domingo, 18 de julho de 2010

Um homem de moral


É provável que o assunto tenha começado por causa do Tom Zé, eu falando sobre o quanto o acho genial. Eu e o Caio estávamos no trem, voltando de Mariana para Ouro Preto, quando me atacou uma acrofobia. Esse medo de altura que às vezes me dá faz com quem as palmas das minhas mãos comecem a transpirar e eu tento fingir que não estou - como era o caso - no alto de uma montanha, sobre trilhos, entre um paredão e um abismo. A conversa em si começou com considerações físicas, porque comecei a imaginar que, em caso de queda do trem, passaríamos por uma situação de gravidade zero.

O Tom Zé tem algo de genial que vai além do seu talento como músico: é crítico e tem bom humor. E foi com esses dois elementos que ele lançou um álbum em suposta homenagem ao pagode, chamado Estudando o Pagode-Segregamulher e Amor. Em uma entrevista, o entrevistador (se bem me lembro, Jô Soares) começou a levar a sério o tal estudo. Tom Zé ponderou que o que o estimulara a lançar um álbum assim foi ver como o pagode se relaciona com a figura feminina, dizendo o que a mulher supostamente quer ouvir, mas afirmando o posto do homem como interlocutor. A comparação que faz é com a Bossa Nova, e cita Vinicius. "Que seja eterno enquanto dure". Uma frase que não diz tanto quanto parece, e é aceita assim.

Cheguei em casa semana passada da viagem a Minas Gerais e na escrivaninha estava o documentário Um homem de moral, sobre Paulo Vanzolini. Vanzolini nasceu em 1924, é zoólogo e compositor de vários sambas. Se procurar seu nome na Wikipedia, recomendo a página em inglês porque tem mais informações do que a em português, que se atém a seu trabalho como pesquisador. O documentário mostra entrevistas com o Paulo e algumas interpretações de suas músicas feitas para um álbum em sua homenagem. Chamado Acerto de contas, traz suas canções mais famosas na voz de grandes cantores, como Miúcha, Martinho da Vila, Chico Buarque, Inezita Barroso.

No trem, a conversa entre mim e o Caio tentava achar uma diferença entre samba e pagode. Concordamos que há uma diferença no rigor sonoro, o samba respeita mais a necessidade de melodia, harmonia e ritmo. Quanto à temática, acho que o samba também tem um quê machista, e o documentário tem um trecho com uma letra claramente machista. As letras dos pagodes são de juras de amor eterno (enquanto dure?) e que por serem assim tão malemolentes em suas mensagens parecem-me hipócristas, como qualquer romantismo exacerbado. Ao mesmo tempo, o machismo no samba parece ser sintomático, é o machismo de todo-dia, e acaba soando bastante sincero como retrato social.

Aos que acham que não conhecem música alguma de Paulo Vanzolini, faço questão de deixar o trecho de um de seus sambas mais famosos:

Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
Dá a volta por cima

3 comentários:

  1. Essa discussão sobre o que é samba e o que é pagode é interessantíssima. Porque se há raízes próximas, ao mesmo tempo também há diferença de sons, letras, histórias de forma inconfundível,
    Gostei da comparação entre machismo/juras de amor.
    Infelizmente, machismo ainda tem muito de retrato social.
    Beijos, Babi.

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  2. Ali, onde eu chorei, qualquer um chorava :=)

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  3. Olá! obrigado pela visita! Vc é de Sao Paulo não é? Sei que em sampa rola o Bistecão.. Aqui estamos mantendo o Empadão! Ontem foi legal! Ainda temos poucas pessoas mas está indoa té bem! Gostei do seu blog! Faz design.. fotografia? abraço

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