sábado, 20 de março de 2010

São, São Paulo

Discordo categoricamente de que "ê, São Paulo, ê, São Paulo, São Paulo que é terra boa, São Paulo, terra da garoa". Morar aqui é algo que me cansa com facilidade, apesar de encontrar muitas coisas boas. Não existem dias de folga vazios para os que querem se divertir, mas os dias de trabalho alcançam um grau de irritabilidade imenso, e sem muito esforço. O trânsito, o tempo abafado, o metrô/ônibus lotado, uma cidade com 12 milhões de pessoas...

Hoje foi um dia diferente. Saí com a turma de uma disciplina da faculdade para analisar as fontes visuais de São Paulo e toda a ideologia que, não só essa cidade, mas o estado de modo geral, carrega. Posicionando São Paulo como a "locomotiva da nação", posicionando o Monumento às bandeiras rumo à Avenida Brasil...

Ensinam nas escolas que o "ser" paulista vem da tradição dos bandeirantes e estamos nessa disciplina tentando desconstruir esse mito. Dizer que somos descendentes dos bandeirantes é um problema colossal, porque legitima a ação daqueles que escravizaram índios, legitima a mestiçagem como um processo pacífico de integração cultural, legitima ações impositivas desde o século XVI até hoje, além de excluir do imaginário dessa cidade milhares de personagens importantes como os migrantes.

Monumento às bandeiras



A primeira parada foi no monumento de Victor Brecheret que fica em frente ao Lago do Ibirapuera, próximo ao Obelisco. O famoso "deixa-que-eu-empurro". Meu grupo se propôs a analisar os tipos representados na escultura. É engraçado como passamos por ela e a temos fortemente na cabeça sem fazer idéia do que se trata. Sabemos que são pessoas com uma embarcação, dois cavalos, e sabemos até que se chama "Monumento às bandeiras". De perto, no entanto, podemos saber muito mais. À frente, estão um padre e o chefe da missão, que olha para trás. Há portugueses e índios facilmente identificáveis no aglomerado do meio e a última pessoa do aglomerado parece a represetação de um negro. De perto, eles estão nus e os pênis ficam erguidos estranhamente (juro!, não escrevi isso para que alguém procurando pornografia histórica no google caia no meu blog). Uma coisa que chamou bastante nossa atenção foi a imagem de um português com duas índias, uma delas com um nenê no colo (miscigenação detected).



Páteo do Colégio


Quando eu tinha seis anos, minha mãe me levou para passear pelo centro histórico da cidade. É um lugar que me fascina! Pareço turista quando chego ali. Semana passada fui ao Páteo do Colégio e fiquei observando as construções ao redor. De original do Museu Anchieta só permanece uma parede de taipa. Ainda assim, a construção destoa dos prédios públicos em estilo neoclássico e dos "modernos" - pra década de 70 - edifícios comerciais do centro velho. A escultura à frente do Páteo carrega um típico tom jesuítico, com Anchieta catequizando os índios.
Destaque prum grupo de italianos com quem conversei. Um dos senhores adora a palavra "oi!", já que o "ciao" deles serve tanto como o nosso oi, quanto para o nosso tchau. Ele disse gostar da diferenciação. Por algum motivo começaram a falar sobre a Copa de 2014, e disseram que gostam do nosso futebol, blablablá. Típico.




Vila dos Ingleses


A Vila dos Ingleses fica na região da Luz e é Patrimônio do IPHAN. Ali moraram os engenheiros durante a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí. Um fato curioso que a professora nos contou foi do isolamento da Vila pelas Forças Públicas durante greves de operários. Temia-se que os operários entrassem em enfrentamento com os engenheiros, seus chefes. A Força Pública naquela região me parece algo curioso também, pela quantidade de prédios que abrigam ou obrigaram a polícia de São Paulo, entre eles o DOPS, que atualmente é a Estação Pinacoteca (e HOJE abriu uma exposição do Andy Warhol!).




Estação da Luz



Última parada! Com um piano no meio do seu salão, a Estação da Luz promove um encontro e desencontro com a arte. O som de desconhecidos tocando o piano (qualquer um podia sentar e tocar) era belo e confuso. Ao mesmo tempo em que eu me absorvia com as teclas pressionadas, o barulho e o movimento me faziam lembrar que eu não estava no lugar certo para aquilo. Quem aproveita? O que seria um estímulo à cultura passa batido pela maioria que circula por ali, simplesmente porque não está na lógica do movimento frenético de uma estação de trens e metrô.

6 comentários:

  1. Belas fotos. Deu até vontade de conhecer essa São Paulo aí...

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  2. Nossa, passeei por São Paulo em 5 minutinhos e nem enfrentei trânsito!

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  3. Hahahaha, concordo com o Eduardo. Me senti num tour pela cidade. :) E a Estação da Luz é uma das coisas mais lindas de SP, na minha singela opinião (também acho o viaduto do chá lindo... go figure). :)

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  4. Já fui pra São Paulo algumas vezes, pra passear e trabalhar, mas sempre volto muito cansada, não sei se é o ar, a correria... Acho alguns lugares maravilhosos, e nem imagino como seja morar em uma cidade que tem TUDO, mas ao mesmo não me imagino mesmo morando em SP. Aliás, acho que daqui a alguns anos vou é mesmo me mudar pra alguma cidade ainda menor, hehehe.

    Suas fotos estão muito lindas! :)

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  5. as fotos ficaram ótimas.


    .

    Belo Horizonte anda caminhando para o stress das grandes metrópoles, o bom mesmo é ter um tempo pra respirar um ar puro uma vez ou outra!

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