terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Estacione em minhas memórias

Noitão

Desde quinta-feira tenho tentado lidar com a notícia mais desestimulante da semana: o Cine Belas Artes vai fechar. Ainda que o dono do cinema diga estar em busca de outro imóvel no centro de São Paulo para continuar seu empreendimento, é uma tristeza pessoal - compartilhada com uma pá de gente - saber que naquele endereço já não mais existirá um cinema tão bom. Existe uma memória afetiva com o lugar, com a sua programação diferenciada, como por exemplo o Noitão, em que são exibidos três filmes de um mesmo tema, na segunda sexta-feira do mês.

No fim-de-semana, terminei de ler o Peanuts (1971-1972) e me deparei com uma série em que o Snoopy quer mostrar para o Woodstock a fazenda onde nasceu. Quando chegam ao local, não há mais fazenda, e sim um estacionamento. O cachorro se dá conta de que estão "estacionando em suas memórias". Me identifiquei por completo. É como minha avó ter me dito que há pouco tempo derrubaram a casa onde ela nasceu; é a vida tendo que lidar com perdas materias em prol de um projeto de mundo.

Então me perguntei que tipo de loja curte o marketing de 11 mil pessoas (ao menos no Facebook) sendo contra o fechamento do cinema. Provavelmente uma loja que não atende o mesmo público consumidor do cinema e pense que isso não afeta sua relação com o seu nicho. Tenho minhas dúvidas. Ao mesmo tempo, pergunto-me se vale a pena protestar, se é possível reverter uma decisão de um proprietário particular numa cidade com políticas culturais tão problemáticas. Infelizmente, penso que não, penso que o projeto de mundo em que vivemos é esse mesmo: uma cidade que se diz moderna e vive nessa compulsão, poucas vezes pára para pensar se é preciso ter alguma tradição. Acontece apenas uma tradição da modernidade, em que estilos arquitetônicos são mudados em prol do novo, que será fadado a ser velho, e que, velho, estará condenado a não ser importante, tudo isso ultra-impulsionado por um mercado imobiliário que de tonto não tem nada.

7 comentários:

  1. Fico triste quando São Paulo não dá a mínima para meus elos emocionais com alguns lugares, não liga para os trabalhadores liberais que têm que tirar de seu bolso R$ 3 reais por cada passagem de ônibus e não gosta de artistas de rua na Avenida Paulista.

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  2. eu não sabia que o belas artes vai fechar...
    lembro que quando eu ainda morava em sampa, ele quase fechou e foi salvo, se não me falha a memória, pelo HSBC.
    ganhou uma reforma e um pouco de "glamour", mas continuou sendo o meu cinema predileto, tanto do passado quanto do presente de então.
    também me questiono sobre essa fúria devoradora da indústria imobiliária, que engole nossa singeleza, nossos sonhos, nossas lembranças...
    não é à toa que sampa, e outras cidades que, destentas às necessidades de muitos de manter tudo como está, agora se afogam em barrentas água de chuva, repletas de lixo, esgoto, fezes de animais e outras porcarias: as ruas impermeabilizadas, os quintais cimentados, os estacionamento que ocuparam o lugar dos parques, não permitem que a água possa se escoar naturalmente para o seio da terra...
    e é assim que é.
    espero 2012 com uma certa ansiedade.

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  3. Tomara que ainda dê tempo de reverter a decisão do proprietário e que alguém consiga salvar o Belas Artes. Não o conheço, como tampouco conheço São Paulo, mas imagino o que isso significa porque aqui no Rio também fecharam diversos cinemas tradicionais da cidade e ninguém, salvo a classe artística e uns poucos cinéfilos, se manifestou...

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  4. "A vida tendo que lidar com perdas materias em prol de um projeto de mundo." Sim. Um projeto com muito cinema e pouco afeto. :/ E nem precisa ser cidade grande pra ser assim. Cidade pequena se atropela ainda mais tentando ser grande... E as pessoas deslumbradas são ainda menos fracas pra protestar. ://

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  5. *Um projeto com muito concreto, eu ia dizer. haha

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  6. Eu tenho minhas memórias afetivas...meus cinemas da adolescência já fecharam faz tempo. Loja de móvéis ali, igreja acolá...mais uma igeja adiante.
    Deve ser a necessidade de salvação que faz com que a cultura e o lúdico sejam trocados por culpas, pecados e corrupção.
    tRISTE bABI. Muito mesmo.


    beijoka consoladora.

    ainda restam quintais pelos brasis

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  7. Mas o que seria das nossas memórias se não estacionassem nelas? Talvez se não decidissem fechar o Cine Belas Artes você não lembraria tão cedo o quanto ele te marcou, o quão importante é pra você.

    Acredito que nada é em vão e que mudanças nos abrem novas portas, nos permitem conhecer outros mundos.

    Gostei do seu blog! ;)
    Hugs

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