar. O que me deixou revoltada mesmo foi o fato de todas as menininha amarem o filme e idolatrarem Maria Antonieta. Eu pensava "que absurdo! vcs não entendem? ela mandou dá brioche para o povo com fome!!". Tempos depois acabei vendo o filme de novo. Eu já estava mais calma (hahah) e acabei gostando. é um filme bonito de se ver (visualmente falando) no ano passado comecei a ler uma biografia de Maria Antonieta (e nem terminei de ler ainda, na verdade). Achei o livro tão legal de ler que minhas opiniões acabaram se tornando menos radicais em relação a rainha. mas, vamos combinar, ela não é nem um exemplo de vida, né? haahah
    Bom, Na natureza selvagem eu não vi...mas se uma dia eu ver, vou lembra se sua crítica! :))
    o/

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  7. Oi Babi,

    Concordo com o que você fala quando analisa o aspecto histórico do filme, realmente deixa a desejar, mas quando vi Marie Antoinette com todas aquelas referências contemporâneas pensei que era um filme sobre jovens ricos e perdidos descontextualizado. Podia ser em qualquer época, inclusive hoje. No filme, os jovens não tinham preocupação com o futuro, a vida deles já estava ganha e eles não pensavam nisso. Só tiravam proveito do poder e da condição que tinham. Assim como muitos jovens de hoje. Marie Antoinette e seus amigos se preocupavam exclusivamente com o prazer e com o consumo. Resumindo, acho que é uma visão da diretora sobre jovens abastados que já têm a vida "decidida" por seus pais. A Marie Antoinette poderia ser uma Paris Hilton da vida nos dias de hoje.

    Sobre o Natureza Selvagem, o personagem principal é o oposto da Marie Antoinette. Ele busca algo maior do que a vida que leva, questiona o tempo todo o consumismo, a vida em sociedade americana etc. Ele tem uma motivação muito nobre ainda que inocente. Acho que naquele momento que estava sozinho quase morrendo, ele deve ter desejado que houvesse alguém para ajudá-lo. É isso. Gosto muito dos seus textos, garota, vc escreve bem, com muita clareza.

    Beijos

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  8. tenho nao, mulé, mas vou pedir por email.

    tu vai pra onde?!?!

    :*

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  9. Já fazem alguns meses que assisti Into the Wild e ainda não consegui digerir e nem formar uma opinião por completo... superficialmente o filme tem uma mensagem, mas quanto mais penso que o personagem foi alguém real, não sei se amo ou odeio... o Christopher era um extremista, e isso nunca é bom, por isso ele sofria tanto, e ele precisou ir longe pra (talvez) entender que necessitamos sim um do outro, não no sistema de sociedade, mas cada um em suas particularidades. Eu admiro o que ele fez, ao mesmo tempo que acho meio burro, mas admiro, a grande maioria não teria coragem de ir tão longe pra se conhecer... e sinto pelo fim que teve... mas enfim, acho que já estou ficando confusa, haha, só posso dizer que esse filme marcou e mudou minha vida, e também que AMO a trilha sonora. :)

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