domingo, 19 de dezembro de 2010

Guerra é sempre.



Utopia e barbárie é uma autobiografia. É a história do cineasta Silvio Tendler contada visualmente por ele e ao mesmo tempo é o justo oposto disso. A história de Silvio vem em primeira pessoa, mas narrada por outros (Chico Diaz, Letícia Spiller e Amir Haddad), e se mistura com a história do mundo no século mais perturbador de que temos notícia. O ponto principal é o ano de 1968. O cineasta discute não só o ano em si, mas a geração que viveu à flor da pele aquele que foi, de acordo com o próprio filme, o ano mais orgásmico do século XX.

Não é possível falar de 68 sem falar da II Guerra, é preciso recorrer ao passado histórico, àquilo que está antes mesmo do nascimento da pessoa ou de sua atuação social e política. É preciso entender que é um mundo construído sobre escombros de uma bomba atômica, e sobre os escombros do holocausto. Depois, então, encontramos revoluções e guerras de libertação nacional, os levantes dos movimentos sociais e seus silenciamentos. As ditaduras militares. Encontramos, o tempo todo, utopia e barbárie (e nem sempre uma exclui a outra, às vezes andam intrincadas e legimitimando-se).

O gênero é documentário, mas os depoimentos são bastante variados. Dentre os depoentes, estão grandes cineastas de ficção, como Wolfgang Becker (de Adeus, Lênin!) e Denys Arcand (de O declínio do Império Americano e As invasões bárbaras). Quando mostra cenas de tortura de prisioneiros do filme A batalha de Argel, Silvio opta por encaixar uma frase que diz que quando faltam os documentos, a história é contada pela ficção.

O filme declara a crise a utopia, porque houve uma geração que viveu as grandes possibilidades em um curto período de tempo e que viu essas possibilidades ruírem e se corromperem. Mas a utopia não está morta, está apenas sob crítica. Ainda que desde o começo do filme estejamos distantes de uma esperança salvadora - até porque a esperança parece assassinada muitas vezes no século passado - o final traz um quê de otimismo. E eu que já começava a odiar minha geração, dei-me conta de que não somos jovens sem consciência (é preciso considerar, porém, que não falo de juventude como um grupo homogêneo e coeso). Somos jovens que agimos de formas diferentes, por meios distintos. Se estamos matando a História, abstendo-nos dela ou a transformando de modos variados e pontuais, só ela mesma nos dirá - talvez isso não seja dito nem no nosso tempo.

De qualquer modo, com esperança ou sem, logo no início do filme, lembrei-me de um frase de Primo Levi em A trégua que me parece bastante adequada:
"Guerra é sempre"
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4 comentários:

  1. Não vi o filme, só fique, agora, com vontade. Mesmo assim, seu texto me lembrou um pouco umas tirinhas do Laerte, da série 66.
    - parte I: http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/66/3.html

    - parte II: http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/66/2.html

    - parte III: http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/66/

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  2. Ficou a vontadinha. Adicionado à lista :)

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  3. A frase de Primo Levi é a mais pura verdade. E achei ótima sua análise do filme do Silvio, concordo plenamente.

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  4. mais fotos felizes!! :) Vou esperar para ver as fotos da praia.. e aposto q estão lindas! Espero q esteja brincando ao dizer 'tao boas' qto as minhas... hehe suas fotos são massa..gosto mto! ^^

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