domingo, 25 de abril de 2010

guerras gravadas

Cheguei à época de ser zumbi na faculdade. Sou uma das pessoas mais ansiosas que conheço e acabo querendo terminar tudo logo e por isso estou na frente do computador no sábado quase que o dia inteiro. Terminei uma prova e um relatório. Não gosto de deixar coisas para me preocupar durante a semana, já que o ritmo que se impõe acaba me deixando como não-sujeito na minha própria vida. Em suma, eu sigo o fluxo, e ele é frenético.

Assisti a uma porção de filmes nos últimos tempos, mas hoje quero escrever sobre o Guerra ao terror. Quando falei que vi o filme, duas pessoas me recomendaram ler a matéria da Piauí sobre tatuagens dos soldados. Eu particularmente gosto muito dessa revista. E no setor onde trabalho ganhamos algumas edições antigas de uma colega de outro setor. Ganhamos também o álbum de figurinhas da Copa do jornal de domingo, e resolvemos colecionar coletivamente. Não vou me ater muito ao assunto, mas o álbum da Copa merecia uma errata depois da competição, tem umas escalações que são muito sem-chance.

Sobre o filme então. Os jornais se dividiram sobre o merecimento ou não do Oscar. A Folha de S. Paulo parecia favorável, enquanto o Estadão achava que James Cameron merecia mais.

The hurt locker foi uma produção barata em termos hollywoodianos. Traduzido em português por Guerra ao terror perdeu muito do significado do termo. Em inglês, de acordo com o Urban Dictionary, "hurt locker" é uma expressão usada pelo esquadrão anti-bomba ligada diretamente com um acontecimento doloroso como, por exemplo, a explosão de uma bomba. Não sou do tipo que defende tradutores de filmes, mas "terror" pode ter uma conotação interior também. O título em português, de qualquer forma, parece não contemplar esse viés porque já virou canônico o "Guerra ao terror" como um discurso de política ofensiva externa de um determinado país a outros.

O número 40, de janeiro de 2010, da Revista Piauí traz uma matéria sobre um documentário feito em um estúdio de tatuagem próximo a um alojamento militar nos Estados Unidos. Guerra gravada na pele relata a importância das tatuagens para os militares estadunidenses e a transformação deles a partir dos desenhos que inscrevem na pele depois da guerra. Antes de partirem, os soldados costumam gravar imagens que assustem os inimigos, que os caracterizem como destemidos. A volta, porém, não os deixa com a mesma confiança. As imagens carregam o sofrimento dessas pessoas e o mundo particular em que elas passam a viver. A dona do estúdio diz que quanto mais eles vão para a guerra, mais surreias se tornam suas tatuagens.

Dizer que Guerra ao terror seja uma apologia às guerras gêmeas (Afeganistão e Iraque) me parece simplista. O argumento do filme não busca uma reflexão nesses termos, nem a matéria da Piauí procura buscar. Guerra ao terror é ficção mas nos aproxima de uma rotina de tensão. São indivíduos lutando por um país que não é verdadeiramente um país. São interesses de Estado e não interesses de indivíduos. As tensões vêm de todos os lados, do inimigo (claro!), mas dos companheiros militares também.

Assistimos nessa semana ao vídeo feito por um dos estudantes da Unicamp que esteve no Haiti pouco antes, durante e pouco depois do terremoto (falei deles nesse post). O vídeo Haiti - Estamos cansados traz inconvenientes relatos da população haitiana e de brasileiros que lá estão. O país está em estado de exceção há décadas. O Brasil tem soldados lá e a ação da MINUSTAH (força de paz da ONU no Haiti) é muito questionada. Mas e daí? É essa a sensação e o pensamento recorrente. Em nenhum momento me foi perguntado - e duvido que será - se apóio o envio de efetivos militares para o Haiti. Nunca foi feito plebicito no Brasil. São interesses de Estado numa lógica imperialista. Os termos podem soar panfletários, mas é como vejo a situação. Posso dizer "Brasil, desocupe o Haiti" o quanto quiser que nada mudará enquanto for interessante ter um lucro de 100% em cima da mão-de-obra haitiana. Assim como funciona na lógica de guerra estadunidense.

[O Caio também postou sobre o filme e o argumento foi contruído por nós dois, por telefone. O post dele: Guerra ao terror (The hurt locker) - debates]

4 comentários:

  1. Infelizmente ainda nao consegui assistir ao "The hurt locker", mas já tinha visto várias discussões acerca do filme que me deixaram interessada. Essa matéria da Piauí, inclusive, eu cheguei a ler.
    Essa questão de interesses é um tanto quanto delicada; a gente vira um grão no meio de toda a areia e não consegue mudar nada. Essa triste política de estado, como sempre...

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  2. assisti esse filme faz quase um ano atrás - nessas idas a locadora onde a gente não sabe bem o que quer e pega qualquer filme que nunca ouviu falar antes. boa surpresa. se essa diretora filmar mesmo sobre a situação política aqui, na américa latina, eu gostaria mto mesmo de ver.

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  3. é tão feliz pro coração
    ver esses desenhos...

    eu queria adicionar seu blog no meu
    mas eles não se comunicam... snifs !
    (é que o meu é wordpress)

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  4. comentei no tópico errado...rs

    outro dia passou "garapa" na TV.
    covardemente confesso
    que não consegui assistir...

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