sábado, 8 de maio de 2010

Santana de Parnaíba


E cá estamos com o capítulo dois do trabalho de campo. Hoje, em Santana do Parnaíba.

A meteorologia havia previsto chuva para o fim de semana. Considerando o grau de poluição do ar que eu sinto e vejo (o que me faz lembrar o porquê de eu não ver tanta graça no outono em São Paulo), o tempo seco estava me angustiando. Esperava alguma chuva que limpasse um pouco o céu. Uma professora minha me disse que o pôr-do-sol é mais bonito no outono, e é verdade. E descobri que são peculiares de acordo com o nível de poluição da cidade. Quanto mais poluído o céu, mais lilás e encantador fica o crepúsculo (embates ético-estéticos).

Saí de casa cedo e dei um rolê não-esperado no metrô, porque descobri que o ônibus que queria pegar não circula nos finais de semana. Pega metrô de novo, desce duas estações depois, espera o ônibus, ui, tô atrasada. Não estava. Uma guria que faz a mesma matéria que eu entrou no ônibus e fiquei mais aliviada! Se estivesse atrasada, não seria a única.


O trajeto de ida da faculdade para a cidade levou um pouco mais de uma hora, não fosse o ônibus não saber onde nos descarregar. Assim que descemos dele, então, fomos para a igreja matriz. Na verdade, o grupo foi. A minha parte se desviou um pouco, vendo um monumento que fica na entrada da cidade. Falo dele logo mais.



A igreja matriz é a terceira igreja "fundamental" de Santana do Parnaíba. As outras duas foram capelas destruídas por enchentes do rio. O centro histórico é um típico ordenamento colonial português: uma praça com uma igreja central rodeada pela prefeitura, polícia, pelourinho. Além de ser central na geografia da cidade, a igreja também é importante para romeiros que costumam ir para lá pagar promessas. No entanto, uma das guias disse que as romarias viraram 'eventos' de pessoas bêbadas e que quase não rezam. A igreja já foi menor e tem intervenções de épocas muito diferentes; grande parte de sua construção preza pelo barroco, o que acho ser típico do período colonial brasileiro (cidades históricas de Minas Gerais).


O centro histórico é tombado pelo CONDEPHAAT, e, ao lado da igreja, está a Casa do Anhangüera, que foi tombada pelo IPHAN em 1958. A dita casa é uma construção do século XVII e que foi reconhecida como uma casa bandeirista. No estado todo, são 9 as casas. Embora a do Tatuapé, na capital, esteja hoje inserida por completo na malha urbana, a Casa do Anhangüera foi a única construída nesse meio. Anhangüera, além do nome de uma rodovia, foi um bandeirante conhecido como "diabo velho". Não há provas de que de fato tenha passado pela casa de Santana de Parnaíba, mas é um mito que perdura. Assim como o do uso de um dos casarões da cidade para encontro de Dom Pedro I com a Marquesa de Santos. A construção da casa é de taipa de pilão e isso causa bastantes infiltrações. As intervenções do IPHAN ali também não parecem ter ajudado muito. Esses órgãos de patrimônio muitas vezes realizam reformas, e não restauros. Fazem reconstruções que, além de descaracterizar, podem danificar. Sem dizer que muitas cidades acabam vivendo num passado inventado para elas, num padrão "CONDEPHAAT"/"IPHAN" de arquitetura.


A população atual da cidade é de 120 mil pessoas. O número, no começo da década de 1970, não passava de 9 mil. O que explicaria esse aumento demográfico tão grande? A cidade passara grande parte dos séculos XIX e XX esquecida, voltada para sua própria subsistência, enquanto regiões do estado se desenvolviam com a chegada da ferrovia e a cafeicultura. Santana de Parnaíba deixara de ser ponto de passagem. A construção da barragem da Light em 1901 trouxe destaque novamente ao lugar, mas as construções de rodovias aumentaram ainda mais a sua população, grande parte de pessoas saídas de regiões vizinhas que seriam cortadas pelas estradas. Alphaville, que muitos pensam ser uma cidade, a Los Angeles brasileira, é, na verdade, um bairro de Santana de Parnaíba. A construção do Rodoanel também desapropriou casas de moradores que muitas vezes foram para Santana.


O rio apresenta uma espuma constante. Eu já a tinha visto em Pirapora do Bom Jesus, cidade vizinha. A poluição da capital que invade o interior. É curioso ver como o "desenvolvimento" da capital não passa incólume. É um desenvolvimento que agride.


Depois de um bom almoço, voltamos para ver o tal monumento. Uma exaltação dos bandeirantes inaugurada em 2006 pelo governador em exercício Claudio Lembo (ele assumiu pro Alckmin concorrer à Presidência; o grande acontecimento do seu mandato foram os ataques do PCC em maio). Há índios idealizados, um negro e bandeirantes heróicos. A nós, pode parecer até algo distante, mas, ao que parece, é um mito muito alimentado na cidade, em que as famílias tradicionais reconhecem-se ainda como descendentes daqueles "paulistas desbravadores". O Tratado de Tordesilhas é representado por uma cobra e empurrado pelas Bandeiras. Um ufanismo imenso em forma de estátuas e idealizações que fazem sentido na memória coletiva da população do centro histórico, e que excluem as populações dos bairros mais recentes e afastados.

E a meteorologia acertou e choveu torrencialmente na volta. Fiquei buscando meios de voltar logo para casa, ônibus, metrô, ônibus, molhei a calça a meia, mas tive um momento muito amor no ônibus: duas menininhas cantando Fico assim sem você, com direito a esquecer a letra e trocar a ordem dos versos. Fiquei toda enfofada, confesso.

5 comentários:

  1. Queria ter trabalhos de campo assim :/ Achei linda a descrição de todo o cenário, deu vontade de conhecer! E esse momento mágico do fim do dia é muito amor de verdade *-*

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  2. ah! lá tem um lugar que vende pastel de alcachofra até.
    (desencana, comentário sob efeito de medicação hhahha)

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  3. olá! aqui é a paula, do http://pictorias.com/ e estou retribuindo a visita! muito obrigada, viu? :)

    seu blog é muito legal também, adorei o texto!

    beijão!

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  4. Deu vontade de conhecer o lugar...

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  5. deve ser bacana :)
    bonitas as fotos!!
    beijos, boa semana!

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