domingo, 13 de junho de 2010

Paranapiacaba

Pegue o dia mais frio do ano, coloque 64 pessoas em ônibus e leve-as para o ponto mais alto da Serra do Mar. Resultado? Meu trabalho de campo de ontem, em Paranapiacaba. Sei que comentar sobre temperatura é muito conversa-de-elevador, mas ela foi protagonista da saída de ontem. Acordei com frio e assim que vi a garoa que caía do lado de fora tentei criar um pouco mais de coragem do que a que tinha até aquele momento. Tomei café-da-manhã com pouquíssima pressa, buscando ainda a coragem de encarar o frio. Vesti-me com duas meias, duas blusas e um poncho com gorro (a salvação). Sou extremamente friorenta, percebem? Mas não importa quão grossas sejam as meias, meus pés são meus cubos de gelos corporais.

Cheguei à universidade e lá estavam os atletas que correm por ali. Correm aos sábados. Gelados! Eu tenho vontade de conscientizá-los da importância de se dormir até às 10h aos sábados... ainda que eu sinta alguma inveja da motivação deles todos (e são muitos! E eram muitos de shorts).

No ônibus da Veterinária, fomos para a Vila de Paranapiacaba. Eu já tinha feito esse caminho em 2003, com o colégio. Mas naquela época Paranapiacaba não parecia muito mais do que uma cidade fantasma. A partir de 2002, a prefeitura de Santo André passou a administrar a região, numa tentativa de resgatar a importância da ferrovia. Primeira parada da estrada de ferro que liga Santos a Jundiaí, Paranapiacaba foi vila de ferroviários e chegou a ter 5.000 trabalhadores acampados em seu território. Hoje, a população da área é de 1.300 pessoas.



cool



No caminho, um outdoor na estrada me chamou muito a atenção. Colocado sobre um barraco de favela, mostrava Gisele de lingerie. O slogan "Gisele é brasileira, sexy e linda". O contraste de realidades era tão óbvio que fiquei impressionada. Lembrei-me do poema de Drummond em que ele pergunta "Qual a maior favela do Brasil?".

Paranapiacaba tem quatro divisões: a vila inglesa nova, a vila inglesa velha, a vila portuguesa nova e a vila portuguesa velha. A diferença entre os dois grandes tipos de arquitetura (inglês e português) é notável. As ruas estreitas e sinuosas, as casas aglomeradas como se formassem uma fortaleza, os sobrados com comércio tomando a parte debaixo são as principais características do estilo português. Na parte inglesa, onde viviam engenheiros e ferroviários, as ruas são largas, obedecem a mesma padronização de cores. Em ambas as partes, as casas são geminadas. No alto, a casa do engenheiro-chefe, hoje museu, com um acervo parco (onde foi parar a mobília da casa?).

No trilho, uma composição antiga sendo comida pela oxidação.

Nosso guia era um cara muito engraçado, que ficou emocinadíssimo quando descobriu que muitos dos meus colegas de faculdade gostam de Naruto. Ele se achava meio estranho por ter quase 30 e curtir mangá, achou um alívio encontrar uma pá de gente fazendo faculdade e acompanhando desenho japonês. Ele também contou várias lendas e indicou as melhores cachaças de cambuci (fruta típica de Paranapiacaba).



blue-eyed collie



Tínhamos 20 minutos depois da monitoria. Paramos num bar e alguns tomaram cerveja, outros tomaram a tal cachaça de cambuci, refrigerante, e eu investi no quentão. E foi nesse momento em que reencontrei o calor na minha vida! (momento de alegria). Fomos para o ônibus e na volta do trabalho de campo encontrei namorado para tomarmos lanche. Não pela data, mas pela saudade.



does it finish?

2 comentários:

  1. vou me exibir um pouco:
    conheci paranapiacaba qdo eu tinha 16 anos... eu e meus amigos descobrimos o lugar por acaso, ao pegar o trem e descermos só no fim da linha.
    foi por pura curiosidade que embarcamos nessa, queríamos saber onde ia dar aquela linha de trem.
    na época, ele saía da lapa às 7 da manhã, e nós íamos todos os domingos, num grupo enorme de mais de 25 pessoas, todos cabeludos, tocando violão e gaita, vestidos como hippies e levando apenas cachaça e sanduíche. às vezes acampávamos numa cahoeira.
    naquela época não haviam restaurantes nem padaria, a única coisa comercial que existia era um antigo vagão de trem que funcionava como mercearia e que vendia de galochas a munição.
    frequentei a cidade durante muitos anos, depois parei de ir por e só retornei em 2007, por causa da fotografia.
    o lugar não está exatamente mudado, continua com aquele ar atemporal, aquelas pessoas que parecem sem passado nem futuro (ou melhor, parecem só passado) e aqueles cachorros vagando sem dono e sem comida; mas as pessoas já não olham os forasteiros com ar de espanto.
    chegamos a presenciar por lá um mega encontro de wickas (com fantasias e tudo, bizarro por demais...rs)
    a névoa continua, mas o trem não chega mais até lá, uma pena, perdeu metade da poesia.
    confesso que me sinto meio "dona" do lugar, uma sensação agradável de descobridora, desbravadora.

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  2. to apaixonada pela foto do cachorro.

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