quarta-feira, 3 de novembro de 2010

a trégua

alegria, alegria

É difícil se propor a escrever sobre um livro com um ponto de virada tão drástico como A trégua de Mario Benedetti.

O autor uruguaio nasceu em 1920 e morreu no ano passado. Ver as notícias de sua morte e seus excertos na internet me motivaram a ler alguma coisa sua. Quando A trégua apareceu na lista de livros indicados para eu fazer trabalho final de uma disciplina na faculdade, encontrei a motivação mais forte até então. Procurei o livro em alguns sebos no centro da cidade, mas um dos vendedores tentou me convencer de que o livro que eu queria era A trégua do Primo Levi. Disse-lhe que não, que Primo Levi é italiano, e fala de sua estada num campo de concentração na Segunda Guerra. O vendedor disse-me que Benedetti, uruguaio, fazia uma versão daquele livro. Mentira. Ganhei da minha mãe o livro do Primo Levi e estou percebendo que uma trégua nada tem a ver com a outra. Por fim, em uma promoção na internet, encontrei o livro que eu queria por dez reais e me poupei de pegar ônibus em busca do sebo perfeito.

O livro foi publicado em 1960 e é o diário de Martín Santomé. Relata, em primeira pessoa, seu cotidiano e, dentro dele, suas transformações entre fevereiro de 1958 e março de 1959. Martín é viúvo e tem três filhos adultos. A relação entre eles passa longe dos comerciais de margarina. Martín, às vésperas de seus 50 anos, enfrenta conflitos geracionais e tem que encarar as escolhas e rebeldias de seus filhos. As tensões não são solucionadas magicamente - há uma maior, envolvendo seu filho mais novo, que sequer é resolvida ao fim do livro.

Martín Santomé empenha-se em sua aposentadoria, depois de anos trabalhando em uma firma comercial. A aposentadoria é acelerada por relações de privilegiamento - e pagamento por esse privilégio, o que coloca o autor em um questionamento ético. À sua volta, a perspectiva não é muito diferente, aquela atitude é muito mais a prática do que a exceção; a corrupção rompe a letargia burocrática em que esses processos residem.

A moderna cidade de Montevidéu é o cenário do livro. Com ironia e uma certa melancolia, Martín Santomé retrata a solidão dentro desse centro urbano, que pode se estender a tantos outros. A cidade é mais um desses casos de grande desenvolvimento no século XX, que recebeu imigrantes europeus, sobretudo italianos e espanhóis, e que cresce vertiginosamente naquela primeira metade de século. Montevidéu recebeu o apelido de "Suíça da América do Sul", por seus altos índices de qualidade de vida. No entanto, depois da década de 50, a economia uruguaia sofre refluxos e a alcunha muda para "um país de fronteira", porque em momentos de crise, é nas suas fronteiras com o Brasil e Argentina que a população vai buscar sua fonte de renda (a partir, principalmente, de atividades agropecuárias).

Voltando ao relato de Martín, surge, então, uma trégua em sua vida, em seu cotidiano de marasmo. A narrativa torna-se uma história de amor, entre um homem de 50 e uma jovem de 24 anos. A vitalidade dele ressurge na figura dela, naquela ansiedade que precede uma declaração ou o primeiro sinal de afeto, o primeiro carinho, o primeiro beijo. Resta saber se aquilo não seria apenas uma trégua...

2 comentários:

  1. Não vou comentar, porque né... Também vou ler o livro :x

    Depois compartilho com você ;)

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  2. Esse post deu um gostinho bom de quero mais.
    Depois de os livros do projeto e dos trabalhos da faculdade - férias, cadê você? - vou reservar um tempinho e ler a Trégua )

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